quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Eis-nos chegadinhos

Tal como a certeza de que existem átomos, ecossistemas, prostituição de luxo e particularidades que afectam e habitam a vida de cada um, há adventos aos quais ninguém consegue escapar ou ser indiferente, tais como as festividades de Dezembro chamadas de Natal e Fim de ano. 
São épocas que para uns podem custar um rim, lágrimas, alívio, amarguras, risos embaraçados na contextualização do "ainda bem que não sou eu", entre outros. Épocas de jantares entre gente que não se atura e atura, badalar de sininhos e cornos de rena, apelo intenso à revisão do ano, com gratidão, bondade, genorosidade e género, dentro de todos os seus significados, pensando em mudanças e planos que são tão sólidos quanto a primeira indisposição que se sente pela manhã.
Épocas que a televisão/cinema nos ensinou a aconchegar nos corações, apreciando o sozinho em casa como se fosse a primeira vez, a evolução darwiana da Leopoldina em Popota, e os cânticos plenos de amor que povoam as baixas citadinas e altas sacristias do comércio global chamadas centros comerciais, apelando à vinda. Sim, já dizia o outro, deixai vir a mim as criançinhas, mas estas músicas, pareçem-me que fervilham mais de "deixai vir a mim uma época que não diz muito, a não ser o que estão aqui a procurar".
Para um país fervorosamente cristão situado em 1940, o Natal representava uma época povoada de celebrações puras e honradas do catolicismo. E nesse pulsar cristão, sob custódia de Salazar e o reino de analfabetos e ruralidades, as prendas pensadas seriam algo tão lato, tais como e só por pequeno exemplo, ter saúde e meios de proporcionar essa saúde, mais uma sardinha no pão ou a ousadia de uma vida melhor.
Com a cortesia de permitir o Pai Natal visitar um estábulo lá para os lados de Bélem, as prendas passaram a ser impositivas, carregando status, carinho ou consideração, descentralizando do prazer primordial que é estar junto, sentindo a união, convívio e generosidade no seu ímpeto máximo, que é aquele que só o olhar, escuta interessada, sorriso aberto e a presença inteira transmite.
Quanto à passagem de ano, não vejo época onde se sinta com maior expectativa nos olhos dos outros, as penetrantes questões de onde é que foi, como foi, e o raio se fez e viu nas entradas no novo ano. É uma noite ou transição que dura pouco, mas esse ínfimo durável tem que ser eterno, eternizado e o seu planeamento revelador das redes sociais, tais como a diferença entre os populares da escola ou os meninos sem planos fixes a um canto.
Em suma, são duas épocas brilhantes, bonitas e profundamente simbólicas dentro da perspectiva do que cada um pode dar e retribuir de melhor, pensando sempre numa base de desenvolvimento, dedicação e cuidar. O cuidar de nós, dos outros e da vida, com estima e reconhecimento. Isso faz com que as festividades surjam e acompanhem anos, séculos e milénios da existência do Homem.
Porque no fundo, o que celebramos sempre é a vida de alguém e a vida em si, na sua união, presença e significado. E tão somente isso, devia colocar-nos activos, generosos, esperançosos e em partilha, também em todos os outros dias do ano.
Só assim exercitamos a coerência e a real percepção da importância do que se anda aqui a celebrar.

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