terça-feira, 21 de março de 2017

Pós de per-lim-pim-pim

Fui comprar morangos frescos e suculentos, para perceber se poderia adjectivar a tua boca também assim.
Preparei tudo aprimoradamente. Não sabendo se estariam doces o suficiente, e contando que não poderíamos despender de nenhum, coloquei-lhes um leve pó de açúcar por cima, um pó tão meloso quanto me gosto de sentir.
Entretanto, quando os trouxe e provaste, amarguei-te com surpresa o paladar, pois na pressa de agradar (como são todos os anseios românticos) utilizei o sal em vez do açúcar. Que tolice a minha! Mas foi nesse dia que entendi que por mais que se tente cortejar, dar o melhor, apaixonar, seduzir, o sal estará sempre presente, nós é que iludidamente o adiamos na esperança que nos vejam sempre perfeitos. Mas também importa e interessa o dia que é menos bom, o defeito menos prático, o lado lunar mais eclipsado, pois confere a perfeição, naquilo que é um total, o total do individual de cada um.
O açúcar extrai-se da cana que é cortada e replantada, enquanto o sal provém do mar, a fonte universal que ondula em semelhança por dentro de nós. Portanto, ao invés de plantar zelosamente canas, vamos deixar também fluir aquilo que temos de mais natural, sem esconder ou ter vergonha. Sob pena de nos tornarmos algo aborrecido com um só sabor.

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