domingo, 25 de dezembro de 2016

Um tributo ao encanto de ser pequeno

Há muito muito tempo Fernando Pessoa escrevia numa carta de final de namoro a Ofélia Queiroz, que o progresso dos seus anos estava a par do progresso na infelicidade e desilusão. Não posso generalizar ou ser tão ingrata de modo a que transfira isso para mim, mas a excitação, brilho e encanto que o Natal proporciona não tem par nos anos. E não está relacionado ou implícito a crenças religiosas ou presentes ofertados. Está relacionado com o progresso intelectual, com o crescimento e visibilidade da realidade, tirania, traição, injustiça e não verdade que assola o mundo dos adultos, e ao qual, em crianças, somos alheados de entender e vivenciar, conforme a sorte dos nossos contextos. O que eu transmito não é a impossibilidade do Natal. É a impossibilidade de vivê-lo sabendo que existe paz, amor e disney nos nossos corações. Que existe uma ligação mágica e invisível no ar de ligação, generosidade e presença. Presença de todos os que já não estão mais. A nossa ausência em virtude de ocupações laborais, que nos dão dinheiro mas não a essência mais profunda. A crença de uma conexão e extensão que não tem paralelo com a realidade do que a vida deu. 
Como tal, hoje, se rever aquela alegria ténue e inocente da Disney, aliada a cânticos queridos, sabedoria dos animais a tratar bem os humanos, e sobretudo, uma espécie de pó de estrelas no ar que não se encontra na atmosfera fria e crua dos dias, sorrio. Sorrio porque também eu fui um dia, inocente, feliz e despretensiosa. A minha realidade seria, além dos dias, o que imaginava na cabeça cheia de sonhos, encantos e imaginações, polvilhados por um nascer de sol que iluminava o céu e as estradas com cores que agora só trago na memória. E em tal, consigo rever o que aconteceu. Eu cresci, e cresceram e morreram comigo pessoas, desejos e pureza. Resta-me vir respirar neles sempre que a densidade e falta de ar povoar o meu coração.

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