domingo, 29 de janeiro de 2017

Entraram no elevador juntos, embriagados pelo sorriso das afinidades, aquele sorriso que surge na naturalidade de quem percebe algo verdadeiro a nascer, embalado pela cadência do tempo, esse tempo, sempre fluído, companheiro e presenteador. 
E ao entrar na caixa transitória de movimento, sentiram-se arrebatados para outros caminhos, talvez ascendentes e instintivos mas nunca vulgares ou banais.
Ele colocou-se por trás dela e elegantemente sentiu-lhe o cheiro dos cabelos. Esses cabelos longos, reluzentes e vivos, que exalando a harmonia de mil frutos, permitiam que a sua imaginação vagueasse incerta na descoberta de outros mais secretos. E com esse vívido prazer em mãos, tentou indagar a origem dos odores que o seduziam, mas foi rápido em esquivar-se a lógicas e análises, pois perturbavam o que apenas precisava de ser sentido. 
Nisto, cerrou os olhos e permitiu-se a experienciar como aquela envolvência invadia e tocava cada parte do seu corpo. Cada parte distante, distinta e desprovida de racionalidade ou controlo. E assim, atentou ávido no desejo em que pretendia mergulhar. Se aquela boca que contemplava, também lhe iria oferecer generosamente outros aromas - quiçá mais quentes, demorados e prometidos - e se nesse sonho, não resistiria em permanecer, dando-se por absoluta e apaixonadamente vencido.

1 comentário:

  1. Até eu fiquei com calores :P
    adoro a forma como descreves situações. Gosto mesmo.

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