domingo, 19 de março de 2017

Estado líquido

O tempo limpa tudo.
Num modo tempestivo, como uma torrente de bátegas vigorosas, depois em rios e pequenos riachos que correm, fluem e derivam no contínuo caudal... persistindo em pequeninas poçinhas, onde com ou sem galochas, se insiste em procurar molhar os pés...
A verdade é que o tempo usa e abusa de água.
Agradeço interminavelmente a todas as mulheres que fui, nesse tempo onde precisava de mais água exterior, para conseguir transformar espaços de fogo e ar, singelos e imaculados, que pesavam dentro de mim. Espaços esses que, mais ou menos crescidos, mais ou menos vividos, mais ou menos felizes, foram fieis a qualquer coisa que tinha lá dentro, mesmo que essa fidelidade fosse o quase compromisso ingénuo com a minha própria responsabilidade. A de, através da opcional vivência de desapegos e apegos, dores e caminhadas, brindes e choros, verificar que a verdadeira opção responsável liberta, não aprisiona. Não me coloca mais rígida, mas em permanente gratidão por companheiros, palavras, noites de chuva e dias sem sol. E chuva no sol ou dias nas noites.
Nada de positivo nasce sem esforço.
Sem acreditarmos que de facto, somos principais na nossa maior história, em conjunto com a honra que temos de entrar, viver e contribuir para a história dos outros.
Por tudo isso, sou muito grata a todos os que me deixaram entrar.
Só para hoje poder dizer que com isso sou mais mulher.
E que os amei a eles, e a todas elas, aquelas que eu fui nesse caminho.

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