segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Postais da vida



Pontualmente envolvem-me saudades desse passado que lá foi, não remetendo de modo objectivo a uma pessoa, mas na mistura harmoniosa de todos os momentos de felicidade em que a imperava a união, conforto e ingenuidade, e em que o estar e ter por perto, era tão seguro como a flutuação interminável dos dias e noites. Ainda me recordo das manhãs enevoadas, das noites pintadas de luar com o som do motor a iniciar momentos, do sol da tarde na janela, a cadência da alegria, o ritmo das certezas e do coração que ainda maleável como plasticina, envolvido nas descobertas de si e dos outros, sorria quando era aceite e espontaneamente aceitava. Não sei até se posso chamar saudades ao que estou a sentir. Saudades trás-me também um sentimento de querer voltar e embora muito me agradasse abraçar aquelas pessoas e ver inocentemente, sei que não poderia, nem devo voltar atrás. Vivê-lo e vê-lo assim, fez-me o que sou hoje. O play só se faz uma vez na vida. Constantamente falamos de oportunidades que ela concede, mas não referimos que a vida é em si a maior oportunidade de todas. Ninguém faria o mesmo duas vezes, sabendo e não sabendo o desfecho. O livre arbitrio é incrivel, como as sincronias, surpresas, destroçamentos e o crescer. Quando há amor e entrega em vez do conformismo e resistência a vida, esta torna-se uma amiga, professora, companheira e um contínuo presente para descobrir. A vida é força e só quer que nos deixemos fluir para a ganhar e aprender. De vez em quando sabe bem fazer uma homenagem ao passado, se o que resultou dele foi a força de mil músculos no coração e um tamanho maior que o céu dentro dele. E honrar tudo isso com o que somos e fazemos hoje.

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