terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Da inútil condição onde nos colocamos

Hoje olhei para uma árvore estando precisamente debaixo da copa, vendo as ramificações, curvaturas e diâmetros subsequentes. Recordei-me tão bem do sobreiro que dava nome à minha rua, que deixou de existir, como tudo o que são memórias do passado. 
Quando somos pequenos é tão fácil subir árvores, quanto mais difícil mais agradável o desafio e sentimo-nos tão naturalmente incluídos nessa simplicidade.
E agora? Que temos pernas e braços maiores, julgamos que eles não conseguem ter a mesma agilidade, amedrontamo-nos com a exigência de algo que antes nem era pensado.
Porque nos estupidizamos?
Que vida é esta que serve para nascer em potencial e definhar no tempo, declinando não corpo - que é o que preocupa as pessoas e afinal não é assim tão preocupante - mas sim a agilidade de viver??
É tudo um conforto, um ai ui, um cuidado aí, um vou pesar muito bem tudo para tomar uma decisão bem ponderada.
CARAÇAS.
Caraças para isto tudo.
Não quero ser estúpida ou ficar estúpida. É um receio atroz que me assola.
Ter potencial para viver e castrá-lo todo.
Julgar a minha existência mais importante do que a árvore. Ou de nunca descobrir que posso voltar a subir à árvore, ainda mais alto e confiante se eu bem o quiser e decidir.
Por isso paremos por aqui.
Acabou com este ignorância toda e um caminhar para a plena burrice.
Eu sou quem quiser e o que quiser.
Entrego isso a mim e a esse infinito que não vejo mas sinto.
E entrego não esperando nada em troca, não objectivando, não expectando, não enumerando ou reclamando. Colocando nessa entrega algo tão inabalável como estar pronta para qualquer que for a consequência ou o caminho.
Só porque, como a vida, sou um contínuo potencial. Sou grãos de areia no deserto, cascas de árvore, folhas verdes, caducas, riachos frescos, ondas em agitação e vento que desliza pela cara, ou uma montanha imponente no inverno gelado.
E a consciência dessa força faz-me ficar preparada e receptiva para viver.
E não para julgar que a vida é só isto, este cubículo, esta fraca força, esta pré-determinação, que nos é tão ensinada e imposta.
Se a consciência for esta não vale a pena em miúdo subir árvores. Mais vale aprender logo a saber como cortá-las.

2 comentários:

  1. Reflexão maravilhosa, inteligente e assustadora, infelizmente muito real. Passamos mais tempo a ser nossos inimigos do que amigos, deitamo-nos mais a baixo, que nos puxamos para cima, felizmente vai havendo quem nos mostra quão ridículo isso é! Obrigada pela tua clarividência e partilha <3

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  2. O pior deste mundo é o talento desperdiçado, ouvi isto recentemente

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