sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Vendi o espaço deste título num supermercado

Hoje fiz-me entrar num daqueles supermercados que só não conseguem vender honra e dignidade e deliciei-me com o banquete de necessidades em montra. 
Quase senti um calafrio inoportuno, pensando na minha extinta bisavó que viveu numa aldeia perdida no interior do país, que já de si, também está perdido de Portugal. Retomando a ideia, recordei a minha bisavózinha porque também ela ficaria entorpecida com a intrigante panóplia de decisões que se afiguram em compras num grande supermercado, quando a vida antes só permitia divagar entre o necessário e o óbvio. Não no tipo de presunto, tomate, granolas ("que é isso filha", parece que a ouço a perguntar), postas de pescada ou fraldas de cores, texturas e cheirinhos. 
É caricato este peso que colocam no vulgar contribuinte, estando ele atormentado na gestão do dinheiro volumoso do seu bolso, não podendo simplesmente optar por A, tem o alfabeto inteiro perfilado para escrutínio. Para ler rótulos, sentir a estética e necessidade promíscua do marketing e quiçás, não encontrar a menina oprimida que observa na esperança de nos borrifarmos para a existência do novo queijo que lhe paga o aluguer da casa (ou do quarto?).
Enfim, é a súmula desta vida. As pessoas julgam estar com maior capacidade de escolher, envergar direitos e consciências, mas não percebem que muito do progresso nos empurrou para pior. Nunca estivemos tão ensimesmados nas nossas escolhas e com tão pouca informação clara. Os gerentes dos supermercardos têm fortíssimas dores abdominais de tanto rirem dos comuns consumidores, pois a confusão está instalada e tão bem orquestrada, que julgamos ser nossa a palavra final. E não percebemos que, nesse final, nós é que somos o seu maior produto em venda.
(E agora ocorre-me uma epifania... parece que não é só nos supermercados).

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