terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A propósito do que nos inunda a TV

Quando eu morrer não quero Requiem, apesar da devota admiração à beleza da música clássica.
Quando eu morrer quero que se chorarem, imediatamamente se riam.
Quando eu morrer, fosse figura de Estado ou uma qualquer, devia de haver arte. Música deleitosa, peças de teatro etéreas como o enlaçe aos valores nobres que dão ânimo ao Mundo. Poesia e filosofia.
Quero que comam e bebam - muito e bem.
Quero peças de roupa leves e coloridas. Laranjas, quentinhas, cheias de luz.
Quero árvores, flores, água, brisa quente ou fresca.
Não quero que pensem na minha pessoa, mas no que eu transmiti de melhor com a minha pessoa. Com esse veículo físico e material que é o corpo, que cá perece e fica.
É talvez a consciência desse veiculo fisico que se deixa de ver, que mais nos faça sofrer.
Temos que começar a transfigurar esse sofrimento, não para o que deixou de existir, mas para aquilo que, em existindo, nos marcou, valorizou e fez a diferença para melhor.
Essa é a beleza de encarar a morte - a minha e a dos outros.
Inspirar no invisível que cá ficou, no melhor que se deu, sabendo que enquanto houver dádivas e entregas, só a pessoa morre. Não o que deixou de inspiração.
Encaremos isso como uma razão mais para não deixar quezílias, lutas, disputas e pequenezas que nos afastam e que, independentemente de um dia chuvoso ou de sol, façam o Universo sentir que não evoluímos e aproveitámos o que realmente deveríamos. Porque, mais lamentável do que deixar algo por fazer, é deixar de mostrar um sentimento positivo ou o reconhecimento e elogio do melhor de alguém. E isso - se insuficiente ou com outros propósitos intencionais - não fará seguramente, com que a vida nos recorde. Seremos nós a recordá-la com a noção de que lhe demos pouco.

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