domingo, 25 de junho de 2017

E chego a casa. Dirijo-me vagarosamente para a janela, como quem sabe que a espera tem sempre um retorno, um sentido, um presente. Abro aquelas superfícies duras em par e o meu coração solta-se num uníssono com a paisagem. A paisagem que tantas vezes contemplei e que me ensinou a saber amar. A ser livre como só ela, numa altura onde eu queria ser tudo menos livre. Fazia exatamente o contrário. Tinha pertenças, pertences e a entrega era condicionada. Só ali me encontrei ao ver aquela vastidão dos dias, as nuvens a desfazerem-se nas serras, a lua a balouçar sob a perfeição, as árvores vigorosas e calmas que testemunhavam a passagem dos anos. Essa paisagem, pudesse eu levá-la. Pudesse eu sonhá-la todas as noites, aconchegar-me o coração quando tudo é betão e descartável. Conseguisse eu conversar com ela e dizer-lhe que fiquei mulher. Que aprendi a largar, a ceder, a não vitimizar. Que a natureza não tem dramas e certezas e que justamente aí, eu me quis associar à sua vida. Para ser mais maleável, mais íntegra e inteira. Foi isso que a paisagem sempre pediu, em silêncio, quando agitava o vento nas encostas, quando as nuvens traziam mudanças e o sol, o calor dos dias que foram. Mas principalmente, o sol dos dias que ainda estavam por vir, quando o interior fica gradualmente mais iluminado.

Sem comentários:

Enviar um comentário