sábado, 17 de dezembro de 2016

Pedaços do que R.M.Rilke deixa ao mundo

"Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-me a mim. Antes perguntou a outros. Envia-os para periódicos. Compara-os com outros poemas, e inquieta-se quando certas redacções rejeitam as suas tentativas. Ora (e uma vez que me permitiu dar-lhe conselho), peço-lhe que desista de tudo isso. O Senhor olha para fora, e é sobretudo isso que agora não deve fazer. Ninguém o pode aconselhar e ajudar, ninguém. Só há um meio. Entre em si mesmo. Investigue o fundamento que o chama a escrever; ponha à prova se ele lança raízes até ao lugar mais profundo do seu coração, admita se teria de morrer caso lhe fosse vedado escrever. Sobretudo isto: na mais silenciosa hora da sua noite, pergunte a si mesmo: tenho de escrever? Escave dentro de si à procura de uma resposta profunda. E se esta houver soar afirmativa, se lhe for permitido encarar essa pergunta como séria com um forte e simples «Tenho» então construa a sua vida segunda essa necessidade; a sua vida, até ao âmago da hora mais indiferente e limitada, terá de se tornar um sinal e testemunho para esse ímpeto. Tente, então, como um primeiro homem, dizer o que vê e experimenta e ama e perde. Não escreva poemas de amor; evite de início aquelas formas que são demasiado correntes e comuns; são as mais difíceis, pois é precisa uma força grande, amadurecida, para dar algo de pessoal num terreno em que se acumulam tradições boas e, em parte, brilhantes. Fuja, pois, dos motivos gerais para aqueles que lhe oferece o seu próprio quotidianoa; retrate as suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a fé numa qualquer beleza - retrate tudo isso com sinceridade íntima, serena, modesta, e use para se exprimir as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objectos da sua recordação. Se o seu quotidiano lhe parece pobre, não o acuse, acuse-se a si; diga a si mesmo que não e poeta o suficiente para convocar as riquezas dele, pois, para o criador não existe pobreza alguma, nem lugar pobre e indiferente. E mesmo que estivesse numa prisão, cujas paredes não lhe deixassem chegar aos sentidos nenhum dos ruídos do mundo - não continuaria ainda a ter a sua infância, essa preciosa riqueza régia, essa câmara de tesouro das recordações? Dirija para aí a sua atenção. Tente trazer ao de cima as afundadas sensações desse distante passado; a sua personalidade firmar-se-á; a sua solidão ampliar-se-á e tornar-se-á uma habitação crepuscular onde o barulho dos outros passará ao largo".

Em, Cartas a um jovem poeta

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