segunda-feira, 11 de setembro de 2017

George Orwell, Animal farm

"Quanta labuta, quanto suor para ceifarem todo o feno! Mas o esforço valeu a pena, já que a colheita superou os seus sonhos mais ousados."
Há que ter o gentil cuidado entre o ser doce, mas não submisso ou tendencioso, imparcial mas ainda assim coerente, exigente mas sem snobismo, ter coração mas sem rigidez geral. Uma vida de nenúfar em nenúfar com a elegância de uma pata de elefante, pois assim seremos seres melhores vivendo vidas plenas de interioridade convicta e não de julgadora ou devota exterioridade. Seja-se feliz por dentro. Para depois opinar por fora.

domingo, 3 de setembro de 2017

Inevitavelmente, a vida tenderá a ser um ciclo não de sucessivas repetições mas de graus e estadios de desenvolvimento de acordo com as tuas percepções e experiências. Ainda há um ano estava a fazer e hoje estive a ver, e isso fez-me pensar o que daqui a um ano posso estar a ver quando estive agora a fazer, assim como o seu contrário. Estamos sempre em rodas, rectas, elipses, espirais, tudo em movimento e sentido e cada momento capta o seu próprio sentido para dar continuidade ao outro. 
Por vezes um ano tem anos dentro do seu tempo.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Coisas que se ouvem sobre o amor

"Toda a Humanidade está no nosso inconsciente relativo, agora passarem ao subconsciente é muito complicado... e depois há um longo caminho entre dois para poderem estabelecer um diálogo na consciência"

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

— Boa tarde.
— Boa tarde! Olhe, já tem ficha cá?
— Ah, não não.
— Peço desculpa então.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Algo que rejeitas determinantemente, é onde precisas exatamente de ir.
- Durante uns anos reprimi sentimentos...
- Sim...
- Há muito tempo, não sei se já tinha nascido.
- Os sentimentos são intemporais.

domingo, 13 de agosto de 2017

sábado, 12 de agosto de 2017

Há tanta vida além da vida, que origina mais vida ainda.
Múltiplas formas de estar, pensar, de ter assimilado aquilo que a cultura, a infância, os sítios por onde se passou, amou e foi amado. É incrível como tanta diversidade produz tanto conhecimento, mas o conhecimento muitas vezes não fica a par dessa diversidade. Enclausuramo-nos em muros de betão citadinos, barrando outras coisas de acontecerem. Esse estar no agora é simplesmente o que se chama de futuro. O futuro não acontece. É só uma projecção do que estás a ser agora, de um contínuo agora.

domingo, 6 de agosto de 2017

Este presente onde vivo é extremamente bonito.
E só é bonito porque é extremamente PRESENTE.
O extraordinário é a simplicidade em estar.
Se não estiver estou numa constante aceitação.
Disto e daquilo, de uma treta aqui, um biscate ali, uma planificação furtada, um sonho não atendido.
Se só me deixar estar e receber sorrindo, e sorrindo e recebendo, mesmo que isso signifique uma ausência, tudo começa a organizar-se para gerar presença.
A minha.
E só nesse tom tudo fica extremamente indiscutível.

sábado, 5 de agosto de 2017

O que é natural é natural por inteiro, não o é só em metade, três quartos, um oitavo...
Já dizia o querido, querido Pessoa.
Atente-se nisto para entender o tipo de ligações que se cria e mantém.
Não dá para forçar nada.
Não se pode querer mais do que poder, a ordem jamais conseguirá ser trocada no que toca à naturalidade.
Tudo o que queres podes, mas nem sempre podes o que queres.
Tudo o que é natural vem a nós uma fração de milésimo de nano-segundo implacável.
Não se reanimam pessoas ou pescam sentimentos. O viver implica um cegar da não naturalidade. O reatar implica ultrapassar o que foi feito de não natural. Só se restabelece a ordem do que já está ordenado, do que não foi roubado, tolhido, fingido, guardado em força. A naturalidade não se pede, flui no vento e na água.
Oxalá os meus timings possam ser compativelmente naturais com quem mais me venha ensiná-los.

domingo, 30 de julho de 2017

Pensava eu que os sinais eram umas luzes de avistamento do farol, ou melhor ainda, do mar que se abria sobre ele..
Mas não.
Os sinais são exatos. São aquilo e aquilo mesmo e precisam de obter uma transfiguração em ti, na tua pessoa. Sinalizam é o próprio caminho interior, não sujeito a interpretações de ordem contextual.
Por isso eu digo que se lixe.
Que se lixe esse vaso que se espreita em raso fundo. A terra está plana, o castanho mantém-se bonito, mas estático. Digo então que se lixe outravez. E abro a janela para entrar ar, muito ar fresco. Sobretudo aquele que conquistei pela mudança do centro do meu próprio pensamento.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Ser e parecer

Que grande conquista esta, alicerçada em todos os níveis de crescimento.
Quantos são? Quantos parecem?
Quantas vezes não confundimos um e outro?
Em nós e em alguém?
Eu quero ser. Ser simplesmente e simplesmente ser.
Porque o ser oferece calma. Não há agitação, burburinho interior, falta de pertença, algo a provar. Ser compreende a conexão com tudo o que é visível e invisível. Com todas as dificuldades que lidaste, as vezes em que não te aceitaste, a tristeza, o caminho que parecia perdido. Contém o oposto de tudo isso na alegria extrema de uma felicidade revigorante que não passa por ninguém, mas por ti.
Força nisso.
Vamos lá a ser.

domingo, 23 de julho de 2017

Que é isso de "Já sabia há muito"?
"Li há anos", "Se não fosse eu?"
Isso, é vilipêndio do ego.
Da próxima vez que o quiseres dizer, respira fundo.
Porque, no reverso dos reversos, um dia é a vida que te diz a sorrir, complacente, "já tinha lido há muito isto".

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Emancipação de consciência.
Não escrevo isto com alguma falsa pretensão de prepotência e superioridade.
Para mim, é tudo o que essa emancipação não emana, borbulha ou ilumina.
Algures muito para trás, houve uma pequena sementinha que foi plantada e sendo regada entre calma e anseio. Muito anseio até. Muita agitação por forma a querer resultados, sem a sapiência prática de que os resultados surgem em congruência com aquilo que o mais profundo de ti é e quer. E se esse mais profundo tem que doer à farta, tem que evoluir em pressão darwiniana, então nada será compatível com um simples querer.
Mas algures nesse tempo, em que essa sementinha foi plantada, os ramos verdes despontaram. Despontaram divinamente interligados com o céu, com as surpresas, com os sorrisos, com a sabedoria. Com a calma, a calmia.
O mar não está bravo.
Há qualquer coisa nele que pede apenas que me deixe boiar.
Deixe ir.
E eu vou aproveitar.
Até já.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Fazes tão bem em intelectualizar...
Isso! Intelectualiza...
(agora até pareço aquela voz critica e julgadora quando as pessoas não têm compaixão do outro)
(mas é de propósito, fica sabendo)
Isso, intelec + tu + aliza aí qualquer coisinha porque vai ajudar... porque decompondo essa esperteza que estás a fazer, digo-te que simplesmente estás a moldar o intelecto na tua direcção.
Então não é mais fácil? Colocar lógica e organização!
Quem te disse que o sabes? Que sabes o que tenho para ti? O que é para viver, para fazer!
Sou eu que ordeno! Eu é que legitimo o que se está a passar.
Mas é comigo. Nos meus bastidores.
Por agora o que te peço é só sentir. Sentir e deixar ir. Não é racionalizar e deixar ir. Isso precisas para uma data de acções práticas, para libertares o peso ou quotidiano delas e ires seguindo rumo.
O amor tem tudo menos lógica.
Se for lógico não é amor.
É uma contratualização, um esquema, um facilitismo para a vida em geral.
Quando é amor só precisas sentir, de senti-lo. Não podes encontrar justificações enroladas em papel de caixa registadora ou balanças. Tenta perceber que atraímos e somos atraídos para vivenciar aquilo que o mais fundo de nós precisa. Esse que sabe onde não existe o lógico. E o amor, apesar de bom, é dual, harmoniza-se na dor e na alegria, não penses que vives muito bem só do pólo feliz. Alguém feliz é quem conhece, vive e trabalha a dor.
No amor digo que a única lógica é divinal. E aí, não encontramos argumentos ou algum algoritmo ou método.
Por isso sente, sente tudo, de um pólo ao outro.
Quando chegar ao fim perceberás a lógica... a lógica de nunca teres saido do seu início.

sábado, 15 de julho de 2017

Um grande desafio desta vida reside na compreensão de que o amor que dás a ti próprio tem de conter a mesma espontaneidade e intenções que cordialmente ofereces ao outros.
Como aceitar tudo de alguém e não aceitar em ti?
Que amor vem a ser esse, que não começa em ti, mas nos outros?
Que te desvaloriza e eleva o outro?
Talvez por isso, quando o outro te deixa de amar como entendias, tudo fique corrosivo e questionável. Ou caótico e ingrato.
Tem mas é juízo e começa a ver que o tal projecto de vida, acima de tudo, será teu, é por ti.
Quem se quiser juntar, força
Quem vier por bem, que venha.
Mas nunca para completar, aprofundar, uniformizar, esperar sedento uma prenda ou expectativa ancorada qualquer.
Há que estar ciente da realidade de cada um, mantendo os caminhos individuais. O sinal da subtracção é apenas uma linha, e na multiplicação ou soma, há um cruzamento de duas linhas mas só num local definido, o centro, em harmonia. Nada esta sobreponivel. Pensemos nisso.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

"You say goodbye, and I say hello"

Eu não vou dizer esquecer! Não vou forçar, abandonar, fugir, partir! Até porque tudo o que se força, agindo a vida em eco, ela também sabe imprimir mais força para que continue a chegar até nós. Para parar de resistir, ceder, perder a luta. Eu não vou culpar, atribuir factor externo a tudo aquilo que foi originado pela minha própria energia e vontade. Vou acreditar que serei digna de viver apenas congruentemente com tudo o que sinto. Com tudo o que sinta, legitimando-o. Não quero sensações densas e pesadas, mas o propósito é também senti-las para que possa harmonizar o que foi suave.  A dualidade é assim, está aí para te lembrar que o ar e a terra andam de mãos dadas e nunca será possível viver ou acreditar só em um. Tem que se viver os dois. Porque os erros, são assim chamados quando se cometem diversas vezes da mesma forma. E não, quando  sob a mesma forma, se abrem múltiplas perspectivas de o poderes vivenciar. Isso chama-se aprender com a vida.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Confiar no processo.
Mesmo que pareça tudo estagnado, as roldanas avançam oleadas...

sábado, 8 de julho de 2017

Quando a capacidade de alterar te lateja um pouco na dignidade, não é para alterar. É para deixar ir.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Querido Universo,
vou confiar que trazes sempre o que tiver de ser, no tempo certo. Mesmo que pareça desorganizado, ilógico, doloroso. És tu já a preparar, já a pôr no caminho. Que se de alguma forma somos poeira e explosões cósmicas de mil milhões de anos, o teu conhecimento e energia está em mim, como em todos os que por aqui andam. Que sabes as escolhas, porque te escolherei inconscientemente, pois encaminho-me para ti, à minha maneira, nas decisões, escolhas e ideias que vou tendo. No que vou conhecendo e quero conhecer. Na amplitude que me permito a ter para ir vendo as plantinhas a crescer, o amor nascer, o melhor de mim a vir. Sabes bem que não quero ser cinzenta, monocórdica e absolutamente limitada. Se vim de ti é para não o ser. E sabendo isso, aceito tudo o que possa vir, porque nessa certeza eu sei que não estou só a crescer. Estou a expandir.

terça-feira, 27 de junho de 2017

domingo, 25 de junho de 2017

E chego a casa. Dirijo-me vagarosamente para a janela, como quem sabe que a espera tem sempre um retorno, um sentido, um presente. Abro aquelas superfícies duras em par e o meu coração solta-se num uníssono com a paisagem. A paisagem que tantas vezes contemplei e que me ensinou a saber amar. A ser livre como só ela, numa altura onde eu queria ser tudo menos livre. Fazia exatamente o contrário. Tinha pertenças, pertences e a entrega era condicionada. Só ali me encontrei ao ver aquela vastidão dos dias, as nuvens a desfazerem-se nas serras, a lua a balouçar sob a perfeição, as árvores vigorosas e calmas que testemunhavam a passagem dos anos. Essa paisagem, pudesse eu levá-la. Pudesse eu sonhá-la todas as noites, aconchegar-me o coração quando tudo é betão e descartável. Conseguisse eu conversar com ela e dizer-lhe que fiquei mulher. Que aprendi a largar, a ceder, a não vitimizar. Que a natureza não tem dramas e certezas e que justamente aí, eu me quis associar à sua vida. Para ser mais maleável, mais íntegra e inteira. Foi isso que a paisagem sempre pediu, em silêncio, quando agitava o vento nas encostas, quando as nuvens traziam mudanças e o sol, o calor dos dias que foram. Mas principalmente, o sol dos dias que ainda estavam por vir, quando o interior fica gradualmente mais iluminado.
"Em boa verdade, as relações só nos revelam a nós próprios. Concedemos às pessoas pistas como podem amar-nos, como eles vêm a amarmo-nos. E é verdadeiramente sobre nós e da nossa relação connosco, o que é reflectido. Nós atraímos pessoas que nos vão permitindo crescer, que nos convidam a crescer e que ajudam a subir os mais altos degraus da auto-expressão. E não acontece sempre conscientemente ou de forma agradável... simplesmente acontece. Aproveita as oportunidades de os outros te mostrarem o quanto te amas."


sábado, 24 de junho de 2017

"Eu não quero protecção, impunidade, segurança ou domínio! Eu quero ser eu própria, sentir, vibrar e poder ter um êxtase, uma vez na vida. Quero o risco de ser quem sou. Quero acreditar que sou protegida pela luz, mas não para ser impune. Não para ser impune. Pelo contrário! Para poder viver tudo o que tiver para viver, todas as emoções, alegrias e tristezas, para finalmente ser uma pessoa inteira, completa, verdadeira. Uma pessoa que não se esconde."
Solnado

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Don't Let Me Down



Ai o amor o amor...
Esse sentimento que nos vem ensinar tanto através das ligações com os outros.
As visíveis num sorriso, as visíveis na forma como os olhos percorrem o pescoço e entram no olhar do outro profundamente...
As invisíveis na forma como o coração está a sorrir, está a cantar, está embalado, está tolo, ouve passarinhos e moinhos e água a descer pelas encostas...
O AMOR! Esse sentimento que quando verdadeiro nos ensina a querer sem posse, a identificar sem pertença, a respeitar com identidade. O amor, esse, que quando chega, muda as nossas vidas...
Eu conheci o amor. E por conhecê-lo, deixo-o ir onde ele tem que pertencer...
Ao vento fresquinho.
Ao que está por vir.

E no meio disso, eu também serei embalada para outros ventos.

Quiçá, algum, que me diga "ainda bem que aprendeste a amar, pois aguardei-te nisso".

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Sincronismo é a forma como o Universo vai enviando mensagens, que a mente interpreta súbita ou indirectamente como fontes que aproximam e sensibilizam a um caminho interdependente. Só a astúcia e lucidez poderão ajudar a definir que fonte é essa, para onde corres, qual o tempo. Sê paciente, sorri, sente humildemente e repara como é grato todo este sentimento de pertença a algo maior... 
Cheira a mar dentro de ti.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Caetano, você é linda, digo eu sobre a vida

Ainda me lembro quando deveria ter uns 20 anos e de ouvir em estado meditativo-introspectivo, esta música num rádio distante. Eram aqueles anos em que sentimos as inconsequências à flor da pele, onde tudo é arrebatado mas incerto e tão doloroso quanto maravilhoso. Como que ainda não existindo um limite definido entre o florir das experiências e o que possivelmente se deveria prestar atenção nas suas advertências encobertas. 
Sei que nessa altura, pensava eu sobre o amor. A ouvir os assobios, a melodia, a bateria, enquanto a noite inundava o céu e o meu coração. Recordo-me do sofrimento, porque estava a começar a dar os primeiros passos naquilo que são as aprendizagens que se perpetuaram até hoje e que,para minha evolução, muito precisam de continuar.
Amor é dignidade. Humildade. Para connosco e os outros. Não é posse, exigência, dar por adquirido. Ter gozo ou ser gozado. É honra nos comportamentos. Assertividade natural que flui e se potencia em conjunto. É paciência, compreensão, entrega incondicional. Acreditar que o livre arbítrio é tão forte quanto o encaminhamento que o Universo oferece. 
Amar é ser livre e ser livre é amar, tendo paz e sendo paz para alguém. É encher de respeito o coração e não a boca.
E hoje, ao ouvir o Caetano a dizer você é linda, apetece-me dizer que ele fala da vida, caracteriza-a assim, tão simplesmente. A vida é linda quando o amor nos vem mostrar outravez como é que se aprende a amar. Tudo novamente.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Em miúdos, não sei se seria pela tolice impulsionada pelas revistas, mas gostávamos de colocar perguntas triviais a nós, muito antes de chegarem as mais metafísicas como quem sou eu, de onde venho, ou qual o nosso propósito e ligações. Lembro-me que se gostava de perguntar com alguma ingenuidade na voz "que animal serias?" e de ouvir muitos dizerem cão, gato, golfinho, estrela do mar. Tento recordar-me e acho que falava muito em ovelhas e felinos, contudo não consigo precisar a resposta. Sei que era algo fofo e afectuoso sempre, porém não descarto que algum felino mais feroz me possa ter fascinado.
Hoje dei por mim a pensar por entre as ternas vicissitudes da vida, estas leves questões. E apraz-me dizer que não seria nem mais nem menos que um pássaro. Não queria pertencer a determinados ambientes e climas, contextos e grupos. Queria estar na montanha, depois na água, sobrevoar uma floresta, sentir o aconchego de um ramo de árvore, permitir-me a entender as leis da física existentes na progressão de um voo. Acho que assim sim, sentiria a vida, em toda a sua plenitude. Tal como sinto agora, embora os meus pés ainda façam alguma força para se quererem agarrar ao chão. A pergunta agora já não é qual seria o animal, mas o que quero de mim revendo-me nele.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Através de Brian Weiss

"Inverteste a realidade e a ilusão. A realidade é o reconhecimento da tua imortalidade, divindade e eternidade. A ilusão é o teu mundo transitório tridimensional. Esta inversão está a prejudicar-te. Anseias pela ilusão da segurança em vez da segurança da sabedoria e amor. Anseias por ser aceite quando, na realidade, nunca podes ser rejeitado. O ego cria a ilusão e esconde a verdade. O ego deve ser eliminado para que então a verdade possa ser vista. Com amor e compreensão vem a perspectiva da paciência infinita. Qual é a pressa? De todas as formas o tempo não existe; apenas parece que existe. Quando não estás a viver o presente, quando estás absorvido pelo passado ou preocupado com o futuro, infliges a ti próprio grande desgosto e angústia. Também o tempo é uma ilusão. Mesmo no mundo tridimensional, o futuro é apenas um sistema de probabilidades. Por que te preocupas tanto?"
O tempo de parar não é o tempo de morrer, perecer, ficar estático.
É o tempo de contemplar o céu, deitado no chão do que a vida trouxe de frio e inevitável.
E não unir os pontinhos especiais e brilhantes com as mãos, mas com uma imaginação que seja puramente intuitiva e não permita o lógico perturbar o indizível. Porque o infinito, na mesma proporção em que não tem uma medida exata, também nos deve relembrar que o nosso coração é permanentemente extensível.
E assim, deitada nesse chão, eu não uno só as estrelas. Junto-me a elas.

sábado, 10 de junho de 2017

Alguém 1 - (...) Lá está, agora quero evitar sorrisos, olhares, conversas de circunstância...
Alguém 2 - Enfim... você quer evitar a vida. E isso... não dá.

(E fez-se luz)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Estar numa praia deserta
e nesse horizonte perdido
não saber se me transformo em sal
ou num luar reflectido...

terça-feira, 6 de junho de 2017

Pedaços de inspiração

A Amélia coube a então difícil tarefa de se desvincular da linha histriónica que o mestre professava. Rosa não era um actor qualquer, mas o prestigiado co-fundador da companhia à frente do Teatro Nacional. Formado na eloquente escola de declamação romântica, dominada por abundante gesticulação e regulada pose e alternada por lágrimas, suspiros e gritos de todas as tonalidades. Mas em meio tão adverso à nova corrente, o derrube de velhos códigos e práticas de representação terá sido um processo moroso e híbrido.
Amélia parece percepcionar o excesso de academismo das aulas do mestre. Conta "eu tinha muito bom ouvido, apurado naturalmente no meio musical em que tinha nascido (...) à força de querer obedecer cegamente a meu mestre, nos textos em que trabalhávamos juntos, sem ter o propósito de o imitar, tinha, ao que parece, apanhado muitas das suas inflexões, a tal ponto que o caso já começava a ser comentado a meu desfavor. Chamou-me um dia a sua casa, o meu amigo Dr. Afonso Lopes Vieira, e ali, na sua biblioteca a sós comigo, durante umas horas tentou convencer-me a que, ao iniciar a minha carreira profissional, eu devia esforçar-me por me libertar da influencia do Mestre e provar o que poderia fazer só por mim (...) Não pretendia, é claro, criticá-lo mas somente - e com muita razão - fazer-me compreender "o seu a seu dono", e que o que naquele grande artista era um sinal da sua poderosa personalidade, na minha boca e juventude se tornaria pretensioso e feio."

Fotobiografias do Séc XX, Amélia Rey Colaço

Para mim, talvez não exista algo tão singular numa profissão que cuida dos outros como seja o zelar pelo sono de alguém. Permanecer no mesmo espaço, sendo um terno cúmplice da cadência entre o luar e a consciência, constatando como nos tornamos tão idênticos com os olhos fechados.
Como os que se sentem fracos, sonham ser fortes.
Como na força, houve dor e escolha.
Como há cor, coragem, amor, beleza.
Como existe tanto que em verbalizações, ideias e ousadias ainda se pode prometer.
Como estamos vulneráveis, frágeis, serenos, meninos.
Observar tudo o que nos fez, nesse tempo adormecido.
As montanhas, rios, brisas quentes de um passado distante.
As saudades, desejos e suspiros, a melancolia e agitação, o que ficou por fazer, o que não se conseguiu obter, quem quer acreditar e quem definha na esperança.
Enquanto dormimos, repousa em nós alguma substância terrena que nos permite aproximar muito mais das constelações, estrelas, galáxias e das poeiras cósmicas de mil milhões de anos.
Pudéssemos nós senti-lo mais vezes enquanto acordados.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

O efeito do tempo e a mutabilidade das coisas

Deveríamos ter sempre diante dos olhos o efeito do tempo e a mutabilidade das coisas, por conseguinte, em tudo o que acontece no momento presente, imaginar de imediato o contrário, portanto, evocar vivamente a infelicidade na felicidade, a inimizade na amizade, o clima ruim no bom, o ódio no amor, a traição e o arrependimento na confiança e na franqueza e vice-versa. Isso seria uma fonte inesgotável de verdadeira prudência para o mundo, na medida em que permaneceríamos sempre precavidos e não seríamos enganados tão facilmente. Na maioria das vezes, teríamos apenas antecipado a acção do tempo. Talvez para nenhum tipo de conhecimento a experiência seja tão imprescindível quanto na avaliação justa da inconstância e mudança das coisas. Ora, como cada estado, pelo tempo da sua duração, existe necessariamente e, portanto, com pleno direito, cada ano, cada mês, cada dia parecem querer conservar o direito de existir por toda a eternidade. Mas nada conserva esse direito, e só a mudança é permanente. 

Prudente é quem não é enganado pela estabilidade aparente das coisas e, ainda, antevê a direcção que a mudança tomará. Por outro lado, o que via de regra faz os homens tomarem o estado provisório das coisas ou a direcção do seu curso como permamente é o facto de terem os efeitos diante dos olhos, sem todavia entender as suas causas. Mas são estas que trazem o germe das mudanças futuras, enquanto os efeitos, únicos existentes para os olhos, nada contêm de parecido. Os homens apegam-se aos efeitos e pressupõem que as causas desconhecidas, que foram capazes de produzi-los, também estão na condição de mantê-los. Nesse caso, quando erram, têm a vantagem de fazê-lo sempre em uníssono. Sendo assim, a calamidade que, em decorrência desse erro, acaba por atingi-los, é sempre universal, enquanto a cabeça pensante, caso erre, ainda permanece sozinha. Diga-se de passagem que temos aqui uma confirmação do meu princípio de que o erro nasce sempre de uma conclusão da consequência para o fundamento. 


Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida'

Por Carlos Braz Saraiva

"Porque se diz que os não heróis não têm lugar na História, o medo do fracasso perpassa continuamente. Trata-se de uma perigosa armadilha, na medida em que perante o teste da realidade não existe nenhuma super-estrutura psicológica capaz de se alcandorar ao ponto de ultrapassar todas as fasquias sociais. Se não admitirmos escapatórias para as pequenas frustrações do quotidiano, próprias da condição humana, logo poderemos interpretar qualquer dissabor ou contratempo como uma humilhante derrota pessoal. E isto é confundir a árvore com a floresta. A parte com o todo."

sexta-feira, 26 de maio de 2017

" O amor existe, não podemos fazer nada para obter amor ou para o encontrar. A nossa única missão consiste em afastarmos cada vez mais aquilo que não é amor. O resto pura e simplesmente acontece."
R.S

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Por vezes gostava de saber a razão do meu coração se transmutar num tabuleiro redondo de dardos, onde culmino na primazia em dirigir a seta, que formulada em muito boa intenção, é firmemente espetada nos locais com maior número de pontos.
Entendendo que tudo é evolução, sendo proporcionada mediante a nossa responsabilização, eu digo alto, bem alto, no cume da montanha do meu próprio valor, que quero ser feliz!!! Longe de qualquer minuto onde possa adiar esse estado por culpas, autodesvalorização ou foco mal centrado.
O meu músculo cardíaco já provou ter uma força insondável.
Agarra vidas que passam para outro lado, pessoas a quem ninguém queria sorrir e sobretudo, uma competência para ser interiormente bonita para quem se partilha comigo.
Por tudo isto e muito mais, afirmo que não é só músculo. É vida que trago em mim, e hei-de aproveitá-la, talvez agora de uma maneira particularmente diferente. Para não fazer do músculo algo que só melhore com a dor, mas algo que melhore com o amor, o amor também sentido por mim. E esse amor não me faz ter decisões egoístas, narcísicas ou altivas. Faz-me saber onde me situo. E essa é a diferença entre quem se quer lamentar e quem quer receber.

terça-feira, 9 de maio de 2017

:)

Há tanto tempo que aqui não escrevo.
Seguramente para quem me segue, espreita ou respeita, poderá ser curioso, já que os posts eram regulares.
Para mim, não é nada curioso.
É que a vida não é nada estanque. Não somos rígidos e adivinháveis ou adivinhados.
Ninguém deverá julgar ou prever. Comportamentos, posturas, reflexões.
Tempos, cronicidades, compassos.
Não existe um trabalho mais inigualável do que aprenderes tudo isso sozinho, pois só te descobres, tudo o que vês externo são oportunidades e reflexos desses conhecimentos que precisam aflorar...
A vida tem tantas oportunidades..
Não vivamos desesperados a perceber onde estão elas!!

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Disse-me um dia um passarinho que se me pousou na janela:

Hás de aprender a ser mais solta! Não pode ser dar, espreitar, ter optimismo cego, para em seguida te retirares para a gaiola e ver os pensamentos a se auto-incendiarem. O ferro das gaiolas também existe numa cabeça que tenha medo de mudar. Mudar é voar e voar tem possibilidades infinitas, naquilo que sairás mais enriquecida, porque nada é falhar, todo o conhecimento é eterno, útil, e os erros só demonstram que houve vontade em aprender. Seja ela vinda da humildade ou de excesso de confiança. E cada pássaro terá os seus tamanhos de asas, não te culpes por os teus não serem como querias. Responsabiliza-te antes pelo uso que lhes vais dando. 

E depois disto voou para parte incerta e ainda não me voltou a aparecer na janela, muito embora desconfie de o ter visto a espreitar-me um destes dias.

A responsabilidade é nossa

Há lá coisa mais genuína que, em não te comparando com o que os outros fazem ou pensam, mudas o que fazes ou pensas conforme seja o teu padrão!! Porque sinal de inteligência e evolução é esse, saber que fazes frente a uma data de factos, forças e fraquezas que hoje te determinaram. E o que nos determina é lixado, produto genético, educacional, empírico e adquirido. Cá por dentro é um luta constante que não pode perecer em batalhas campais de inércia ou impulsividade. É saber analisar previamente o que sempre se fez e melhorar com isso. É não ser 8 e 80 e 80 e 8, como também não é esbanjar a inteligência e meios motivacionais que cada um tem a obrigação de polir. Não é esperar recebê-lo de outros nem caminhar até outro país para encontrar no fundo de um poço ou no alto de uma  montanha. A mudança está em nós e ela segue-nos sempre na esperança de um dia repararmos que somos o produto de a usarmos ou declinarmos...

segunda-feira, 17 de abril de 2017

A cada dia que passa, por mais que o filtro esteja distorcido e a dureza da vida te vá deixando ora respirar, ora ficar mais apneico, és único. E nessa condição tão sujeita a foto de instagram, post inspirado e incremento em algures, é a única filha da putice de coisa que mereces saber, para seres grato a esta oportunidade, que para outros é mais sofrida, mais injusta, mais conflituosa, dependendo apenas de um andar, rua, localidade ou continente.  
Eu já estive por um auto fé doloroso, esperando que tudo de menos bom tenha ardido, para sem dúvida alinhar com o ponto de recomeço que me seja aguardado. Resta-me saber se algo ainda ficou por arder, ou se tudo o que me impeça de ser melhor está a momentos de ser ardido. Há que saber usar o fósforo bem, porque de purificação a estupidificação, só metade da palava muda. Deus me livre de envergar a metade errada.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Convém não ser uma flor que murcha conforme seja apreciada ou não...
Elas murcham da sua incapacidade em sobreviver.
E essa incapacidade não pode vir de ti.
Senão não és flor.
És natureza morta.

terça-feira, 11 de abril de 2017

O conceito de cuidar


O conceito do cuidar que hoje me chega, traz harmonia, conciliação, preocupação pelo bem estar quando nos outros vemos negligenciado, união e respeito. Cuidar envolve primeiramente ser humano, compassivo, procurar um sorriso e formar uma ponte em que as pedras só são usadas para serem carregadas juntas em frutífero companheirismo. Cuidar tem um afago no cabelo, uma sopa quente, um olhar atento. Tem as últimas horas do sol de fim de tarde e as primeiras da manhã. Carrega o sentimento de que não se está sozinho porque em algum lugar perto, há alguém que zela por nós. A todos nos quais senti o sentido de cuidar sobre mim, eu agradeço muito. Sou melhor pessoa pelas melhores pessoas que com as melhores intenções me quiseram e querem bem.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Humildade, que estejas sempre presente

Tem de existir um certo foco consciente de que há que manter continuamente a sensação de aprendiz. Ninguém alcança bens maiores sem a companhia e clarividência da sua própria imagem em construção. Espero nunca me esquecer disso. Que existe a lei da gravidade, que as balanças se equilibram, que as energias vão e vêm em retorno e de que, essencialmente, nenhum ramo se enche de folhas sem a raiz ser bem alimentada. E só alimenta a raiz quem valoriza o que teve e tem, sabendo o que são os começos do zero.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Há sempre algo a fazer

Ligo a televisão e assisto ao descontrolo no mundo. Aquele que não me era bem perceptivel quando brincava às escondidas pela rua, quando sofria com materialismo juvenil, ou quando a vida adulta emancipava dor e decisões percepcionadas na escala da ansiedade invidivual. Eu não consigo mudar a guerra na Síria, o tráfico de diamantes, pessoas, orgãos, animais, dogmatismos religiosos e políticos, violência terrorista e política, o degelo, a indiferença quotidiana nos olhos das pessoas, que as redes sociais sempre colocam um pouco mais sorridentes. Não sendo perfeita nem mais do que alguém, é mesmo aí que reside a humildade necessária para me vulnerabilizar e crescer, sabendo a necessidade dos outros e dos outros em mim. Portanto qual poderá ser o meu contributo? Se não posso mudar a uma escala global, essa que me vem chegando atráves de múltiplos canais. 
Posso pensar, sentir e fazer de cada pessoa que passe por mim alguém respeitável, em que consiga transmitir trato gentil e digno pelo que é. Elogiar, sorrir, ver o melhor de alguém e dizê-lo. Saber partilhar um espaço, seja físico ou afectivo. Ser educada, ter bons modos mesmo para aqueles que a moral nos coloca em dilema. 
Por mais que não mude o destino trágico por onde nos movemos (porque a Síria é aqui, África é já ali e nada se move como se não fosse de todos), por agora sei o que preciso trazer na consciência. Fazer do m2 onde me movo, um local onde quem está não seja lixo, indiferença, desnivel ou objecto de inferioridade, frustrações e animosidade. E assim, morrendo sem um activismo global, ao menos que este compromisso com a paz e respeito seja o melhor activismo individual que possa ter exercido

domingo, 2 de abril de 2017

Oh meu bom Carlos Eduardo...

Estou como tu dizias há uns tempos:
"Caiu-me a alma numa latrina, preciso de um banho por dentro!"

Eça de Queiroz, Os Maias

quinta-feira, 30 de março de 2017

That's it

Por vezes a vida coloca-nos num túnel interessante de decisões em que atrás de ti está terra e em frente tens o mar, onde não sabes o tamanho de ondas, a capacidade do teu barquinho, e sobretudo, se te lembraste dos dias cinzentos quando contemplaste o mar azul de sonho...
Mas a vida é assim.
Dura e dificil.
Maravilhosa e grata.
Madrasta e mãe.
São tudo caminhos.
Alguns são escolhidos na coragem do que queres ser.
Outros pela coragem do que tens sido.

sábado, 25 de março de 2017

Falando de mim sobre mim

A vida no seu construto impressionante vai alertando para o que são padrões ou vicios adquiridos que em nada revelam o potencial ou apenas e tão só, o que realmente proporciona o bem estar. O bem estar tem que surgir de ti para ti e devolvido nos outros sob a forma de percepcionar as situações sem que com isso te sintas inferior, lesada ou ridícula. Todos sentimos, todos pensamos e todos temos o dever de respeitar aquilo que cada um tem no interior. Eu por respeitar o meu, sei que não quero mais casos onde cada salto em comprimento seja realizado com dúvidas prévias, esperando que alguém confirme se passei a barreira por ter dificuldade em acreditar. Caindo ou não, saltando bem ou não, o meu dever esta para comigo. Essencialmente, em sendo gentil com os meus limites e possibilidades. E aí sei que o meu bem estar não está só quando voo pelo ar emergindo do salto bem feito... está quando caí antes do tempo e não me coloquei mais em baixo do que merecia.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Não tenho saudades de nenhum passado.
Só de um futuro feliz que não tenha sido alcançado pela minha responsabilidade.

terça-feira, 21 de março de 2017

"Visão de alteridade é ter a capacidade ver o outro como o outro, e não como um estranho."

Mario Sérgio Cortella

Pós de per-lim-pim-pim

Fui comprar morangos frescos e suculentos, para perceber se poderia adjectivar a tua boca também assim.
Preparei tudo aprimoradamente. Não sabendo se estariam doces o suficiente, e contando que não poderíamos despender de nenhum, coloquei-lhes um leve pó de açúcar por cima, um pó tão meloso quanto me gosto de sentir.
Entretanto, quando os trouxe e provaste, amarguei-te com surpresa o paladar, pois na pressa de agradar (como são todos os anseios românticos) utilizei o sal em vez do açúcar. Que tolice a minha! Mas foi nesse dia que entendi que por mais que se tente cortejar, dar o melhor, apaixonar, seduzir, o sal estará sempre presente, nós é que iludidamente o adiamos na esperança que nos vejam sempre perfeitos. Mas também importa e interessa o dia que é menos bom, o defeito menos prático, o lado lunar mais eclipsado, pois confere a perfeição, naquilo que é um total, o total do individual de cada um.
O açúcar extrai-se da cana que é cortada e replantada, enquanto o sal provém do mar, a fonte universal que ondula em semelhança por dentro de nós. Portanto, ao invés de plantar zelosamente canas, vamos deixar também fluir aquilo que temos de mais natural, sem esconder ou ter vergonha. Sob pena de nos tornarmos algo aborrecido com um só sabor.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Dedicado ao amor, deles e delas



Há muito que desconfiava que só uma visão de amor pode coincidir e ajudar a esta passagem terrena!
É como se entrasse numa autocaravana e percorresse todos estes sorrisos, carinhos e boas vibrações que me chegam de gente que conheço há muito, há pouco que pareça muito, e há muito que pareça ainda pouco. Gentes especiais, verdadeiras, bonitas, que sentem também que o amor é a maior força a dar a alguém! Essa autocaravana, se não desfilasse feliz pela natureza do genuíno e dos sorrisos, seria tão só e sozinha. Porque mesmo que chova e tudo indicie um temporal, fazer parte destas paisagens, é saber que quando se vai para fora, se está sempre seguro.
Viver é sem dúvida uma benção generosa quando se ama e é amado! Amar sem intenção maior do que seja fazer e desejar o bem para alguém, sentindo uma envolvência enobrecedora que nos liga a todos, à natureza, aos rios, mares, montanhas, flores a abrir, pássaros a chilrear, nuvens de vento e raios de sol! Que são tanto mais bonitos e captados quanto o coração se sente bem e feliz.
Por mim já estou mais do que contente por, no alto do que sou, sentir tudo isto.
E o que vier de melhor que venha. Porque tratando-se o amor  de qualificar e não quantificar, não sei se consigo imaginar, para já, melhor do que esta sorte em formato infinito. 

domingo, 19 de março de 2017

Estado líquido

O tempo limpa tudo.
Num modo tempestivo, como uma torrente de bátegas vigorosas, depois em rios e pequenos riachos que correm, fluem e derivam no contínuo caudal... persistindo em pequeninas poçinhas, onde com ou sem galochas, se insiste em procurar molhar os pés...
A verdade é que o tempo usa e abusa de água.
Agradeço interminavelmente a todas as mulheres que fui, nesse tempo onde precisava de mais água exterior, para conseguir transformar espaços de fogo e ar, singelos e imaculados, que pesavam dentro de mim. Espaços esses que, mais ou menos crescidos, mais ou menos vividos, mais ou menos felizes, foram fieis a qualquer coisa que tinha lá dentro, mesmo que essa fidelidade fosse o quase compromisso ingénuo com a minha própria responsabilidade. A de, através da opcional vivência de desapegos e apegos, dores e caminhadas, brindes e choros, verificar que a verdadeira opção responsável liberta, não aprisiona. Não me coloca mais rígida, mas em permanente gratidão por companheiros, palavras, noites de chuva e dias sem sol. E chuva no sol ou dias nas noites.
Nada de positivo nasce sem esforço.
Sem acreditarmos que de facto, somos principais na nossa maior história, em conjunto com a honra que temos de entrar, viver e contribuir para a história dos outros.
Por tudo isso, sou muito grata a todos os que me deixaram entrar.
Só para hoje poder dizer que com isso sou mais mulher.
E que os amei a eles, e a todas elas, aquelas que eu fui nesse caminho.
Por vezes quando o cansaço invade, sucumbo e ele garante-me a melhor.
Coloco de lado momentaneamente tudo o que seja a teoria mais positivista, psicanalista, espiritual, filosófica e outras que tais para retorquir que isto funciona em modo selvajaria urbana, com a manada a correr de um lado para o outro, comendo do que pode e caça, procriando para belo prazer e descendência, e que todo este cansaço origina não mais do que o pó de uma passagem veloz e fugaz na eternidade que é a vida.
E portanto, após discorrer tal, penso que o melhor seja ir dormir.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Procurando o que não existe



Procurando o que não existe fui cair em poços de descontentamento emocional, stress auto-infligido, ansiedade desmesurada, sono palaciano, noites longas, preocupações intermitentes...
Esqueçendo que a maior felicidade é não exigir demais.
E com isto não digo ser passivo, não ter opinião formada ou os braços prontamente abertos a tudo o que possa desafiar o juízo moral e crítico.
Digo simplesmente a consciência de estar presente. Estar presente com tudo o que se possa dar no momento, respeitando o apertão que a vida dá em termos de tempo, recursos ou indisponibilidades. Pois isso não é mais do que sinais afetuosos que envia na esperança de nos provar de que somos mais capazes do que julgamos. Porque queremos insistentemente a perfeição, supomos demais, desfocamos do patamar R/C onde estamos, porque a visão já quer alcançar (embora sem ver) o último andar.
Como tal, simplificando sou melhor. Descomplicando sou inteira. E sendo básica, permito-me a atingir pensamentos mais audazes. Tudo porque respeito limites, concretamente o maior deles que me diz que o que é feito com amor e dedicação natural torna tudo justamente perfeito.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Alguns ou muitos têm o hábito de falar em NÓS. O nós como um tempo que não sendo concretamente verbal é manifestamente defensivo. Como uma grande muralha, ou os quilómetros do areal tão perto do mar que constantemente o vem provar e fugiir...
Quão benéficamente usamos esse NÓS?
Para escudar da manifestação bela que é assumir o que é nosso. O que dói, remexe, agita, faz pensar, faz sentir, SER. Faz chorar, temer, ficar pequenino. Manifesta a concreta concretização de um eco, que bate num fundinho bem guardado. Por isso é tão fácil dizer nós. Para criticar, pré-conceptualizar, discriminar, cobrir com as mesmas máscaras num conforto partilhado, dado por adquirido ou em afastamento julgando-se só nos outros...
Por isso eu clamo...não quero dizer mais NÓS.
Quero dizer eu.
EU estou a sofrer.
EU estou a ser feliz.
EU estou encantada
EU estou vulnerável
EU estou autêntica.
Para assim não ter que dar uma máscara a alguém que foi feita apenas e unicamente com as inigualáveis expressões de quem eu sou. Julgo que não poderia oferecer a mim menos do que isso.

terça-feira, 14 de março de 2017

Lição do tempo (Karma)

"Quando um pássaro está vivo, ele come as formigas, mas quando o pássaro morre, são as formigas que o comem. Tempo e circunstâncias podem mudar a qualquer minuto. Por isso, não desvalorize ou magoe ninguém e nenhuma coisa à sua volta. Você pode ter poder hoje, mas lembre-se: O tempo é muito mais poderoso que qualquer um de nós! Saiba que uma árvore faz um milhão de fósforos, mas bata um fósforo para queimar milhões de árvores. Seja bom. Faça o bem."

Moonlight serenade

Estacionaram junto à praia o passado, movidos apenas pelo respeito a ele e avançaram para o areal.
Sob uma lua cheia luminosa, o seu tamanho, luz e reflexo conseguia-se assemelhar ao preenchimento que também sentiam dentro do coração.
O mar estava absolutamente calmo e a maré baixa permitia revelar e colocar a descoberto os sentimentos, mais do que alguma vez havia acontecido. Tanto a rocha selvagem, como a árvore que abanava os ramos suavemente em sinal de aprovação, complementavam o cenário onde a naturalidade era companheira. O escuro da noite não permitia visualizar a distância dos passos percorridos, ficando somente a certeza daquilo que estava mais recente, tal como esse agora, tão forte, onde simplesmente existiam.
O som do mar embalava todos os momentos em que já se tinham sonhado e para onde caminharam sem se saber ou conhecer. E sempre que uma onda deslizava pela areia, dançando no seu regresso ao mar, mais sentiam que estavam unidos, agradecidos e profundamente conectados.
E em tudo o que é extensão, horizonte e plenitude, como o mar sem fim, a lua inalcançável ou a vastidão do céu, tiveram a certeza de o que queriam partilhar era apenas, e tão somente, algo tão bonito como o amor.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Carl Sagan, 1974

Imagem intercalada 1

"(...)Então, aqui está – um mosaico quadriculado estendido em cima dos planetas, e um fundo pontilhado de estrelas distantes. Por causa do reflexo da luz do sol na espaçonave, a Terra parece estar apoiada num raio de sol. Como se houvesse alguma importância especial para esse pequeno mundo, mas é apenas um acidente de geometria e ótica. Não há nenhum sinal de humanos nessa foto. Nem as nossas modificações da superfície da Terra, nem as nossas maquinas, nem nós mesmos. Desse ponto de vista, nossa obsessão com nacionalismo não aparece em evidência. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, os humanos são irrelevantes, uma fina película de vida num obscuro e solitário torrão de rocha e metal.

Considere novamente esse ponto. É aqui. É o nosso lar. Somos nós. Nele, todos que ama, todos que conhece, todos de quem já ouviu falar, todo o ser humano que já existiu, viveram as suas vidas. A totalidade das nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas económicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada crianças esperançosas, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, num grão de poeira suspenso num raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno numa imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de um outro canto, o quão frequentemente seus mal-entendidos, o quanto a sua ânsia por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, em sua gloria e triunfo, eles pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginaria auto-importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.

Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não há nenhum indicio de que, a ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nos mesmos. A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta vida. Não há lugar nenhum, pelo menos no futuro próximo, no qual a nossa espécie possa migrar. Visitar, talvez, estabelecer-se, ainda não. Goste-se ou não, por enquanto, a terra é onde estamos estabelecidos.

Foi dito que a astronomia é uma experiência que traz humildade e constrói o caráter. Talvez, não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o único lar que nós conhecemos… o pálido ponto azul."

sexta-feira, 10 de março de 2017


Deve ter sido muito difícil e duro o Inverno a muito gente.
Todos estão a reparar no despontar das primeiras flores e em como estas lhes sorriem a dizer que tudo vai correr bem.
Reparam em como as árvores exibem o resplendor da sua própria transformação.
Sentem na cor um pedido claro de confiança no que vá aconteçer, não importa o quê, quem onde, quando e como, pois será tudo para nosso bem.
E vamos sorrindo - os que viveram ou não com a sombra da chuva e nuvem - a este desfilar sucessivo e brilhante da natureza.
Da companhia das cores, cheiros, beleza, crescimento, alegria e renovação.
Sem entender que essa beleza da identificação nos é tanto apenas porque também a estamos a rever dentro de nós.

quinta-feira, 9 de março de 2017

O que eu quero da comunicação

A comunicação...
Aquela que sai articulada em sons e respirações da nossa boca e a outra que se demonstra pelo olhar, gestos, posturas, enfim, todo o corpo que ao reagir, pode desprezar, assustar, interessar e ser receptivo nos mais variados tons mais ou menos intencionais.
Talvez nada comporte mais bagagens de medos e esperanças do que a nossa comunicação.
Há sempre experiências que marcam, fluências e cadências que revelam à vontade na oratória, vocábulos complexos que denunciam livros a colorir uma divisão da casa (ou da vida). Existe o gaguejar, não frasear tudo, não articular com a força que é olhar nos olhos de alguém, conseguindo transmitir o que pensa ou sente.
A comunicação deixa-nos muito vulneráveis. É para uns campo de minas e defesa imediata, para outros provocação e rebeldia em pleno, em outros a dádiva do que é alcançar e dar o que mora no interior.
O que eu quero? 
Comunicar claramente.
Não quero fazer esgrimas com ninguém muito menos comigo própria.
Quero fluir, quero - nem que as pernas tremam e tudo possa parecer tão agitado e incerto como um barco em alto mar - quero falar, não deixar ruídos, não deixar nada por dizer.
Não imaginar subinterpretações. Não falar comigo. Não jogar ténis com o meu querer e o de outro.
Não brincar com o tempo. No tempo que considero cenário e não o que resta da areia que vai movendo.
Quero procurar a linha mais clara entre quem me ouve e o que ouço de mim, sem ruídos.
Saber que tirando roupas, estatutos, passados, experiências eu sou uma pessoa com tanto direito a felicidade quanto a outra. Com tanto direito a sofrer como a outra, a acreditar, falhar, não garantir. 
Quero saber reconhecer a reciprocidade.
Portanto deixemo-nos de entrelinhas e grutas por onde nos movemos a vida inteira, na segurança de que conseguimos alcancar ou ocultar alguma coisa mais secreta. Até porque o que se extraiu foi não florirem pássaros, borboletas e tudo o que seja libertador, do nosso peito, ou mente, para o de outro alguém. E quanta beleza há nisso, pois a construção e evolução trazem-na incorporada.
Sabemos todos falar de algum assunto trivial, que inquiete o mundo, figure no banal ou se espelhe no quotidiano. Mas o melhor comunicador não é aquele que chega e discursa bem para uma plateia de 10000 pessoas.
É aquele que chegando dentro de si, ouve as palmas da vastidão do seu próprio contéudo e auditório.

terça-feira, 7 de março de 2017

Da ideia à clareza

Consigo perceber porque é que a ciência precisa dos seus próprios conceitos, taxonomia, categorizações e etc. Seria impossível concebê-la sem fenómenos específicos e um quadro teórico próprio. Mas julgo que um bom cientista, mais do que a produzir conhecimento e viver com uma curiosidade imparável, tem que ter a capacidade de comunicar o que interroga, produz e sabe. De nada serve uma conjunto complexo de vocabulários específicos e nomenclaturas que ninguém interpreta, se a ciência é só para alguns. Não há elitismos aqui. Há-o em muitas áreas, mas onde todas devem convergir é na necessidade de partilhar algo. Algo que estimule um bem maior. Senão vive-se fechado e enganadoramente encantado nos próprios círculos, quer sejam políticos, sociais, filosóficos, artísticos, pois precisamos é de uma via comum que todos alcancem. Pode sempre estar sujeita a níveis de alfabetização e graus académicos, às capacidades cognitivas e a própria maturidade de cada um. Mas volto a afirmar, tem que ser partilhável, simples, evidente, por mais que a extração até lá tenha sido através de canais de comunicação distintos e incompreensíveis. Senão, ao querer clarificar o mundo tornamo-lo menos acessível. E tenho para mim que esse nunca foi o objectivo da ciência. Ou em última - ou quiçá primeira - instância, o propósito de partilharmos o mesmo planeta.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Num mundo complexo, dinâmico e universal imaginem o que é ficar estático, estagnado na película fotográfica da memória? Nas noções de certo/errado, bom/mau, enfim, de uma panóplia de conceitos que revestem a moral e contribuem para solidificar noções básicas e reger por elas.
Mas como assim? Ser uma barreira de cimento inerte? Não dar por mim a pensar como e quem sou? Com os outros, comigo? Achar que o problema é sempre só meu, achar que o problema é sempre só dos outros? Não considerar a bi-direccionalidade dos actos e intenções, de tudo o que nos reveste que não é directamente visível?
Que sinal de maturidade esse.
Não ser só auto-sustentável em mente e razão. Em contas no fim do mês e gestão responsável de algum papel. É também olhar para si ao longo dos anos, sem sentimento de vaidade, saudade ou paternalismo, mas com orgulho e humildade em ter sido transformado pelo seu próprio pensamento.
Não comporta a transformação camaleónica, que sugere apenas uma intencionalidade de fuga e sobrevivência momentânea, ou algo que enalteça egos e frivolidades.
Antes a transformação que nos permite saber que, naquele ano, era assim que pensávamos, noutro, outras pessoas ou situações nos fizeram reconsiderá-lo, e por aí fora. O melhor agir é somente o melhor porque descobrimos outro, onde nele fomos lúcidos e justos nas limitações e capacidades que havia no momento.
O querer sempre agir melhor não será idealismo ou utopia. Bem como idolatrá-lo em alguém é retirar o que seria a honra da individualidade da própria vivência. É a capacidade da transparência, de deixar ser moldado. Ser maior, aberto, receptivo.
Não há verdades absolutas. As únicas bem poderiam ser o amor e a paz de espírito. Pois toda a nossa vida dependerá sempre da interpretação que destas fizermos. Dos argumentos usados, das acções movidas na sua persecução, que podem ser tangenciais ou em cheio, lentas ou velozes, mas em tudo no seu tempo certo, de acontecer e ser.
Para tal convém não segurar, enlouquecer, enraivecer, dogmatizar, embrutecer ou padecer numa data de verdades relativas que o chão da vida nos prova retirar a qualquer momento. Como aqueles onde se está absolutamente confortável ou dolorosamente penoso.
Mantenhamo-nos atentos.

quarta-feira, 1 de março de 2017

30.000 chibatadas

Diz que de investigação o inferno está cheio, há uma panóplia de investigadores que pretendem descodificar variáveis e variantes, para descobrir a pólvora de um assunto já debatido, por debater ou mais que ultra debatido onde nunca cessam as novas percepções. Espremo - qual sumo de laranja - o gosto refinado da constatação objectiva e provida de cientificidade, mas o meu olhar é pessoal, esotérico, pirado, comunista, verdinho, digamos que muito possivelmente fofo e extremamente imbecil, entre outros atributos que me parece a ciência não compactuar. E agora, serei excluida por autosabotagem ou conseguirei ser mais competente para fazer a análise de contéudo de que pouco ou nada se sabe?

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Mudando o chão

No estudo exploratório as pessoas movem-se na diagonal, horizontal, vertical, em direcções multi laterais das quais é impossível planear, antecipar, perguntar. Há os mais descrentes que estão de pé atrás com as relações e eu não me refiro às amorosas que gastam tanto miocárdio, mas sim as relações afectivas que se originam, esbatem, fortificam ou estagnam conforme soa a música interior. Eu adoro pessoas, na sua infinita complexidade e subjectividade, mas cada vez mais sei que não se adivinha ninguém. Não se prevê comportamentos, quais dados estatísticos co-relacionais. As pessoas surpreendem, fazem esgrima com elas próprias e os outros, dão luz, sombra e tudo isto é apenas um despontar do reflexo que todos nós trazemos por dentro. O quotidiano suga-nos qual espiral centrífuga de tempo por utilizar, movem-nos valores e características que enaltecem e conferem igualmente a precisão da lei da gravidade. Este texto é uma homenagem a mim, a ti, a ele, a ela, aos outros, a todos os que sabem que tanto se é como não é, em que a essência do ser humano pode ser comparativa a um perfume, com odor e frescura a fluir no ar em intensidade e leveza, mas que também sabe ser difuso e guiado pelo vento. Não está concentrado em todo o lado, a todo o tempo e entregando tudo, querendo tudo. Quer seja pensamentos, ideias, temperamentos, mudanças, objectivos. Ser é partilhar apenas o que se quiser disso, sem posses, expectativas, previsões ou encantamentos. Afinal, o maior encantamento passa pelo conhecimento próprio que proporcione um modo de estar mais humilde. 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Nem bombordo nem estibordo é navegar

Há um tempo atrás afirmava como tudo por vezes me soaria difícil e penoso por colocar âncoras onde chego.
Hoje em dia reflicto no quanto inoperante é essa afirmação.
Âncoras?
Por favor.
Âncoras podem significar firmeza e estabilidade porque colocam o barco seguro quando o cinzento do mar e do céu nele reflectido, abatem, violentam e pedem-nos apenas para encontrar algo invulnerável que nos proteja.
Mas e o outro lado incapacitante? O lado de ficar agarrado, preso, imóvel, fixado, não evoluído??
Porque as âncoras podem ser colocadas pela mão do Homem, atiradas borda fora com total propósito e determinação. Mas sem querer podem-lhe escorregar do local onde estão armazenadas, e sem dar conta, tudo mudar e influenciar. A âncora é de metal e o metal está estático. Não tem fluxo, movimento, novidade com propósito evolutivo.
Portanto muito cuidado com âncoras.
Eu agora não as quero.
Já as quis.
Venha daí o mar.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Bora lá (que este título assim é literário)

Enquanto corro, atento em como a estrada parece longa, embora bem assinalada e invariavelmente convidativa. Noutros momentos observo caminhos onde a terra está esbatida, a relva seca ou verde, pedras e paus derivando pelo percurso, sinaléticas facilitadoras e locais onde não figuram nenhumas instruções. Distraio-me a contemplar a extensão de estrada e os neurotransmissores - ou a minha pequenez disfarçada - interpretam-na como informação que vem perturbar tão esforçado rendimento. 
Ainda falta muito para alcançar o objectivo. 
E todos os músculos, dos esqueléticos aos cardíacos, pedem-me que abrande, respeitando cordialmente o nível de exaustão. Contudo, alguns órgãos enviam forçosamente a mensagem de que é para aguentar, sim, sim, sim, sim senhores é para aguentar e não parar. 
Nisto reparo que deixei de contemplar o horizonte. Esse horizonte tão vital quanto pérfido, que se avista difícil, distante, inalcançável e que nos faz desejar já estar nele, pela dureza que sabemos que o caminho contém até lá.
Mas a panorâmica muda. Ajusto a abertura do meu diafragma, que já não sei se é o músculo, se é o sensor da minha própria lente, regulo o foco e percebo onde me tenho de concentrar. 
Eu não sei se no final daquela linha estarei completamente exausta, extenuada, exaurida mas não me interessa pensar em como lá chego. Se até lá me acompanharam as pessoas que correram comigo, ou quem me acenou afetuosamente de um banco. Importa-me a consistência pessoal .Não se trata se vou lá chegar. Eu vou. Mas só vou se me concentrar neste agora, que apenas me mostra um metro da estrada onde tenho os pés. Neste agora, que tem de ser bem pisado, bem medido, bem sentido. Onde fico absolutamente focada para um ideal maior que está em horizonte mas é tão tangível quanta essa etérea meta.
É que quando se está em modo agora, vivo, presente, o horizonte enche-se de nós e nós dele.
Só para nos relembrar que quando se está pleno de si próprio, o horizonte não é a meta. Ele e nós somos um só, denunciado pela força e fulgor com que se percebe a vida dentro de nós.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Da inútil condição onde nos colocamos

Hoje olhei para uma árvore estando precisamente debaixo da copa, vendo as ramificações, curvaturas e diâmetros subsequentes. Recordei-me tão bem do sobreiro que dava nome à minha rua, que deixou de existir, como tudo o que são memórias do passado. 
Quando somos pequenos é tão fácil subir árvores, quanto mais difícil mais agradável o desafio e sentimo-nos tão naturalmente incluídos nessa simplicidade.
E agora? Que temos pernas e braços maiores, julgamos que eles não conseguem ter a mesma agilidade, amedrontamo-nos com a exigência de algo que antes nem era pensado.
Porque nos estupidizamos?
Que vida é esta que serve para nascer em potencial e definhar no tempo, declinando não corpo - que é o que preocupa as pessoas e afinal não é assim tão preocupante - mas sim a agilidade de viver??
É tudo um conforto, um ai ui, um cuidado aí, um vou pesar muito bem tudo para tomar uma decisão bem ponderada.
CARAÇAS.
Caraças para isto tudo.
Não quero ser estúpida ou ficar estúpida. É um receio atroz que me assola.
Ter potencial para viver e castrá-lo todo.
Julgar a minha existência mais importante do que a árvore. Ou de nunca descobrir que posso voltar a subir à árvore, ainda mais alto e confiante se eu bem o quiser e decidir.
Por isso paremos por aqui.
Acabou com este ignorância toda e um caminhar para a plena burrice.
Eu sou quem quiser e o que quiser.
Entrego isso a mim e a esse infinito que não vejo mas sinto.
E entrego não esperando nada em troca, não objectivando, não expectando, não enumerando ou reclamando. Colocando nessa entrega algo tão inabalável como estar pronta para qualquer que for a consequência ou o caminho.
Só porque, como a vida, sou um contínuo potencial. Sou grãos de areia no deserto, cascas de árvore, folhas verdes, caducas, riachos frescos, ondas em agitação e vento que desliza pela cara, ou uma montanha imponente no inverno gelado.
E a consciência dessa força faz-me ficar preparada e receptiva para viver.
E não para julgar que a vida é só isto, este cubículo, esta fraca força, esta pré-determinação, que nos é tão ensinada e imposta.
Se a consciência for esta não vale a pena em miúdo subir árvores. Mais vale aprender logo a saber como cortá-las.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Francisca (espaço para nome pomposo em seguida). Mãe de alguém. Trabalhadora em qualquer sítio que pague. Dona de casa. Praticante de um qualquer desporto. Arranha uma artcraft qualquer. Leitora compulsiva. Especialista em blabli. Interessada e versada em tal tal tal.

Na apreciação de um livro, gosto de ver como se autobiografam. Como os interesses fazem quem são. Como múltiplos papéis promovem a pessoa como mais isto e aquilo. É inevitável pensarmos que alguém envolvido em mil tarefas é pró-activo, que outro que viva em modo automático de trabalho casa pouco sabe do mundo, e mais ainda quando tudo isso amplamente nos parece definir e rotular. Mas quem seremos nós, verdadeiramente nós à parte de tudo isto?
Somos seres. Portanto, o que nos define é SER. É por exemplo ser alguém que vê apenas o pior dos outros e sub-interpreta acções no seu estilo analítico persecutório ou egoista, ou somos alguém que se entrega ao outro por ampla carência. Poderemos ser quem confia abertamente porque também é alguém confiável, ser alegria porque gostamos de a ver nos outros e a receber em nós, entre infindáveis formas de ser, que balançem entre o nosso melhor e pior. 
Definimo-nos por aquilo que somos para os outros. Portanto guardem as metadefinições de profissionais de tal, interessadas em não sei quê, blogger disto, afinidade e trabalho de campo nisto e naquilo, porque o que realmente se quer saber, o que concretamente importa é aquilo que são para aos outros. E o que fazem com aquilo que foram para vocês.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Chá de camomila

A vida ensina a nunca dizer nunca.
Uma mente rígida e absolutamente convicta do certo e errado tem apenas uma certeza já vaticinada... a desilusão. Que pode esconder amargamente dos outros, mas no fundo de si, no recôndito do seu pequeno e sofrido coração estará lá presente, relembrando o quanto o orgulho fere e mata. Mata oportunidades e mata um pedacinho mais de luz pelos bons sentimentos que não nascem.
Vemos os outros e vemo-nos neles. Ninguém é assim tão feliz, nenhuma relação é puro ouro. Honestamente, em muitas alturas da minha vida julguei e julguei-me nos outros pensando que eram olimpicamente felizes. A vida, as situações e confidências gostaram depois de tirar este filtro pinipon e mostrar realmente o quanto dessa felicidade é engano, enganada ou exponenciada no não real. Todos sofrem. Todos vivem à sua maneira esse sofrimento, esse ideal que não existe ou as pequenas vicissitudes que assolam o quotidiano da intimidade. E vamos nos observando, ao pensar como a relva do vizinho é tão verde, nunca normalizando o facto de, tanto a relva verde dar trabalho para crescer, como, na sua textura poderem figurar cores secretamente menos felizes.
Portanto, das únicas certezas que podemos levar connosco, é que quem tem que trabalhar, ser feliz, gerar e criar a própria felicidade somos NÓS. Por mais livros de auto ajuda, alheamento, terapias, construir casas em terrenos ainda lamacentos, é de nós que parte a aceitação. O controlo. O amor. A ajuda. A visão com integridade. A verdade. Poderemos muito querer dar e transmitir aos outros, mas se estes ainda não sentem essa clarividência em si, não faremos o trabalho por eles, nem o trabalho deles, porque afinal, nada estaria a ser feito e solidificado. 
Cada um que encontre o que está certo para si. Sabendo que esse certo muitas vezes se revestirá de várias paletes de cores, cedências e evoluções. Se uma planta cresce, se há ciclos na natureza, porque nos queremos tanto assemelhar ao betão que inventámos e nos aprisionou?! Eu quero ser natureza, fluida, limpa, cíclica, aprendendo com as tempestades e sorrindo no Inverno pelo sol que vai chegar. Quero saber que sou completa por apreciar quem sou e rodear-me de quem o aceite, ao contrário de quem o aprecie. Confundimos tanto apreciar com aceitar, que não percebemos a empatia e respeito que existe nesta última.
Quero crescer e quero nunca dizer nunca. Sob pena da vida me dar continuamente essa lição até eu, de facto, a entender.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Queria amor e deram-me vénus retrógrado
Oh que apanágio planetário fui ter
Recorda me os caranguejos que vagueiam pela praia
Determinados em alguma direcção que nos é dificil perceber

Naquela feliz e concebida união
Que deixaria qualquer vénus afogueada
Sinto por momentos rotas em contramão
No azul celeste de uma infinita estrada

Arrumei os planetas num saco
Disse-lhes que já não queria brincar mais
A partir de agora o meu comportamento terá por base
Somente regras simples e verticais

No retrógrado retiro o retro
E no grado acrescento um a de prefixo
Para me lembrar que agrado é apenas mais um substantivo
Que faz do amor um lugar sempre magnifico.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

A compaixão é uma coisa muito maior e mais nobre do que a piedade, pois esta tem as suas raízes no medo, num sentido de arrogância e condescendência, e por vezes até, num agradável sentimento de "ainda bem que isto não é comigo". Tal como diz Stephen Levine, "Quando o teu medo toca na dor de alguém, faz-se piedade. Quando o teu amor toca na dor de alguém, faz-se compaixão". Viver na compaixão é, portanto, saber que todos os seres são iguais e sofrem de maneira semelhante, é honrar todos os que sofrem e saber que não estamos separados deles nem somos superiores a ninguém. 
Deste modo, a vossa primeira reacção ao verem alguém a sofrer não será de mera piedade, mas sim de profunda compaixão. Chegarão até a sentir respeito e gratidão por essa pessoa porque agora já sabem que quem quer vos incite a desenvolverem a compaixão está de facto a conceder-vos a maior de todas asdádivas, uma vez que vos ajuda a libertarem a qualidade de que mais necessitam no vosso avanço para a iluminação.

O livro tibetano da vida e da morte

Compromisso ideológico

Quando existe alguma amplitude mental, percebe-se que existem os chamados dias mundiais ou comemorativos de algo, em que muitos dos seus fins ou princípios são difusamente cognitivos, para relembrar batalhas e vidas em prol de uma causa e do que importa aprender ou valorizar disso. Contudo, e sabendo de antemão os significados de tais dias, é desolador como as corporações se aliam ao que deveria ser algo metafísico e reflexivo, para inundar este mundo de eventos, presentes, prendas e presentinhos na sua forma simpaticamente imposta. Deveria existir alguma lei vigente que bloqueasse o propósito final de um dia, para que este fosse apenas comemorado no seu âmago e não no seu paralelo material.  Não há champanhe, estadias, bijuteriais, jantares, roupas, livros, nhenhecas e tiriricas que valham o valor de alguém para nós. Como tal, as empresas deveriam ter um compromisso ideológico para com os valores da vida e depreciar as receitas e lucros, em detrimento de deixar a vida desenrolar-se tal como é. As pessoas se apreciarem umas as outras com o que são e não pelo que dão ou na expectativa gerada nisso. A isto eu chamaria de um real compromisso ideológico... se o mundo fosse capaz de operacionar a partir dos valores mais nobres. Porque o que é nobre nunca precisará de propagandas e dias assinalados em calendário. É feito de todos os dias!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Mia and Sebastian's theme... ou de todos nós



Quem me conhece sabe que mais facilmente agarro um filme do cinema alternativo que do circuito comercial. Mas o La La Land tem qualquer coisa de muito muito especial.
Merece sem dúvida o que quer que tenham para lhe dar, mas muito honestamente merece mexer, remexer, avivar, deslumbrar o que há verdadeiramente dentro de nós, que acorda, respira e escurece no tempo, fruto do pragmatismo, velocidade e amarguez que a vida força a dar.
Mas eu falo da beleza dos sonhos. Do amor. De acreditar, de forma pura, transparente. De ser maravilhoso para alguém. O seu companheiro. Ser criativo, ter fé e trabalho nos talentos e em algo maior. De voltar a ver pós de estrelas, que com a crueldade e fatalidade que a vida trás ficam desvanecidos nas memórias de infância. Naquelas pintadas a música clássica, quando o sol brilhava quente, muito alto e onde tudo era novo e inocente. 
É para isto que se inventou a arte, o cinema, e o poder das pessoas sentirem e pensarem no que realmente importa na vida...Percepcionar e reconhecer-lhe beleza e amor. Só para lhe poder acrescentar ainda mais.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

É partilhado por muitos a associação do final de relações com o acumular de anos partilhados, qual tesouro conservado em depósito maior, na pretensão não de ostentar números, mas do peso e influência destes em nós e em quem somos. Talvez nos vamos esquecendo que uma das riquezas que alicerçou esses anos foi o que existiu em si de genuíno e puro, nesse inicio e fim de um espaço temporal. A ideia de que o amor é bonito quando tem um curso, tal como as águas de um rio correm fluídas numa direcção, e onde ambos se atrevem instintivamente a percorrê-la. Mas como rio que é, formado nessas pequenas partes que todos nós somos, existem tantas direcções a ponderar. O rio pode encontrar outro rio ou um lago e misturar-se. Pode secar ou degenerar no solo. Ou pode encontrar caminhos sublimes, se avistar virtuoso um oceano.
Muitos dos amores que arrebataram o coração e intelecto, conseguiram ser pródigos em percorrer estes caminhos e direcções. Confiantes, inesperados, receosos, mas felizes e inevitáveis.
Nada há a lamentar em cada um deles, seja o seu desfecho num solo seco ou num lago que ficou suspenso numa fotografia amarelecida de Outono.
Nenhum fim é desprestigiante ou pouco compensatório.
Há que pensar para onde fluiu essa água, relembrando que todo o fim tem que tender para o oceano, esse oceano vasto e imenso, onde nunca estamos sós. E para tal, só o amor dado sem prisões, submissões, oportunismos de tempo e causalidades, controlos, força bruta, oferece essa bela finalidade. Se nessa ausência - e no final de tudo - é encontrada oportunidade, reconhecimento, respeito, dádivas e vontade de amar novamente, então teremos a certeza que não avistámos só mais água. Fundimo-nos nela.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

For what it's worth


E eis que, no cantinho escuro, frio e isolado da noite, surge uma luz que diferencia, relembra o potencial e aviva o sonho, sem qualquer temerosidade em vencer a batalha entre medos e inocências. Esfumaçando o tempo, volto a sentir os cabelos a voarem num qualquer carro na estrada, o céu azul tão infinito quanto as certezas e os sonhos, os amores quentes e idealizados, com a ingenuidade de quem poderia construir moinhos, pontes e estradas nos céus e ainda pedir mais espaço.
Tudo estava tão perto. Era fácil, leve e desafiante, protegido por quem era presença constante e na rebeldia contra quem não acreditava na mesma leveza.
Fui feliz. Mas a maior felicidade é hoje saber e reconhecê-lo.
E para tal bastou-me ouvir uma música perdida em estradas e memórias do tempo, que acordou todos os sentidos adormecidos, registos e sentimentos. Obrigada música, a mais elevada das artes, pela tua dádiva intemporal de nos fazer sentir vivos e nisso encontrar (ainda mais) força para agradecer e seguir acreditando.
Não sei se voltaremos num ciclo segundo 
Como voltam as cifras duma fracção periódica
Sei porém que uma obscura rotação pitagórica 
Noite a noite me deixa num lugar do mundo.

Jorge Luis Borges

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Capítulo 44

Eles olharam-se mutuamente durante um longo e interminável tempo, interminável para ser suspenso, subtraindo sem dificuldades toda a respiração e agitação que os rodeava. E nesse olhar que afirma, responde e implora para ser entendido, entregaram desejos interiores que não tendo voz, atravessaram o silêncio e o beijaram.
Mas o livro ficou pesado, algum pó estava-se a acumular, juntamente com folhas mais antigas que estavam dobradas nos capítulos mais importantes.
Afinal, em todos esses olhares, ninguém se percebeu no tempo, quer tenha sido orgulhosamente duro e longo ou afavelmente veloz.
No fundo, tudo são apenas perspectivas de te perceberes melhor, conheceres-te.
A sorte são os outros devolverem-te isso, se com astúcia e humildade mental te propuseres a conhecer.
E quando assim for, quando o crescimento e procura for pacífica e com paciência, nasce amor em ti e de ti para os outros, onde quer que estejas.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Ao som de City of stars

Gosto tanto de estar contigo a ver o mar, mas o mar de Inverno, aquele que realmente traduz as tormentas e voltas da vida, das esquinas e do tempo. Aprecio o mar por aquilo que ele demonstra em energia regeneradora, em transformação anunciada, numa luta digna e sólida com as forças do que tem de surgir. O cheiro fresco da espuma, mistura o sal dos esforços pesados com as frescuras que trespassam o corpo e o tornam mais leve e luminoso. O momento em que a onda se desfaz, regressando unida para o seu potencial infinito, faz-me sentir tão agradecida por poder apreciar estes fenómenos, que conferem absoluta beleza a uma existência ampla e vasta, da qual todos fazemos parte. Estas manifestações do mais belo, o perfeito sinônimo de natureza, são pedaços de vida que nos tocam apenas porque os percepcionamos também em nós e dentro de nós. E essa é a diferença entre ser a vida, ou fazer apenas parte dela.

Por Henry Thoreau

Como se fosse possível matar o tempo sem ferir a eternidade.

É tão difícil observar-se a si mesmo, quanto olhar para trás sem se voltar.

A experiência localiza-se nos dedos e na cabeça. O coração não tem experiência.

A maioria dos homens vive a existência de um tranquilo desespero.

Sob um governo que prende injustamente, o lugar de um justo também é na cadeia.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Quantos amores existem numa vida?

Em algo com um potencial tão vasto, múltiplo e complexo como é a vida, esta desenrolar-se-á com os inúmeros caminhos que surgem, mesmo já dentro de muitos outros que estejam escolhidos. Quer seja destino ou predestinação, livre arbítrio ou plena certeza da lógica e do éfemero, pragmatismo ou poesia e beleza extraída, quantos amores existem numa vida?
Quantos pianos ficarão a tocar?
Quantos sorrisos voltariam a relembrar
Quantas imaginações ficaram esvoaçantes
O que quer que consegue unir-nos em instantes?
Talvez exista alguma sabedoria
em não mais voltar
a uma estrada perdida
que findou junto do mar.
Julgamos nós seguir a vida
veloz e astuta nas suas qualidades práticas e reais
mas não será ela que nos segue
fazendo de nós aquilo que não somos mais?
"Quanto mais escutares, mais ouvirás. Quanto mais ouvires, mais profunda será a tua compreensão."

O Livro tibetano da vida e da morte

domingo, 29 de janeiro de 2017

Entraram no elevador juntos, embriagados pelo sorriso das afinidades, aquele sorriso que surge na naturalidade de quem percebe algo verdadeiro a nascer, embalado pela cadência do tempo, esse tempo, sempre fluído, companheiro e presenteador. 
E ao entrar na caixa transitória de movimento, sentiram-se arrebatados para outros caminhos, talvez ascendentes e instintivos mas nunca vulgares ou banais.
Ele colocou-se por trás dela e elegantemente sentiu-lhe o cheiro dos cabelos. Esses cabelos longos, reluzentes e vivos, que exalando a harmonia de mil frutos, permitiam que a sua imaginação vagueasse incerta na descoberta de outros mais secretos. E com esse vívido prazer em mãos, tentou indagar a origem dos odores que o seduziam, mas foi rápido em esquivar-se a lógicas e análises, pois perturbavam o que apenas precisava de ser sentido. 
Nisto, cerrou os olhos e permitiu-se a experienciar como aquela envolvência invadia e tocava cada parte do seu corpo. Cada parte distante, distinta e desprovida de racionalidade ou controlo. E assim, atentou ávido no desejo em que pretendia mergulhar. Se aquela boca que contemplava, também lhe iria oferecer generosamente outros aromas - quiçá mais quentes, demorados e prometidos - e se nesse sonho, não resistiria em permanecer, dando-se por absoluta e apaixonadamente vencido.

A beleza inigualável da escrita de Eça de Queiroz (ou do amor)


- Quanto incómodo por minha causa!- disse ela. - Realmente como lhe hei-de eu agradeçer?...
Calou-se; mas os seus belos olhos ficaram por um instante pousados nos de Carlos, como esquecidos, e deixando fugir irresistivelmente um pouco do segredo que ela retinha no seu coração.
Ele murmurou:
- Por mais que eu fizesse, ficaria bem pago de tudo se me olhasse outra vez assim.
Uma onda de sangue cobriu toda a face de Maria Eduarda.
- Não diga isso...
- E que necessidade há que eu lho diga? Pois não sabe perfeitamente que a adoro, que a adoro, que a adoro!
Ela ergueu-se bruscamente, ele também - e assim ficaram mudos, cheios de ansiedade, trespassando-se com os olhos, como se se tivesse feito uma grande alteração no Universo, e eles esperassem, suspensos, o desfecho supremo dos seus destinos...
(...)
- Diz-me ao menos que és feliz - murmurou Carlos.
Ela lançou-lhe os braços ao pescoço; e os seus lábios uniram-se num beijo profundo, infinito, quase imaterial pelo seu êxtase.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Obrigada E.

Quando seremos evoluidos?
Não será no último doutoramento, na persecução de uma vida de objectivos palpáveis em casas, alianças, filhos, sonhos, betão e celulose. Não será certamente por cultura geral extensa passível ou QI fora de série.
Seremos realmente evoluídos quando todos forem amor.
E à parte de qualquer movimento religioso, exasperações de carinha fresca, esta só pode ser unicamente a força pela qual temos de vibrar.
Tenhamos todos a decência de não magoar ninguém.
De não dar um estalo físico e mental.
Apontar o dedo.
Falar com raiva.
Ser raiva. Egoísmo.
Gritar com alguém, indefeso ou que se defenda.
Obrigar alguém a gostar de nós, estar connosco, ser um carrasco de algo.
Um controlador, um castrador de naturalidade.
Abusar da vulnerabilidade, sabendo-o.
Tenhamos decência, vergonha.
Se o mundo fosse evoluido não se tinham inventado leis e direitos humanos.
Se o mundo fosse evoluido não se tinha especializado a psicologia e psiquiatria apenas com a doença em base genética de causa isolada. 
Sejamos francos. Que queremos nós fazer do mundo? Da vida? Das relações que mantemos com estranhos, amigos, amores, subordinados, colegas, familía?
Tenhamos vergonha na cara por favor.
Sejamos amor ainda a tempo de alguma coisa.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O movimento global, como ondas tumultuosas ou tranquilas progride até ti, mesmo que julgues que pouco ou nada se possa estar a formar.
Podem ser mais agitadas ou trazer apenas água mais fria ou quente conforme as correntes.
O que interessa é sentires esse movimento.
Essa cor. A força ou a calmia.
A rebentação em algum lado.
É sinal que alguma ideia nasceu.
É sinal que algum sentimento floresceu.
Vem ter a ti o que precisas e não o que querias.
E isso é uma grande diferença entre saber ser complacente com a vida ou autoritário e inimigo dela.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Enquanto não existir amor verdadeiro e genuíno
que nasça confiante interiormente
como ousas pedir ou desejar que alguém
venha fazê-lo consequentemente?

Esperas atentando nas estrelas
enquanto encavalitas galáxias no topo dos ombros.
Mas permite que o tempo passe por ti e floresça
aquilo que ficou por entender dos escombros.

Nada disso vai chegar
enquanto não fluir o que seja individual
pois o que somente necessita
é ter-te a ti como o início e final.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Todos nós fomos bebés amorosos, vestidinhos com as malhas e tricots da avó e tias, decorados de todo o amor e boas intenções que possam existir no mundo, sorrimos, chorámos, caíamos, aprendemos o som das palavras, o sabor dos alimentos, escovar os dentes depois das refeições, fascinámo-nos com um sorriso, com uns óculos, com cabelos e barbas, percebemos depois dos 2 anos que tudo existe para além do que o olhar capta num determinado momento... fizemos cocó, xixi, vimos chuva, sol, brincadeiras, confusão quando a não entendíamos, mudança quando a não percepcionávamos na totalidade.
Posto isto, no fim de um corpo adulto, o que somos nós?