quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

De 2007

Acordou, abriu a janela, respirou fundo.
Olhou para o céu com os seus olhos pensativos - Hoje está um belo dia para isto - disse para si próprio.
Uma das regalias que o seu prédio lhe oferecia era o acesso ao último andar, onde se situava um terraço enorme. De lá conseguia ver o anoitecer embalando a cidade, quando a natureza e o Homem rivalizavam luzes. E era para lá que se deslocava sempre que se sentia mais sozinho.
Entrou no terraço sem pressas, com uma calma sinistra a dominar todos os seus movimentos.
Desta vez não quis olhar para o céu.
Devagar, aproximou-se das grades que circundavam o terraço, grades estrategicamente colocadas para impedir que alguém ou algo caíssem. Ninguém gostaria de cair de um sétimo andar.
Foi então que se começou a relembrar dos tempos de escola, dos jogos de futebol até ao entardecer, dos beijos da mãe quando trazia notas menos boas, dos sustos do pai ao brincar às escondidas pela casa, dos almoços apetitosos em casa dos avós, lembrou do primeiro beijo, dos amores, dos amigos, das pessoas que o deixaram e que ele deixou, dos caminhos que seguiu, as oportunidades que ganhou e perdeu, as vitórias, injustiças que sofreu e que fez alguém sofrer, os fracassos, a magia, a natureza. Sentiu música, muita música. A beleza do ser-se livre. Sentiu sol, chuva, vento, desejos insatisfeitos, o tempo que desejou não ter passado.
Sentiu tudo isto bem forte no seu ser.
Apenas não o soube sentir tão claramente enquanto estava vivo.

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