terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Quantos amores existem numa vida?

Em algo com um potencial tão vasto, múltiplo e complexo como é a vida, esta desenrolar-se-á com os inúmeros caminhos que surgem, mesmo já dentro de muitos outros que estejam escolhidos. Quer seja destino ou predestinação, livre arbítrio ou plena certeza da lógica e do éfemero, pragmatismo ou poesia e beleza extraída, quantos amores existem numa vida?
Quantos pianos ficarão a tocar?
Quantos sorrisos voltariam a relembrar
Quantas imaginações ficaram esvoaçantes
O que quer que consegue unir-nos em instantes?
Talvez exista alguma sabedoria
em não mais voltar
a uma estrada perdida
que findou junto do mar.
Julgamos nós seguir a vida
veloz e astuta nas suas qualidades práticas e reais
mas não será ela que nos segue
fazendo de nós aquilo que não somos mais?
"Quanto mais escutares, mais ouvirás. Quanto mais ouvires, mais profunda será a tua compreensão."

O Livro tibetano da vida e da morte

domingo, 29 de janeiro de 2017

Entraram no elevador juntos, embriagados pelo sorriso das afinidades, aquele sorriso que surge na naturalidade de quem percebe algo verdadeiro a nascer, embalado pela cadência do tempo, esse tempo, sempre fluído, companheiro e presenteador. 
E ao entrar na caixa transitória de movimento, sentiram-se arrebatados para outros caminhos, talvez ascendentes e instintivos mas nunca vulgares ou banais.
Ele colocou-se por trás dela e elegantemente sentiu-lhe o cheiro dos cabelos. Esses cabelos longos, reluzentes e vivos, que exalando a harmonia de mil frutos, permitiam que a sua imaginação vagueasse incerta na descoberta de outros mais secretos. E com esse vívido prazer em mãos, tentou indagar a origem dos odores que o seduziam, mas foi rápido em esquivar-se a lógicas e análises, pois perturbavam o que apenas precisava de ser sentido. 
Nisto, cerrou os olhos e permitiu-se a experienciar como aquela envolvência invadia e tocava cada parte do seu corpo. Cada parte distante, distinta e desprovida de racionalidade ou controlo. E assim, atentou ávido no desejo em que pretendia mergulhar. Se aquela boca que contemplava, também lhe iria oferecer generosamente outros aromas - quiçá mais quentes, demorados e prometidos - e se nesse sonho, não resistiria em permanecer, dando-se por absoluta e apaixonadamente vencido.

A beleza inigualável da escrita de Eça de Queiroz (ou do amor)


- Quanto incómodo por minha causa!- disse ela. - Realmente como lhe hei-de eu agradeçer?...
Calou-se; mas os seus belos olhos ficaram por um instante pousados nos de Carlos, como esquecidos, e deixando fugir irresistivelmente um pouco do segredo que ela retinha no seu coração.
Ele murmurou:
- Por mais que eu fizesse, ficaria bem pago de tudo se me olhasse outra vez assim.
Uma onda de sangue cobriu toda a face de Maria Eduarda.
- Não diga isso...
- E que necessidade há que eu lho diga? Pois não sabe perfeitamente que a adoro, que a adoro, que a adoro!
Ela ergueu-se bruscamente, ele também - e assim ficaram mudos, cheios de ansiedade, trespassando-se com os olhos, como se se tivesse feito uma grande alteração no Universo, e eles esperassem, suspensos, o desfecho supremo dos seus destinos...
(...)
- Diz-me ao menos que és feliz - murmurou Carlos.
Ela lançou-lhe os braços ao pescoço; e os seus lábios uniram-se num beijo profundo, infinito, quase imaterial pelo seu êxtase.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Obrigada E.

Quando seremos evoluidos?
Não será no último doutoramento, na persecução de uma vida de objectivos palpáveis em casas, alianças, filhos, sonhos, betão e celulose. Não será certamente por cultura geral extensa passível ou QI fora de série.
Seremos realmente evoluídos quando todos forem amor.
E à parte de qualquer movimento religioso, exasperações de carinha fresca, esta só pode ser unicamente a força pela qual temos de vibrar.
Tenhamos todos a decência de não magoar ninguém.
De não dar um estalo físico e mental.
Apontar o dedo.
Falar com raiva.
Ser raiva. Egoísmo.
Gritar com alguém, indefeso ou que se defenda.
Obrigar alguém a gostar de nós, estar connosco, ser um carrasco de algo.
Um controlador, um castrador de naturalidade.
Abusar da vulnerabilidade, sabendo-o.
Tenhamos decência, vergonha.
Se o mundo fosse evoluido não se tinham inventado leis e direitos humanos.
Se o mundo fosse evoluido não se tinha especializado a psicologia e psiquiatria apenas com a doença em base genética de causa isolada. 
Sejamos francos. Que queremos nós fazer do mundo? Da vida? Das relações que mantemos com estranhos, amigos, amores, subordinados, colegas, familía?
Tenhamos vergonha na cara por favor.
Sejamos amor ainda a tempo de alguma coisa.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O movimento global, como ondas tumultuosas ou tranquilas progride até ti, mesmo que julgues que pouco ou nada se possa estar a formar.
Podem ser mais agitadas ou trazer apenas água mais fria ou quente conforme as correntes.
O que interessa é sentires esse movimento.
Essa cor. A força ou a calmia.
A rebentação em algum lado.
É sinal que alguma ideia nasceu.
É sinal que algum sentimento floresceu.
Vem ter a ti o que precisas e não o que querias.
E isso é uma grande diferença entre saber ser complacente com a vida ou autoritário e inimigo dela.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Enquanto não existir amor verdadeiro e genuíno
que nasça confiante interiormente
como ousas pedir ou desejar que alguém
venha fazê-lo consequentemente?

Esperas atentando nas estrelas
enquanto encavalitas galáxias no topo dos ombros.
Mas permite que o tempo passe por ti e floresça
aquilo que ficou por entender dos escombros.

Nada disso vai chegar
enquanto não fluir o que seja individual
pois o que somente necessita
é ter-te a ti como o início e final.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Todos nós fomos bebés amorosos, vestidinhos com as malhas e tricots da avó e tias, decorados de todo o amor e boas intenções que possam existir no mundo, sorrimos, chorámos, caíamos, aprendemos o som das palavras, o sabor dos alimentos, escovar os dentes depois das refeições, fascinámo-nos com um sorriso, com uns óculos, com cabelos e barbas, percebemos depois dos 2 anos que tudo existe para além do que o olhar capta num determinado momento... fizemos cocó, xixi, vimos chuva, sol, brincadeiras, confusão quando a não entendíamos, mudança quando a não percepcionávamos na totalidade.
Posto isto, no fim de um corpo adulto, o que somos nós?

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Variações cantou e afirmou que todos nós temos Amália na voz. 
Depois de alguns anos a estudar Psiquiatria com afinco ingénuo, curiosidade estimulada ou com necessidade laboral, atrevo-me a dizer que além da Amália, também temos um pouco de psiquiatria na voz (atenção, grande ênfase no pouco).
Desde as pequenas melancolices e neurotiquices, ao exaltamento feliz que traga fulgor sexual, grandiosidade e extrema alegria, a um petit peau de parafilias que o mais conservador e aparentemente recatado esconde sigilosamente no armário de casa, à mão e coração que treme em rubor e pânico face a algum acontecimento mais (in)desejável, à escolha ou não de entrar nos submundos das adições com alterações de comportamentos por vezes dignas de uma demência ou esquizofrenia latentes... aos pequenos traços de personalidades que figurando nos manuais como doença ou anormalidade, estão de facto ao nosso redor e nas pequenas relações que efetuamos e nem nos apercebemos...
Desde que tudo o que façamos não mude a personalidade base, se no âmago disso tivermos uma genética simpática, escolhas conscientes e responsáveis, caracteristicas e mecanismos de defesa de personalidade madura e nunca sejam prejudicadas as principais áreas das nossas vidas pelo nosso próprio funcionamento, então estaremos só com uma pequena percentagem de psiquiatria na voz. 
O resto que seja Amália.

De 2007

Acordou, abriu a janela, respirou fundo.
Olhou para o céu com os seus olhos pensativos - Hoje está um belo dia para isto - disse para si próprio.
Uma das regalias que o seu prédio lhe oferecia era o acesso ao último andar, onde se situava um terraço enorme. De lá conseguia ver o anoitecer embalando a cidade, quando a natureza e o Homem rivalizavam luzes. E era para lá que se deslocava sempre que se sentia mais sozinho.
Entrou no terraço sem pressas, com uma calma sinistra a dominar todos os seus movimentos.
Desta vez não quis olhar para o céu.
Devagar, aproximou-se das grades que circundavam o terraço, grades estrategicamente colocadas para impedir que alguém ou algo caíssem. Ninguém gostaria de cair de um sétimo andar.
Foi então que se começou a relembrar dos tempos de escola, dos jogos de futebol até ao entardecer, dos beijos da mãe quando trazia notas menos boas, dos sustos do pai ao brincar às escondidas pela casa, dos almoços apetitosos em casa dos avós, lembrou do primeiro beijo, dos amores, dos amigos, das pessoas que o deixaram e que ele deixou, dos caminhos que seguiu, as oportunidades que ganhou e perdeu, as vitórias, injustiças que sofreu e que fez alguém sofrer, os fracassos, a magia, a natureza. Sentiu música, muita música. A beleza do ser-se livre. Sentiu sol, chuva, vento, desejos insatisfeitos, o tempo que desejou não ter passado.
Sentiu tudo isto bem forte no seu ser.
Apenas não o soube sentir tão claramente enquanto estava vivo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Foi num Verão quente e seco que li uma entrevista de Benjamin Clementine onde este afirmava não se considerar um cantor, mas sim um expressionista. E até hoje esta afirmação despretensiosa e honesta, continua a ter eco em mim. Faz-me sentir que muito longe de ser ou ousar ser escritora - faltam-me bases cognitivas, metodológicas e motivacionais para tal - sou uma simples expressionista. Enquanto me permitir a ter a base genética, cognitiva e emocional com que percepciono e penso no mundo, em mim, nos outros, com um filtro polido da realidade que só poderia ter a minha impressão, serei uma expressionista. Não me pode preocupar quem e quando lê e o que pensa sobre tal. Se voltam muitas vezes ou se nunca mais voltaram. Preocupa-me um dia ficar sem meio de expressão ou de perder essa beleza invisível que me faz querer expressar.
E aí, serão palavras, articuladas meticulosa e harmoniosamente na certeza porém de que perderam o seu elemento agregador mais genuíno. 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Ora então bom dia

Bom dia!!
Bom dia ao sol, bom dia a vocelências, bom dia aos ditadores e tiranos, bom dia aos pobres e omissos, bom dia a quem dá150 euros por uma noite de hotel, bom dia a quem dorme debaixo da estrada, bom dia à virtude, força interior e carácter, bom dia ao não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti, bom dia ao vento frio que entra em cada cantinho obsoleto da memória, bom dia ao vento frio que entra no recanto mais quentinho da pele, bom dia à mudança, bom dia ao estou farta desta merda, bom dia ao adoro fazer tudo igual como quando tinha 23 anos, bom dia à agitação interior que não adormece ou hiberna, bom dia a ideias sobrevalorizadas do falou-me mal é porque não gosta de mim ou falou-me mal é por saber que sou óptimo, bom dia a fazer amor pela manhã com a namorada, amante e colega ao mesmo tempo, bom dia a fazer amor com a natureza que pode ser parafilia ou devaneio poético eloquente, bom dia a fumar um charro de erva daninha e ser um execrável para com a vida, bom dia a quem sorri, é feliz, grato e simples mesmo no que de mais podre que lhe aconteçe, bom a dia à vida, MARAVILHOSA VIDA, A FERVILHAR DE POTENCIAL.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A propósito do que nos inunda a TV

Quando eu morrer não quero Requiem, apesar da devota admiração à beleza da música clássica.
Quando eu morrer quero que se chorarem, imediatamamente se riam.
Quando eu morrer, fosse figura de Estado ou uma qualquer, devia de haver arte. Música deleitosa, peças de teatro etéreas como o enlaçe aos valores nobres que dão ânimo ao Mundo. Poesia e filosofia.
Quero que comam e bebam - muito e bem.
Quero peças de roupa leves e coloridas. Laranjas, quentinhas, cheias de luz.
Quero árvores, flores, água, brisa quente ou fresca.
Não quero que pensem na minha pessoa, mas no que eu transmiti de melhor com a minha pessoa. Com esse veículo físico e material que é o corpo, que cá perece e fica.
É talvez a consciência desse veiculo fisico que se deixa de ver, que mais nos faça sofrer.
Temos que começar a transfigurar esse sofrimento, não para o que deixou de existir, mas para aquilo que, em existindo, nos marcou, valorizou e fez a diferença para melhor.
Essa é a beleza de encarar a morte - a minha e a dos outros.
Inspirar no invisível que cá ficou, no melhor que se deu, sabendo que enquanto houver dádivas e entregas, só a pessoa morre. Não o que deixou de inspiração.
Encaremos isso como uma razão mais para não deixar quezílias, lutas, disputas e pequenezas que nos afastam e que, independentemente de um dia chuvoso ou de sol, façam o Universo sentir que não evoluímos e aproveitámos o que realmente deveríamos. Porque, mais lamentável do que deixar algo por fazer, é deixar de mostrar um sentimento positivo ou o reconhecimento e elogio do melhor de alguém. E isso - se insuficiente ou com outros propósitos intencionais - não fará seguramente, com que a vida nos recorde. Seremos nós a recordá-la com a noção de que lhe demos pouco.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Pensamento du jour

Quando formos capazes de dar respostas sem nos compararmos ao outro, no que ele pensa, faz, estilo de vida e posses, estaremos não mais do que a ser nós próprios. Plenos, assumidos, dentro do potencial, reflexão, luz e ser. Até lá, quando as respostas não forem mais do que o anteriormente referido, vagueamos no vazio das nossas próprias inutilidades, que tão sôfregamente percepcionamos como capacidades e diferenciação.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Talvez a razão mais profunda para termos tanto medo da morte resida no facto de não sabermos quem somos. Acreditamos numa identidade pessoal, única e separada, mas, se tivermos coragem para a examinar, descobriremos que essa identidade depende inteiramente de uma infindável colecção de coisas que a suportam: o nosso nome, a nossa biografia, a nossa familia, a casa, o trabalho, os amigos, os cartões de crédito... É nesse apoio frágil e transitório que confiamos, para nossa segurança. Então, quando nos levarem isso tudo, faremos alguma ideia de quem na verdade somos?"

O Livro tibetano da vida e da morte
Por vezes pego nesses chacras da boa energia, vontade e regulação de orgãos e jogo io-io com eles.
Pelo menos é como me sinto quando ainda me permito a sentir atraso espiritual tomado por emoções menos limpas.
Que este ano seja o fim de todas elas.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Ein-dicas de Einstein

Sem mudarmos os nossos padrões de pensamento, não estaremos aptos a resolver os problemas que criámos com os padrões actuais de pensamento.
Fui fazer um mapa astral!
E então?
Estava na esperança de que me dissessem como sou espectacular, uma mente brilhante, riqueza a vir na minha direcção, qualidades de líder de multidões ou de tocar corações de forma profunda...
E então? então?
Olha disseram-me literalmente que sou um merdas. Que para o bem da sociedade devia de estar quietinho. Que faço pouco de jeito e nessa ténue linha, para considerar o suicidio como medida a curto ou longo prazo.
Epá... parece que andam a refinar cada vez mais os métodos analíticos utilizados. A abordagem foi ontólogica ou epistemológica?

O pódio não é um sítio só

Artemisa em plena contemplação
Pode muito boa gente pensar que os lugares de relevo e conquista pessoal sejam algo latente nessa definição - pessoal, só, sozinho, destacado, individualizado e individualista.
Vou discordar vigorosamente com isto.
O lugar do pódio só consegue ser maravilhoso porque existem pessoas, mas sem que isso implique agressividade, competição adicional e projectada com elas.
E com pódio digo tudo aquilo a que nos vincule um sentimento intenso de realização, que pode estar só a ser percebida entre nós como algo interno que veio para ficar.
Essas pessoas existem para quando chegares ao topo da montanha, depois da caminhada longa, suada e com sacrifício, sentires o céu azul a brilhar de força, o sol como companheiro silencioso, os fios de nuvens desenhados como o rasto de um pincel belo e harmonioso, os pássaros a voarem placidamente, nas suas vidas providas de lógica e instinto animal...
E lembraste das pessoas que estiveram e estão contigo. Nas noites que embalavam a casa, cidade ou o mundo e tu estavas refugiado a pensar e a deter-te no que outros tantos poderão já ter pensado ou sentido, com a mesma lucidez e capacidade de sentir a mudança...
Nos corações e caras que sabes torçerem por ti e que te desejam o melhor do mundo, porque tu também consegues oferecer-lhes o mesmo sentimento generoso e desprovido de exigências.
E pensas na mudança no mundo, no belo mundo que te foi entregue, no esplendor que tudo isso encerra e potencia e sentes-te imensamente grato de poder ser alguém que pensa e sente ao mesmo tempo.
Portanto o pódio nunca será para quem está só...
Atingi-lo é precisamente nunca o ter estado.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

A generosa interdependência

É sabido e mais do que alvo de choque e angústia, que todos nós somos diferentes, por entre os milhares de milhões de vidas em que divergimos, criamos, chocamos e partilhamos. 
Somos até capazes de olhar para o que nos rodeia e escrutinar o que nos atrai ou não. O que provoca admiração, surpresa, afeição, e o pior dos sentimentos, distância, indiferença ou até ódio. Creio que seja preciso um ser humano estar muito negro por dentro para poder odiar algo, usando essa palavra rígida, forte, encorpada, quando se prenuncia sobre algo ou alguém. Mas ainda assim, poderá ser legitimo afirmar, o quanto odiamos ver fome, pobreza, injustiça, desrespeito, falta de amor mesmo ao nosso lado ou pelo mundo?
Adiante.
Toda a diversidade que nos rodeia deve ser alvo de uma constatação gratificante.
Se eu reparar no amor.
Se eu reparar na inveja e ciúme.
Se eu reparar na abstração.
Se eu reparar no objectivo prático.
E por aí fora.
Precisamos de um leque enorme de diversidades por entre nós. Para no dia em que a arrogância e orgulho cairem por terra, lembrar de atitudes humildes que nos circundam. Ou no dia em que entristecer uma auto estima mais baixa, reparar no efeito protetivo que um ego alto por vezes pode ter. Contemplar o trabalhador esforçado e o rico abastado, que flui nos bens sem dificuldade. Olhar para a mentira e o discurso recto e assertivo. Sentir a generosidade e a negação dela. Ver quem procura a informação e para quem ela lhe é secundária.
Tudo nos toca, tudo nos agita e relembra o que queremos ser e dar, a todo o tempo.
Acima de tudo, entender que não há verdades absolutas que não sejam o amor, verdade e paz (e o quanto o Homem se desentendeu e desentende por elas).
Façamos a diferença, pensando no que vemos e vendo o que fazemos, sendo o espelho dos outros, e com eles.
Agora lembro-me do fogão com o leite a aquecer, e eu, esperando muito paciente e alegremente no meu olhar de pequenina, via as natas a boiar. 
Foi há tantos, tantos anos, que recordá-lo soou-me a alguma nostalgia perdida.
E tal como essa película transparente que emergia do leite, algo me quis alcançar o canto do olho.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Pedaços de beleza de RMRilke

"Aqui, onde à minha volta está uma poderosa paisagem sobre a qual passam os ventos vindos dos mares, aqui sinto que nenhum indivíduo lhe poderá responder àquelas perguntas e sentimentos que, nas respectivas profundezas, têm uma vida própria; porque também os melhores erram nas palavras quando elas hão-de significar o que há de mais subtil e de quase indizível. Mas, apesar disso, creio que não tem de ficar sem solução, se se ativer a coisas que sejam semelhantes a estas em que os meus olhos agora se reconfortam. Se se ativer à natureza, àquilo que nela e simples, àquilo que é pequeno, que quase ninguém vê, e que tão inesperadamente pode tornar-se grande e incomensurável; se tiver este amor ao que é ínfimo e, de modo inteiramente singelo, como um servidor, procurar ganhar a confiança daquilo que parece pobre; então tudo se lhe tornará mais fácil, mais uno, e, de algum modo, mais apaziguador, talvez não no plano do entendimento, que recua, surpreso, mas no mais íntimo da sua consciência, do seu estar desperto, do seu saber. É tão jovem, está tão antes de todo o começo, e eu, gostaria de pedir-lhe, tão bem quanto me é possível, que tivesse paciência face a tudo o que no seu coração está ainda não resolvido, e que tente amar as próprias perguntas, como quartos fechados e como livros escritos numa língua muito distante.Não investigue agora as respostas que não podem ser-lhe dadas, porque não poderia vivê-las. E trata-se de tudo viver. Por ora, viva as perguntas. Talvez depois, sem dar por isso, paulatinamente num dia distante, venha a viver o trajecto para dentro da resposta".
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