sábado, 1 de outubro de 2016

Boarding pass para a transição

Recordo-me de como há muito tempo gostava de estar nas frias e amplas salas de aeroporto, a contemplar os vários destinos exibidos em permanência no ecrã. Esse rigoroso ecrã, que simbolizava o avizinhar temporal dos sonhos ou o resignar de oportunidades pseudo amargas. E contemplava-o contigo, num tom puro, brincando com a imaginação ao questionar para onde quereríamos seguir, na certeza não propositada de se flutuar na doce ingenuidade da inocência e leveza. Esse tempo que chegou, que nos fez posteriormente aterrar em definitivo, calçou-me os sapatinhos Oz da Dorothy e soube-me mostrar que não existe nada como a nossa casa quando somos felizes, ou quando essa recordação perece por entre os espaços do tempo e do que com ele se faz.
Com frequência, uma vez que vivo e vejo viver, assalta-me a curiosidade e permito-me a atentar subtil e despretensiosamente na multidão que se move pelo aeroporto. Sei que já não estás por perto para sorrires comigo entre partidas e horários e talvez seja porque resides num desses fusos e destinos da memória, que a viagem foi dura, longa, agitada e transformadora. Só desta forma eu posso agradecer tudo o consegui arrumar naquela mala sem tamanho onde cabem o coração e as lições que nos mudam. Acontece que por vezes possuo dúvidas sobre se o que me falta são mais companheiros do meu estilo de viagem, se a escolha de um será tão árdua quanto a persecução de um destino que parece inatingível, ou se apenas faltará arrumar algo que ainda não detenho em mãos. 
Sei que estou pelo aeroporto e que respeito o poder da vida de ser em simultâneo docemente ardilosa e implacavelmente fraterna. E sorrio. É que recordo agora que no interior do avião conseguem visualizar-se grandes formações naturais e civilizacionais, numa escala muito mais reduzida e abrangente. Essa perspectiva torna-se vital e estratégica para auxiliar na compreensão do que é o fluir da vida e das oportunidades que se seguem e fortaleçem, onde se sente doer. Talvez seja este o momento de optar por outro tipo de transporte onde me desloque mais a pé, para deste modo conseguir maravilhar-me com o encanto e descoberta de outros ângulos. Como aquele que nos permite percepcionar e sentir as pequenas coisas a uma escala gigante. Aquele ângulo que só se encontra quando nasce o amor.

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