terça-feira, 6 de junho de 2017

Pedaços de inspiração

A Amélia coube a então difícil tarefa de se desvincular da linha histriónica que o mestre professava. Rosa não era um actor qualquer, mas o prestigiado co-fundador da companhia à frente do Teatro Nacional. Formado na eloquente escola de declamação romântica, dominada por abundante gesticulação e regulada pose e alternada por lágrimas, suspiros e gritos de todas as tonalidades. Mas em meio tão adverso à nova corrente, o derrube de velhos códigos e práticas de representação terá sido um processo moroso e híbrido.
Amélia parece percepcionar o excesso de academismo das aulas do mestre. Conta "eu tinha muito bom ouvido, apurado naturalmente no meio musical em que tinha nascido (...) à força de querer obedecer cegamente a meu mestre, nos textos em que trabalhávamos juntos, sem ter o propósito de o imitar, tinha, ao que parece, apanhado muitas das suas inflexões, a tal ponto que o caso já começava a ser comentado a meu desfavor. Chamou-me um dia a sua casa, o meu amigo Dr. Afonso Lopes Vieira, e ali, na sua biblioteca a sós comigo, durante umas horas tentou convencer-me a que, ao iniciar a minha carreira profissional, eu devia esforçar-me por me libertar da influencia do Mestre e provar o que poderia fazer só por mim (...) Não pretendia, é claro, criticá-lo mas somente - e com muita razão - fazer-me compreender "o seu a seu dono", e que o que naquele grande artista era um sinal da sua poderosa personalidade, na minha boca e juventude se tornaria pretensioso e feio."

Fotobiografias do Séc XX, Amélia Rey Colaço

Sem comentários:

Enviar um comentário