quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Bora lá (que este título assim é literário)

Enquanto corro, atento em como a estrada parece longa, embora bem assinalada e invariavelmente convidativa. Noutros momentos observo caminhos onde a terra está esbatida, a relva seca ou verde, pedras e paus derivando pelo percurso, sinaléticas facilitadoras e locais onde não figuram nenhumas instruções. Distraio-me a contemplar a extensão de estrada e os neurotransmissores - ou a minha pequenez disfarçada - interpretam-na como informação que vem perturbar tão esforçado rendimento. 
Ainda falta muito para alcançar o objectivo. 
E todos os músculos, dos esqueléticos aos cardíacos, pedem-me que abrande, respeitando cordialmente o nível de exaustão. Contudo, alguns órgãos enviam forçosamente a mensagem de que é para aguentar, sim, sim, sim, sim senhores é para aguentar e não parar. 
Nisto reparo que deixei de contemplar o horizonte. Esse horizonte tão vital quanto pérfido, que se avista difícil, distante, inalcançável e que nos faz desejar já estar nele, pela dureza que sabemos que o caminho contém até lá.
Mas a panorâmica muda. Ajusto a abertura do meu diafragma, que já não sei se é o músculo, se é o sensor da minha própria lente, regulo o foco e percebo onde me tenho de concentrar. 
Eu não sei se no final daquela linha estarei completamente exausta, extenuada, exaurida mas não me interessa pensar em como lá chego. Se até lá me acompanharam as pessoas que correram comigo, ou quem me acenou afetuosamente de um banco. Importa-me a consistência pessoal .Não se trata se vou lá chegar. Eu vou. Mas só vou se me concentrar neste agora, que apenas me mostra um metro da estrada onde tenho os pés. Neste agora, que tem de ser bem pisado, bem medido, bem sentido. Onde fico absolutamente focada para um ideal maior que está em horizonte mas é tão tangível quanta essa etérea meta.
É que quando se está em modo agora, vivo, presente, o horizonte enche-se de nós e nós dele.
Só para nos relembrar que quando se está pleno de si próprio, o horizonte não é a meta. Ele e nós somos um só, denunciado pela força e fulgor com que se percebe a vida dentro de nós.

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