sábado, 31 de dezembro de 2016

Quantos anos tem um ano?

Finalizo este ano com o pleno sentido interrogativo de quantos anos podem existir dentro de um.
Para mim este significou voltar a ser um bebé, gatinhar, escorregar, cair, aprender a andar pé ante pé sozinha. Nada disto significa uma infantilização, um pessimismo detalhado em lente macroscópica ou simplesmente uma coitadização que podemos fazer de nós próprios. Não, definitivamente não.
Há anos que são fortíssimos, vindo provar do que se é realmente feito. Se de pessimismo, dependências, não assunção do que se faz e é. Se perante tudo o que há para inovar, saber e abrir, nos refugiamos na certeza que o conforto será sempre um grande amigo.
A vida continuará a ser um eterno presente e representará muito mais do que um eco das nossas acções para um todo, seja ele nós, as pessoas que nos rodeiam, a natureza e o próprio universo.
Frequentemente todos vão traçando objectivos que norteiam acções, futuros, tranquilidades ou no seu reverso excitações entusiasmantes.
Vamos é esqueçendo que não há comparação mais inigualável do que a própria vida, e que será perante ela que devemos responder em objectivo maior.
Chega de esquematizar as relações, empregos, hobbies e sei lá mais o que.
Vamos viver.
VIVER.
E a isso chama-se apenas ser congruente e espontâneo com aquilo que nos liga, exalta, e envolve na atmosfera incomparável de estar em contínua dádiva e gratidão.
O que não é muito difícil, só o sendo caso se ceda em completo a viver numa comparação fortuita e na ignorância de que cada um é amor e potencial individual que precisa de existir para haver um todo e completar este puzzle com a sua lógica, magia e energia própria.
Vamos cruzando com muitas pessoas e situações, que vão trazendo, levando, agitando, tudo isto para revelar o melhor ou pior de nós. Que em devota meditação deverá ser reciclado e transformado em energia e mudança positiva. Pois transformando desilusões em realidade, medo em coragem, desafios em oportunidade, dor em valorização e força interior, correntes em liberdade, não estamos a passar um ano. Estamos a retirar, de facto, o melhor dele.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O Bar do Fred

Todos nós já entramos no Bar do Fred.
Uns durante momentos ou anos, outros por força de circunstâncias às quais não se negaram e alguns sem a intangível ideia de que teriam responsabilidade de maior para não o efectuarem.
De facto a bebida é perigosa, figuram diversas associações e movimentos, estudos, mestrados, investigações e objectos de doutoramento e fibrilhações auriculares.
A verdade é que há idades que são protegidas na forma de Deus no Olimpo pelo fervor alcóolico, qual acto messiânico e divino de tudo poder fazer, assistir e rir. Porque o amanhã não é longe demais, o amanhã nem sequer entra como dádiva meditacional, qual chama budista do viver no aqui e agora.
E por ele quantas relações entraram em ruptura sísmica, quantas apalpões não foram dados por baixo da mesa ou da saia, quanta porrada alguém ou o próprio levou. Quantos carros se conduziram com o dedo mindinho - ou com o focinho (desculpem-me mas não resisti ao sarcasmo fácil da rima), desafiando a própria sorte de quem manipula a marioneta lá em cima por nós.
De qualquer forma, há algo puramente divino que protege todas as criaturas que se aventuram a entrar neste bar do fred que são os devaneios, alegrias e turpores alcóolicos, saindo vivo e com todos os dentes. Com a carta. Com o corpo. Ou com o que resta de alguma relação.
Este é o tributo a Coimbra, o tributo a ser-se jovem e inconsequente. O tributo a outras cidades, aldeias, gentes, nesses sitios onde o líquido for instituição e institucional. Nos milhares, milhares e milhares de gentes, que se presenteiam, deleitam, descontrolam ou simplesmente usufruiem do que é estar possuido pela alcoolémia. Que tanto pode ser docemente poética, como estupidamente hostil ou ridiculamente predisposta.
Coincidência ou não, retrato-a num dia em que parte do mundo, pelo menos o Ocidental que se julga mais evolúido, festeja o amanhã como se não o houvesse. E afinal, quando acordarem, sempre chegou.
E concluo com um brinde a todos nós, de copo bem cheio!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Activismo de extrema direita

Quantos são os que, informados e pesquisadores de informação, simplesmente não a partilham com os demais? O que esperam eles? Que a informação seja santa e santificada, pelo que só poderá chegar às mentes iluminadas de uns? Que o que importa é cada um ir fazendo o seu caminho sem intersecções e cruzamentos? O que sou eu só e sozinha com informação? Posso aculturar-me, inquietar-me, regozijar-me, maravilhar-me, mas tudo o que sei, morre comigo.  Se não passar, falar, partilhar, transmitir, provocar curiosidade, contestação, medo, alegria ou estupefacção. 
Por isso eu afirmo sim, muitos activistas de direitos, informação e ideais bonitos andam aí armados em extrema direita, algo que até devem abominar em comparação. Mas nas suas mentes, uma vez que sectarizam, julgam e hierarquizam pessoas e necessidades, actuam como tal, como supremos nas informações e mentes pródigas que têm. Mas ninguém tem uma vos garanto. O único ser pródigo é aquele que é bom e generoso, independentemente de ser o mais instruído do mundo ou o pobre modesto que vive de caridade alheia ou fracos rendimentos.
Portanto, não tomemos a informação e o que se sabe como valores que confiram diferença e superioridade entre todos. Se a vida fosse partilhar e não as anteriores, tantas guerras e cegueiras por pessoas, honras, territórios, religiões e ideologias não tinham acontecido. Viemos cá para partilhar e ser apenas derradeiramente melhores com isso, uma vez que quem beneficia é o todo onde nos movemos e existimos e não cada existência em particular.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

De Ramiro Calle

"Somos capazes de ser tão implacáveis a julgar os outros e no entanto, tão indulgentes connosco mesmo, tão permissivos, tão habilitados para encontrar todo o tipo de justificações falazes e pretextos inconscientes. Mas aquele que ama, está consciente das suas deficiências e aceita-as, e inspira-se de tal maneira nelas que é muito mais permissivo, indulgente e benevolente com as falhas alheias e sabe perdoar, mas sem que isso denuncie falta de firmeza ou incapacidade para estabelecer os limites necessários. Se vês em ti mesmo, consciente e humilldemente as tuas falhas, sem te auto-enganares nem argumentares neuroticamente, desmascarando-te com intrepidez, serás capaz de compreender melhor os outros e ser mais compreensivo, superando por outro lado toda a espécie de expectativas sobre os outros que, quando não sentes cumpridas, te conduzem ao desencanto, frustração e à raiva. Devemos aprender a aceitar-mo-nos conscientemente a nós mesmos e a aceitar os outros; isso também é uma bela faceta do amor."

domingo, 25 de dezembro de 2016

Um tributo ao encanto de ser pequeno

Há muito muito tempo Fernando Pessoa escrevia numa carta de final de namoro a Ofélia Queiroz, que o progresso dos seus anos estava a par do progresso na infelicidade e desilusão. Não posso generalizar ou ser tão ingrata de modo a que transfira isso para mim, mas a excitação, brilho e encanto que o Natal proporciona não tem par nos anos. E não está relacionado ou implícito a crenças religiosas ou presentes ofertados. Está relacionado com o progresso intelectual, com o crescimento e visibilidade da realidade, tirania, traição, injustiça e não verdade que assola o mundo dos adultos, e ao qual, em crianças, somos alheados de entender e vivenciar, conforme a sorte dos nossos contextos. O que eu transmito não é a impossibilidade do Natal. É a impossibilidade de vivê-lo sabendo que existe paz, amor e disney nos nossos corações. Que existe uma ligação mágica e invisível no ar de ligação, generosidade e presença. Presença de todos os que já não estão mais. A nossa ausência em virtude de ocupações laborais, que nos dão dinheiro mas não a essência mais profunda. A crença de uma conexão e extensão que não tem paralelo com a realidade do que a vida deu. 
Como tal, hoje, se rever aquela alegria ténue e inocente da Disney, aliada a cânticos queridos, sabedoria dos animais a tratar bem os humanos, e sobretudo, uma espécie de pó de estrelas no ar que não se encontra na atmosfera fria e crua dos dias, sorrio. Sorrio porque também eu fui um dia, inocente, feliz e despretensiosa. A minha realidade seria, além dos dias, o que imaginava na cabeça cheia de sonhos, encantos e imaginações, polvilhados por um nascer de sol que iluminava o céu e as estradas com cores que agora só trago na memória. E em tal, consigo rever o que aconteceu. Eu cresci, e cresceram e morreram comigo pessoas, desejos e pureza. Resta-me vir respirar neles sempre que a densidade e falta de ar povoar o meu coração.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Numa altura em que se alinha a consciência na proporção das prendas e sentimentos propagados pela comunicação social e em que se revê o ano planeando mudanças e desejando algo melhor, deixo algumas mensagens para todos nós!

- Tornar-mo-nos cada vez menos egoístas e cegos às necessidades dos outros
- Viver a vida com os seus previstos e imprevistos com amor e humildade, em vez de raiva, frustração, insatisfação crónica e ganhos fáceis projectados ou ambicionados
- Entender que objectos e bens dão pacificidade material e nunca de espírito
- Ter abertura para outros pontos de vista, perspectivas e ideias, não sendo rígidos ou defensores de verdades absolutas
- Lutar por um mundo melhor não significa sonhos pueris com o hino da alegria, começa todos os dias na atitude que se têm ao tratar/lidar com outros, seja numa profissão, relação afetiva ou com o vizinho do lado, ou com alguém que nos tenha magoado
- Cordialidade, tacto, polidez e bom senso dá-se a todos mesmo aos que se acha que não mereçem, Ter honra e dignidade é isso e não o contrário
- O ego, a vaidade e o orgulho só preenchem aspectos densos e pouco contributivos de nós
- Ter consciência que a vida não é só o m2 por onde nos movemos e o umbigo da qual estamos ligados. A vida é universo, outros formas de vida animal, natureza plena, estando todos intrinsecamente ligados e no qual depende de cada um cuidar, crescer e informar-se continuamente
- Pensar a vida de forma abstrata, além do que é a função básica de comer, respirar, beber, e de ter um salário ao fim do mês, numa vida de casa-trabalho sem contributos para dar ao mundo
- Interessar-se pelas pessoas, aprender com elas. Do porteiro do prédio, ao dono da loja, ao velhote que todos os dias está na mercearia, todos têm uma história e algo com que se possa aprender e retirar lições
- Simplificar. Reciclar o que dá densidade em vez de simplicidade, retirar o que é tóxico e não permite a mudança para melhor. Usar a cabeça para pensar além do que é inundado em redes sociais, media, sociedade; Usar o coração para valorizar, estar preenchido e praticar a gratidão com todos.
- Positivismo. Porque para complexo já basta muitas vezes as redes que nos circundam, uma atitude de gratidão, ver o copo meio cheio do que meio vazio, partilhar,acreditar e unir sem pretensão maior do que sentir em pleno o que isso trás.
- Centrar em nós e em nós com os outros. Somos nós que detemos o controlo da reacção ao que nos chega, que em parte, não nos é controlável. Centremos as responsabilidades em nós, 
em vez de carregarmos fardos inúteis que nos fazem piores do que viemos ser.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Eis-nos chegadinhos

Tal como a certeza de que existem átomos, ecossistemas, prostituição de luxo e particularidades que afectam e habitam a vida de cada um, há adventos aos quais ninguém consegue escapar ou ser indiferente, tais como as festividades de Dezembro chamadas de Natal e Fim de ano. 
São épocas que para uns podem custar um rim, lágrimas, alívio, amarguras, risos embaraçados na contextualização do "ainda bem que não sou eu", entre outros. Épocas de jantares entre gente que não se atura e atura, badalar de sininhos e cornos de rena, apelo intenso à revisão do ano, com gratidão, bondade, genorosidade e género, dentro de todos os seus significados, pensando em mudanças e planos que são tão sólidos quanto a primeira indisposição que se sente pela manhã.
Épocas que a televisão/cinema nos ensinou a aconchegar nos corações, apreciando o sozinho em casa como se fosse a primeira vez, a evolução darwiana da Leopoldina em Popota, e os cânticos plenos de amor que povoam as baixas citadinas e altas sacristias do comércio global chamadas centros comerciais, apelando à vinda. Sim, já dizia o outro, deixai vir a mim as criançinhas, mas estas músicas, pareçem-me que fervilham mais de "deixai vir a mim uma época que não diz muito, a não ser o que estão aqui a procurar".
Para um país fervorosamente cristão situado em 1940, o Natal representava uma época povoada de celebrações puras e honradas do catolicismo. E nesse pulsar cristão, sob custódia de Salazar e o reino de analfabetos e ruralidades, as prendas pensadas seriam algo tão lato, tais como e só por pequeno exemplo, ter saúde e meios de proporcionar essa saúde, mais uma sardinha no pão ou a ousadia de uma vida melhor.
Com a cortesia de permitir o Pai Natal visitar um estábulo lá para os lados de Bélem, as prendas passaram a ser impositivas, carregando status, carinho ou consideração, descentralizando do prazer primordial que é estar junto, sentindo a união, convívio e generosidade no seu ímpeto máximo, que é aquele que só o olhar, escuta interessada, sorriso aberto e a presença inteira transmite.
Quanto à passagem de ano, não vejo época onde se sinta com maior expectativa nos olhos dos outros, as penetrantes questões de onde é que foi, como foi, e o raio se fez e viu nas entradas no novo ano. É uma noite ou transição que dura pouco, mas esse ínfimo durável tem que ser eterno, eternizado e o seu planeamento revelador das redes sociais, tais como a diferença entre os populares da escola ou os meninos sem planos fixes a um canto.
Em suma, são duas épocas brilhantes, bonitas e profundamente simbólicas dentro da perspectiva do que cada um pode dar e retribuir de melhor, pensando sempre numa base de desenvolvimento, dedicação e cuidar. O cuidar de nós, dos outros e da vida, com estima e reconhecimento. Isso faz com que as festividades surjam e acompanhem anos, séculos e milénios da existência do Homem.
Porque no fundo, o que celebramos sempre é a vida de alguém e a vida em si, na sua união, presença e significado. E tão somente isso, devia colocar-nos activos, generosos, esperançosos e em partilha, também em todos os outros dias do ano.
Só assim exercitamos a coerência e a real percepção da importância do que se anda aqui a celebrar.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Ah pensei que.

Neste mundo, na sua globalização, continuidade e rotação física, não existem grandes espaços destinados à possibilidade de não entender o que se diz, ou até, de ter a audácia de através da soma de alguns dados inferir os próprios entendimentos.
A vida não permite assunções de ordem empírica, dedutiva ou intuições. Precisa de provas inabaláveis de tal. Da mesma forma, também não simpatiza com a existência de fontes rígidas, que podem partir de hierarquias ou sistemas conceptuais de pensamento, sem constatação e validação final apurada. Num tribunal ou contexto laboral, familiar, pessoal ou social em que se assume uma decisão difícil, séria e altamente responsável, esta não conteve, e felizmente para todos não precisou, de argumentos da ordem do "pensei que". Pensar que, reside numa ínfima porção do pensamento, quando este ainda é inocente, pouco estruturado, aglomerando escassa informação clara, capacidade decisiva, priviligeando a vida sentida num prisma mais básico, com facilitismo e magicação do que os outros pensam e fazem, inserindo-nos numa rede extensa de presunções que mais prejudicam do que ajudam.
Não existe nada mais claro do que a verdade e a verdade que é fornecida ou procurada, sem dúvidas, subterfúgios ou conclusões, com base em aparências, indícios ou conjugações precoces de dados.
Use-se - por fim e para todos os fins - de solidez, densidade e informação clara no que se pretende ou recebe, para originar decisões mais conscientes, com real empatia pelos outros e por nós, assentes na ideia deste todo que, não nascendo adquirido, nunca nos ensinou a assim o interpretarmos.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Pedaços do que R.M.Rilke deixa ao mundo

"Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-me a mim. Antes perguntou a outros. Envia-os para periódicos. Compara-os com outros poemas, e inquieta-se quando certas redacções rejeitam as suas tentativas. Ora (e uma vez que me permitiu dar-lhe conselho), peço-lhe que desista de tudo isso. O Senhor olha para fora, e é sobretudo isso que agora não deve fazer. Ninguém o pode aconselhar e ajudar, ninguém. Só há um meio. Entre em si mesmo. Investigue o fundamento que o chama a escrever; ponha à prova se ele lança raízes até ao lugar mais profundo do seu coração, admita se teria de morrer caso lhe fosse vedado escrever. Sobretudo isto: na mais silenciosa hora da sua noite, pergunte a si mesmo: tenho de escrever? Escave dentro de si à procura de uma resposta profunda. E se esta houver soar afirmativa, se lhe for permitido encarar essa pergunta como séria com um forte e simples «Tenho» então construa a sua vida segunda essa necessidade; a sua vida, até ao âmago da hora mais indiferente e limitada, terá de se tornar um sinal e testemunho para esse ímpeto. Tente, então, como um primeiro homem, dizer o que vê e experimenta e ama e perde. Não escreva poemas de amor; evite de início aquelas formas que são demasiado correntes e comuns; são as mais difíceis, pois é precisa uma força grande, amadurecida, para dar algo de pessoal num terreno em que se acumulam tradições boas e, em parte, brilhantes. Fuja, pois, dos motivos gerais para aqueles que lhe oferece o seu próprio quotidianoa; retrate as suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a fé numa qualquer beleza - retrate tudo isso com sinceridade íntima, serena, modesta, e use para se exprimir as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objectos da sua recordação. Se o seu quotidiano lhe parece pobre, não o acuse, acuse-se a si; diga a si mesmo que não e poeta o suficiente para convocar as riquezas dele, pois, para o criador não existe pobreza alguma, nem lugar pobre e indiferente. E mesmo que estivesse numa prisão, cujas paredes não lhe deixassem chegar aos sentidos nenhum dos ruídos do mundo - não continuaria ainda a ter a sua infância, essa preciosa riqueza régia, essa câmara de tesouro das recordações? Dirija para aí a sua atenção. Tente trazer ao de cima as afundadas sensações desse distante passado; a sua personalidade firmar-se-á; a sua solidão ampliar-se-á e tornar-se-á uma habitação crepuscular onde o barulho dos outros passará ao largo".

Em, Cartas a um jovem poeta

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O limite dos limites

É comum haver um fluxo contínuo no dar e receber, ora recebemos, ora damos, havendo quem perpetue o hábito inveterado de querer mais uma direcção do que o ciclo total, ou então, não pesando bem os lançamentos do que ofereçe e recebe, alegue em sua defesa juízos protectores para justificar os laços - ou nós - dados. Contudo, é amplamente saudável saber onde há limites dos limites. Limites no limite. Onde é que de nós começou a ser resistência, suor, insistência ingénua e vã. Saber diferençar entre o que é paciência, conivência ou alheamento. Qual o rio para onde vão essas lágrimas e que força motriz propaga o tónus muscular. Admitir um limite é saudar o início de outro. Ou iniciar o nosso, com o fim do que nos está circundante. Não acredito em dar demais. Dá-se o que se sente. Dar é vida, deontologia, ética, é orgânico e puramente natural. Tudo o que assim não seja é falso e controlado. Saber quando retirar, aí sim, é agir na aceitação do limite. É acreditar na campainha sonante que acelera a voz da consciência. A voz que envia argumentos lógicos para agir, baseados em racionalidade. Não é atribuir a essa campainha, todas as nossas frustrações e misérias, fugindo ou negando mal o alarme soe e implicando-nos a receber novamente outros trinta mil sinais até entender. Não se trata de escudar sofrimento ou desgaste. Trata-se  de encarar que se alcança o limite dos limites, implicando muita seriedade emocional, que não se consegue só com idade, experiência e posturas. Há para quem tal capacidade seja inata, outros conquistam-na através do intelecto e sabedoria interior transformada. Pior estão os que dificilmente o atingem, porque querendo ter na mão o espelho e controlo, não percebem que a vida não tem parceria nesses tais conceitos. Obriga-nos todos os dias a repensar que não mudamos pessoas e situações. Mudamo-nos a nós, e numa questão de boa fé, possivelmente poderemos influenciar a mudança externa. Possivelmente. Só porque há limites e porque talvez  neles resida das maiores provas do que é ter dignidade.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Between angels and insects, já diziam os Papa Roach

Relembro-me quando eu era miúda, usava um bibe, tocava flautinha num sopro inocente, cantava músicas do Rei Leão e do maravilhoso mundo que não existe da Disney e sentia um ideal Luther King em mim. Eu tinha um sonho, viver era em si um sonho, longo e imaginado. Hoje isso não mudou, viver é a oportunidade mais interessante que alguma vez nos foi dada, mas longe de imaginar naquela altura as putacracias dos adultos e da eterna, subtil e irrevogável submissão ao dinheiro que se tornou esta vida, no cruzamento com aquela onde imaginava sítios, palavras, ideias com pó de estrelas com que assistia nos filmes. Talvez nada nem ninguém nos tenha preparado para este mundo, onde tudo é vendido e pago, até a própria honra. E embora não nos bata à porta uma realidade de África subsariana, as tendas de campismo que nos transformámos inibem de atingir inúmeras liberdades que um ser humano pode ter, como seja habitar longe da escravatura do dinheiro, mas simultaneamente não sendo prostituído ou mendigado em tal. E parece-me que na realidade dos dias de hoje, que auspiravam mudança, evolução e direitos humanos, muito ficou em ténues linhas escritas em documentos oficiais ou de fins de marketing. Porque marketing é ilusório, enganar e magicar para vender, sabendo qual a melhor estratégia a aplicar. Será que é hoje como estamos com os serviços que nos rodeiam?
Epá... é que contemplei-me agora e senti-me aliviada.
Percebi que ainda não tenho nenhuma etiqueta na pele.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Era uma vez alguém que gostava de olhar as primeiras estrelas a brilhar, deliciando a sua afinidade na proporcionalidade directa da beleza e mistério de um imenso céu nu. E gostava de pedir desejos, contemplar os alinhamentos constelares, suspirar, etc e e-te-ce-te-ras. Do outro lado estavam os planetas, estrelas e luas olhando e rindo-se à brava. Sempre que os julgavam alinhados, apoiantes na concordância inspiracional dos seus maiores sonhos, eles comentavam entre todos "Epá... Acham que estamos todos alinhados à esquerda... Bora lá.. vira tudo para a direita!!" ou outro exemplo, que já me constou: "Este pessoal enternece-se com a primeira estrela da noite, quando nem sabe que na verdade o que  olham é Vénus.. " dizendo isto a rir na maior perdição e entrega. E assim sucessivamente. Gostavam de mostrar aos humanos que superstições, sinais divinos e estéticas planetares estão, na mesma medida em que estão todas as razões, emoções, desgostos e lógicas - dentro de cada um. E como tudo o que é natural, na sua dinâmica e inclusão, é dado por adquirido, fantasiado, interpretado, subjugado ou demasiadamente valorizado. Tal como as pessoas, umas às outras, ou pensamentos, ideias e a vida. Sejamos leves e frescos para sorrir, quer Venús se encontre à esquerda, à direita, ou em lado nenhum.

domingo, 11 de dezembro de 2016

A sonhar

Venho declarar que me apraz muitíssimo imaginar que no mundo:
- Não existisse a permanente e subjugante sustentação das pessoas ao sistema bancário, os verdadeiros assaltantes e violadores da equidade que tanto se apregoa como Direito Humano Universal. Acrescento aqui as seguradoras, parasitas que relembram que há que ter a finitude, doença e bens em carteira, sob pena da surpresa, esse pequeno choque incontrolável que assola com frequência quem está vivo;
- A habitação não fosse um luxo acessível a um chorudo empréstimo sujeito a saques e compromissos de vida que nem os casamentos cumprem (ou que engraçado, até a própria vida). A renda de uma casa valer metade do que uma pessoa trabalha, quando os impostos de um rendimento poderiam por exemplo, contribuir para suportar uma suave parte, se prevalecesse uma noção de partilha e dignidade e não de rendas baseadas em apetites fixos pelo dinheiro fácil;
- A educação fosse livre, sem rigidez e criação de pessoas que não questionem, já ensinadas a  ficar presas a identidades e instituições, sem ideia geral de que um grande caminho é o do progresso e inovação que não beneficie a vida particular. O direito à educação continua por muito mais do que o 12ºano, devendo as empresas fortalecer, promover, dando condições laborais e orçamentais para que se continue activo mentalmente, sem julgamento da procura de áreas completamente distintas da sua;
- As crianças não tivessem que pagar bilhetes de transportes, cultura, entre outros, quando não são independentes para fazer e entender;
- Onde a Natureza fosse mais entendível e respeitada que artigos de jornais de fim de semana, rótulos de instagram, e qualquer fuga momentânea à rotina e betão. Ela É a nossa vida, parte integrante e indissociável do que somos e nos originou. A fuga para o betão e rotina foi o que se fez para esquecer por momentos o bem espiritual e mental que esta dá, sem acesso a nada que não seja sentir, respeitar e aprender silenciosamente da sua contemplação;
- Onde os empregos não fossem sinônimo de escravidão de tempo, não contestação de directivas superiores, fonte de terrores para idas a psiquiatras e psicólogos, em que os novos elementos trouxessem frescura e não o bilhete sem volta, que é fazer o que todos fazem, não importando os sonhos e visões, o que interessa é ser gostado e aceite... Empregos em que fosse respeitado o aspecto incrível que é a opinião e crescimento num todo, inserido onde realmente se gosta de trabalhar (cada qual entregue ao que quer, e não ao que é possivel, sob pretexto de ser feliz e fazer consequentemente os outros)
- Onde o amor fosse a fonte principal e que entendessem que isso não é criar intimidades e afecto com qualquer um, mas sim o sentimento mais digno que origina e permite a união e reconhecimento de uma ligação permanente que é a igualdade e generosidade, naquilo que são as diversidades e pluralidades de milhares de milhões de existências...

Sob pena de isto ficar demasiado político quando assumidamente é apenas contestação de uma pequena cabeça, silencio-me pois todos têm capacidade de pensar isto e muito mais. E exigir e fazer. Em micro sitios, em micro locais. Mas fazer. Ou pensar. Porque já pensando a vida ganha um tom. Que não precisa de ser de rebeldia e anarquia completa. Mas de pesar nas acções. De onde coloco o meu dinheiro. Nos bens, essencialmente. A quem o dou, pesando as consequências. A quem dou o meu voto. Entre um rol de outras escolhas ponderadas e não adquiridas. Que seguramente não se faz se não se procurar, pensar, incomodar e querer saber mais além do vísivel.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Qual apoiante do filósofo Espinoza ao defender o panteísmo, permito-me sentir o Universo como mãe, criador, amor e uma data de belezas em simultâneo. Pensava que só quem vive grandes tragédias, experiências marcantes de assimetrias de necessidades, ou profissões que todos os dias lidam com a morte e doença, é que tinham, de alguma forma, as ideias bem definidas do que realmente importa. Não coloco isso em causa, não o coloco verdadeiramente. Apenas, e após começar a atentar de modo contínuo em divulgação proveniente de astrofísicos incluo-o estes profissionais dentro do quadro de honra de quem vê mais da vida do que o seu substrato directo. 
Neil Tyson bem diz que são por vezes criticados, devido a dedicarem o seu tempo a estudar mais o céu do que a Terra, esse sitio onde é urgente estar. E ele defende-se bem. Diz que, estudar a vida que houve noutros planetas que já foram idênticos à Terra, oferece resultados sobre como poderemos estar daqui a muito tempo. E podem dizer - mas não há influência agora. E eu pergunto - Será que não? Os primeiros dados expostos há muitíssimos anos por tantos ilustres corajosos, não foram contributivos e importantes para o que se sabe hoje? 
Há tantos factos belíssimos que nos trazem. Como o sermos todos feitos da explosão de estrelas e portanto parte integrante do Universo e nunca algo mais especial ou diferente que ele próprio. Não somos especiais. Especial foi esta oportunidade de cá estar. A ideia de que tudo nasce, renova-se, é útil e utilizado. Têm sentido, ritmo, conteúdo mesmo no ínfimo pormenor.
E penso na vida na Terra. O que está para além de um emprego, estudos, amor, filhos, pertenças a objectos e materialismos, humor, cultura, arte, rotina, betão. Estes pequenos resquícios de todos nós, pouco significam perante a imensidão do que nos rodeia e da qual somos parte. Contudo esse infinitamente grande e eterno é algo onde não sabemos se faremos sempre parte, e se o fizermos, sob que forma. E esta humilde questão também dá consciência da finitude. Da finitude, pequenez e ausência de certezas rígidas... só para nos poder atribuir mais valor à vida e ao que dela vem.
"Uma acção praticada por dever tem o seu valor moral não no propósito que com ela se quer atingir, mas na máxima que a determina".

Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Incomparável é adjectivo de uma má história

Qualificar com o adjectivo de incomparável ou um dos seus requintados e gabosos sinônimos é colocar algo numa fasquia onde não pertence. Algumas ou muitas das decisões menos benéficas e transformadoras foram tomadas a pensar na incomparabilidade dos momentos. Viver sabendo que lá algures no castelo querido do conto de fadas, se conheceu, viveu, pereceu junto do melhor dos melhores, seja ele um trabalho, uma relação ou um local, tornando-nos submissos à ideia de que arriscar é passível de se poder não ficar melhor. Pois eu digo, que se LIXE. Que se lixe isso tudo. Que fique a ideia do melhor possível. O melhor possível que nos alcançou pelas nossas opções. O melhor possível do que nos faciltámos em conhecer. Os quatro cantos que configuram a moldura onde se está instalado. É tudo sempre maravilhoso até conhecer outros pontos, histórias, ares. Que depois também passam elas a ser felizes e nossas, porque apropriamo-nos não delas mas dos significados. E aí está uma diferença entre o que é incomparável. É o que obtemos através da nossa inteligência e percepção, e não o objecto em si. O significado e não o significante. Quem me dera já o ter sabido!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Divina comédia

Dante tinha em sua posse uma vastidão de sabedoria interna e conhecimento espiritual , tendo brindado o mundo com o Inferno, Purgatório e Paraíso, naquilo que seria a sua obra mundial A Divina Comédia. Ocorre-me dizer três coisinhas.
Aquilo que se passa cá por baixo, é já em si uma síntese dos três famigerados locais que descreve.
Apenas escolhemos é viver em cada um deles, experienciando-o no mais profundo do que sentimos e damos.
Alimentando discórdias, egos, poder, tristeza ruminante. (Inferno)
Alimentando culpa, dúvidas, acesso constante ao passado, auto-análise punitiva. (Purgatório)
Ou alimentando paz, alegria, bons sentimentos, protecção interior através de se saber estar com quem se é, na sua franqueza e leveza. (Paraíso)

Coloco alguns bombons:

"Quando os seus pés deixaram a pressa, que tolhe a nobreza a todo o acto"

"O mundo é cego e tu vens exactamente dele"

"A fama que se adquire no mundo não passa de um sopro de vento que, ora vem de uma parte ora de outra e assume um nome diferente segundo a direcção de onde sopra"

"Louco é quem espera que a nossa razão possa percorrer a infinita via que tem uma substância em três pessoas"

"Quem és tu que queres julgar, com vista que só alcança um palmo, coisas que estão a mil milhas?"


Na espera de algo que vá desde o caos organizado, à junção da beleza dos sonhos e estrelas mais longínquas. Que, orientando e cintilando nesse horizonte que nunca deixa só, revela, protege, e embala na esperança do que há de ser. Ou de vir. 

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ausência de títulos por força maior

Numa limpeza que jamais seria étnica, chamemos-lhe com mais certeza de temporal, fui ter sem encontro marcado com trabalhos, escritas e vídeos realizados em pleno fulgor do início da vida como jovem adulta. E apeteceu-me chorar. Não de tristeza, mas de ter verificado em completo o quanto existe uma semente rebelde, inovadora, crítica, astuta, forte, desafiante, criativa e promissoramente JOVEM nesses tempos.
E é isto, é realmente isto que se deixa perecer quando se entra no padrão da vida merdosa do adulto.
Tornamo-nos chatos, convencionais, cheios de paninhos quentes por ai ui e ui ai, entramos no esquema, na roda do hamster, na vida chata e aborrecida de quem sabe que deveres são cumpridos e direitos nunca na totalidade, agradeçendo até, rezando um terço da boa vontade e bebendo-se outro numa esquina qualquer em honra ao céu azul de outros tempos, mais jovens e sem dúvida mais promissores.
Secalhar foi por tal que sempre gostei da Psiquiatra, no sentido em que não prevejo o que me dizem e a variabilidade da experiência, loucura e espontaneidade de cada um, me dá sentido a alguma coisa que trago cá dentro.
É quase como quem critica o PCP por ser um partido que ainda está no tempo da União Soviética e só existe porque é oposição, nunca sobrevivendo se fosse ele próprio o poder. Mas honestamente, e olhando para o exemplo daquele congresso ocorrido, sinto que podem ser eventualmente mais felizes assim. Pelo menos lutam, revoltam-se, estão lá atrás naqueles tempos em que o MRPP entrava pelas escolas dentro, desafiavando a autoridade, pensando-se mais além, onde a arte e cultura eram tão importantes, urgentes e íntegras quanto mais fortes as garras da opressão. 
E agora que as garras ainda se sentem (ou será que se sentem ainda mais) onde está essa luta??
Esse fulgor jovem, o sangue quente a correr pelas veias, os ideais e ideias???
O brilho, a energia a bombar, a frescura, o olhar toldado pela sede da mudança, da novidade e da vontade??
É que se for para fazer deste mundo um local cheio de carcaças velhas, de nada nos adiantou cá chegar cheios de tudo quando o embate com o não poder fazer nada é mais que chocante. É assassinato mental.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Viver sem expectativas não é ser desconfiado ou pessimista

Algo que é uma ferramenta imprescindível para estar na vida com saúde mental e equilíbrio trata-se de saber viver sem expectativas. Assim proferido e escrito quase que transmite a ideia errada de uma libertinagem completa e da anarquia de acções ou relacionamentos, ou de que se tem que de viver em permanente desconfiança e sob a inclusão de um conceito pessimista sobre os outros e a vida. Não. Não se trata definitivamente de tal, pois este tipo de ideias pode ser muito mais prejudicial que benéfico. Reforçam a ideia de que há perigo, de que não vale a pena acreditar ou entregar, quando o que transmitimos de bom e livre aos outros, é que o que trás a força e beleza de quem somos e do nosso propósito.
Viver sem expectativas exige um amor próprio e uma auto estima inabalável, reforçada e bem definida. Tal como o tronco grosso que sustenta a árvore, ou os pilares que comportam o templo ou a casa. De pouco importa saber fazer contas, independência e ambição quando o mais básico não existe ou está tenuamente desenvolvido - e pior - com um medo enorme de ser tocado e abanado.Quantas faltas de autoestima e amor próprio originaram guerras, disputas, falta de perdão, violência, inveja, controlo?
Viver sem expectativas permite ser paciente. Receber o melhor dos outros, sem esquecer que podem revelar momentos e acções menos esperadas e a isso terem categórico direito. Permite ver os outros na sua integridade e não aquilo que queremos que sejam. Inicia o caminho maravilhoso do dar pelo que sentimos e não pelo que sentimos que os outros devem sentir. Não medeia ou esfria o estar. Pelo contrário. Coloca muito mais naturalidade e aceitação do que tudo o resto. Faz-nos não desenvolver dependências por pessoas, relações ou objectivos e pensamentos rígidos que não nos preparam para a surpresa e receptividade. Auxilia a encarar a mudança como inevitável, incontrolável e essencial para o crescimento e não na base do remorso ou punição. Retira a imposição perante os outros e dá-nos a inclusão perante um todo. Se abandonarmos tudo o que seja viver exclusivamente na busca do reconhecimento, prazer, justiças, alcançamos tamanho amor e gratidão connosco e outros, que a vida nunca mais será a mesma. É transformada pela ampla leveza do existir e ver existir os outros sem obrigações ou lógicas, num modo de contínua transformação interior. E a isso, a isso sim, chamo liberdade. Ser livre.