sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Elogio aos loucos

Este texto é para todos aqueles que fazem a diferença na vida de alguém. Na diferença difundida pelos círculos por onde se movimentam, ou talvez possa nomeá-los de quadrados, rectângulos e tudo onde exista um vértice em pleno na normalidade que se passeia. Este texto é para os que são chamados de peças, personagens, entre outros eufemismos refrescantes. É para aqueles seres enormes cheios de luz num local acinzentado e surpreendentemente adivinhatório do que vai ser dito. Para quem agita com novas cores, propostas ou exaltações interiores. Os que não passam de modas, nem são de modas. Contudo, que não se confunda com povoamentos de raiva e assuntos mal resolvidos que fazem surgir respostas em torpedo, que em erro de encaminhamento, acabam por ser mais sentidas pelo emissor do que pelo receptor. Remeto-me a a discursos, monossílabos e figuras de pensamento proferidas apenas por quem tem clareza, inquietação, ironia e inteligência suficiente para colocar os outros a admirar, pensar ou preocupar pelo níveis de insanidade mental discrepantes do seu quotidiano. Esses fazem falta, muita falta para este belíssimo mundo. Precisámos ao longo da história de várias contribuições dadas por pessoas para a ciência, paz, humanidades, entre outros. Mas no micro mundo onde a vida é realizada em menor escala, precisa-se urgentemente de gente louca, disposta a marcar com criatividade e humor aquilo que floresce dentro delas e aos outros é tão necessário ou estranho. No dia em que (me) faltar loucura, seriamente me preocuparei com a hipótese grave de estar a ficar doente e senil.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Quando eu era espiritualmente menos evoluída empregava a palavra azar. O azar, esse que aparecia sem convite e que de forma displicente, dispunha e irritava no que tinha de menos firme. Hoje, com o decorrer das lições que autonomamente me predisponho a fazer, descubro que a palavra azar é rígida e pouco contributiva. Surge para enredar toda esta significância e colocar as pessoas numa torrente de energia negativa pelo mundo ou circunstâncias. Devolve pouco do que é a nossa acção individual e atribuí tudo a uma justiça irreal que se julga que o universo prontamente concede. O azar é o lado inverso da vida. É o que se vê por trás de um bordado, o entrecruzado de linhas e linhas sem beleza aparente. É uma série de imprevistos que contribuíram para sermos melhor do que estávamos predispostos a ser. É a parte do copo vazio que auxilia a ver o quanto está cheio. Azar é esquecer que o mar tem ondas, tempestades e atritos, para poder ser límpido, espelhado e calmaria. Uns revelam o que de melhor são quanto melhores as circunstâncias, há outros que, quanto piores as circunstâncias mais constatam reflectidamente que não têm azar. Têm discernimento, força, resiliência e superação emocional. E isso, nunca, mas nunca se poderia chamar azar.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Postais da vida



Pontualmente envolvem-me saudades desse passado que lá foi, não remetendo de modo objectivo a uma pessoa, mas na mistura harmoniosa de todos os momentos de felicidade em que a imperava a união, conforto e ingenuidade, e em que o estar e ter por perto, era tão seguro como a flutuação interminável dos dias e noites. Ainda me recordo das manhãs enevoadas, das noites pintadas de luar com o som do motor a iniciar momentos, do sol da tarde na janela, a cadência da alegria, o ritmo das certezas e do coração que ainda maleável como plasticina, envolvido nas descobertas de si e dos outros, sorria quando era aceite e espontaneamente aceitava. Não sei até se posso chamar saudades ao que estou a sentir. Saudades trás-me também um sentimento de querer voltar e embora muito me agradasse abraçar aquelas pessoas e ver inocentemente, sei que não poderia, nem devo voltar atrás. Vivê-lo e vê-lo assim, fez-me o que sou hoje. O play só se faz uma vez na vida. Constantamente falamos de oportunidades que ela concede, mas não referimos que a vida é em si a maior oportunidade de todas. Ninguém faria o mesmo duas vezes, sabendo e não sabendo o desfecho. O livre arbitrio é incrivel, como as sincronias, surpresas, destroçamentos e o crescer. Quando há amor e entrega em vez do conformismo e resistência a vida, esta torna-se uma amiga, professora, companheira e um contínuo presente para descobrir. A vida é força e só quer que nos deixemos fluir para a ganhar e aprender. De vez em quando sabe bem fazer uma homenagem ao passado, se o que resultou dele foi a força de mil músculos no coração e um tamanho maior que o céu dentro dele. E honrar tudo isso com o que somos e fazemos hoje.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Inspirado por - parte II

truthhastobegiven
Maravilhosa capa por Camila Reis

Por vezes um acontecimento pode ser incorrectamente interpretado, não sendo percepcionado como algo que proporcione evolução interior. Seja um questionar doloroso, um abalo sísmico quando reinava paz complacente, a insatisfação de estar preso a tumultos que se pensavam resolvidos ou não desejados. Os sinais são evidentes, proporcionam à intuição aquele canal secreto que só ela conhece para comunicar connosco, ajudando a parar para sentir. Contudo, como se é educado para acomodar no conforto e limites e não na imensidão de receber o que vem do aparente caos, esquecemo-nos de admitir como é necessária a renovação, para quando nos coloquemos em causa, alcançar apenas a verdade e o que com ela nasce de melhor. Estes sinais não surgem para castrar, julgar ou atribuir compensações reclamadas só porque se quer ou precisa... surgem para revelar cada vez mais quem somos, e quanto mais transparente e límpido for o entendimento, constatamos o caminho porque nele nos voltamos a ver. Ser o caminho implica limparmo-nos de variadas crenças, controlos, egoísmos, raiva, ilusão e falta de amor que atingem o mundo e sinergicamente nos atingem, a uns pontualmente, a outros com maior frequência, inibindo de viver com maior simplicidade. 
É isso que me agradaria, de viver mais simples, num mundo de relações sem sub ou sobre interpretações e em que não necessitássemos previamente de nos esconder e perder nas próprias feridas e (in)seguranças, quando o desafio já lançou a âncora. Tomemos muito, ou talvez tudo o que vai acontecendo de impactante nas nossas vidas, como pequenos e grandes pontos de luz que vão formando a nossa constelação, perto de tantas que nos acompanham e de muitas outras que nunca conheceremos. E nesse céu sem fim elas vão apresentando algo em comum. Formam-se e revelam-se no maior e mais diferenciado companheiro das nossas vidas. O brilho inigualável que cada um trás dentro de si.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Ninguém repara o quanto o amor esta a ser dado, recusado ou ignorado a toda a hora.
Numa ignorância que se cria, num distanciamento gelado, num atentar com foco discriminado e intencional.
O amor está em todo o lado e sempre o damos aos outros quando oferecemos o melhor de nós em boas acções e sentimentos, independentemente do vínculo afectivo ou compromisso.
É o que mais se pretende ter e viver e não discernimos que ele já está presente, é em si o vínculo, com uma força inesgotável e que nos liga em corrente universal, que por ser interior, precisa de paz, verdade e reconhecimento para discernir e deixar revelar.
Que feliz sou, de sentir todas as fontes de amor que partem de mim para os outros e dos outros para mim!

domingo, 16 de outubro de 2016

As grandes lições que gentilmente nos sacodem

Uns mais que outros conseguem sentir e observar a certeza de que nada é nosso. Porque tudo o que são pessoas e sentimentos não tem anexado visceral e firmemente, carimbos, vinhetas, assinaturas digitais ou artísticas. Vivemos numa doce ilusão de que podemos, porventura, possuir vontades e sentimentos e adivinhar expectativas ou posições alheias, qual custódia reclamada em amplo espectro. Pois bem, a vida não se coaduna com esta salomónica realidade. Pode existir porém um sentimento de união, fraternidade, cordialidade que conflua na exigência de um mínimo de possibilidades. Seria totalmente aristotélico e contudo inutilmente produtivo. O ser humano também é ser para sonhar, sair, estar e não estar, querer e não querer. De se vender quando a oportunidade surge e de se perder quando fica inebriado em si.  Por isso esta exigência trás em si sofrimento, porque quem sofre é o ego, desamparado, frio, orgulhoso e construtor de ideais. Paradoxalmente a uma lição incomparável de sobrevivência por fome, frio e sede, essa satisfação de funções da maior vitalidade, vem outra que é a de aprendermos a ser totais sem esperar que alguém nos venha completar em afectos, argumentos, companhia ou compreensão. E aceitar assim, tudo o que somos e tudo o que os outros possam ser.

sábado, 15 de outubro de 2016

Miguel Torga x 2

Coimbra, 11 de Março de 1953

Destino

Sozinho, como um sapo que passeia
Por entre a noite cega que o não vê
Arredo os reposteiros de silêncio,
E é mais silêncio ainda...
Mas prossigo esta ronda penitente
De sereno dum mundo adormecido...
Guarda dos versos de quem vive ausente
Dos tesoiros que tem no próprio ouvido.


Coimbra, 5 de Abril de 1952

Ponta seca

Remendo o coração, como a andorinha
Remenda o ninho onde foi feliz
Artes que o instinto sabe ou adivinha...
Mas fico a olhar depois a cicatriz.

Abençoado Eça de Queiroz


"Todavia, Afonso ainda ia longe, como ele dizia, de ser um velho borralheiro. Naquela idade, de Verão ou de Inverno, ao romper do sol, estava a pé, saindo logo para a quinta, depois da sua boa oração da manhã que era um grande mergulho na água fria. Sempre tivera o amor supersticioso da água; e costumava dizer que nada havia melhor para o homem que o sabor da água, som de água e vista da água. O que o prendera mais a Santa Olávia fora a sua grande riqueza de águas vivas, nascentes, repuxos, tranquilo espelhar de águas paradas, fresco murmúrio de águas regantes... E a esta viva tonificação da água atribuía ele o ter vindo assim, desde o começo do século, sem uma dor e sem uma doença, mantendo a rica tradição de saúde da família, duro, resistente aos desgostos e aos anos que passavam por ele, tão em vão, como passavam em vão, pelos seus robles de Santa Olávia, anos e vendavais."

sexta-feira, 14 de outubro de 2016


Rodrigue, quant à lui, il aime entendre des histoires d’enfant


(Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain)

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Sabedoria do oriente esquentada em pranto lusitano

Cabo Mondego

"O movimento das ondas, dia e noite vem do mar... E tu vês as ondas... Mas que estranho! Não vês o mar!"

Somos tão educados, castrados, preocupados, cinematografados e pensativos para as nossas maiores adversidades, desafios e momentos de crise que nos esquecemos que somos todos muito mais do que isso!!! Somos extensão, universalidade e plenitudade pura. As oportunidades surgem e desaparecem conforme a infinitude dessa linha do horizonte sempre almejada e suspirada. A unicidade deveria aproximar e não afastar ou julgar-nos sabedores, aflitivos, carentes. Há tanto para fazer, sentir, saber... Como poderemos somente deter nas ondas, quando o oceano - ou nós na vida, ou a vida em nós - é tão vasto?

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Despertar para o óbvio

Quando se tem verdade, amor, humildade e capacidade de compreensão nossa e dos outros consegue-se alcançar, esperar sem pressa, querer sem fogo que corroa interiormente, e viver sem ânsia das chegadas que não se prevêm. Cada pessoa que se cruza connosco e as que mais intensamente nos tocam trazem consigo o verdadeiro dom de nos despertar para o que de melhor somos. Porque trata-se disso mesmo, de ser num mundo em que a pressão constante nos fantasia e frusta em TER, e trocamos toda a essência da vida neste poderoso e maléfico assincronismo, que consome erradamente em vez de deixar respirar. Ninguém veio cá para ser infeliz ou para no fundo de si julgar que sabe o que a vida tem para dar. Não sabemos, não saberemos nunca e tê-lo presente desperta-nos para as surpresas e reconhecimentos que posteriormente se vão dar, num futuro que vive na base do nosso constante auto-conhecimento. Autoconhecer-se não significa aperfeiçoar-se, pois só se aperfeiçoa o que de ferro ou técnica é feito, caminha-se sim numa longa estrada  de aceitação de nós, dos outros e da vida, onde abundaram sempre folhas caducas, neve, raios de sol, vento e água que limpa, nesse caminho inesgotável que é sentir e agir, sendo livre das nossas piores limitações. 

"Between the click of the light, and the start of a dream"

A ciência explica-nos muito eficazmente a formação dos arco irís. Para a sua formação é sempre necessário o elemento água. A luz do sol branca é interceptada por uma gota da atmosfera e parte da luz refractada é reflectida no interior das gotas e devolvida em várias cores para todos nós. A razão da sua coloração e forma deve-se igualmente à forma esférica da gota. Agora sim, já entendo... que é a suspensa existência de algum cinzento e chuva que permite temporariamente ver juntas as cores mais jubilosas e julgar que de alguma forma, podem estar à distância das circunstâncias. Como quero que se avizinhe o dia em que de tanto sol que me inunda, não precisar de reparar em que lado nascem os arco íris. 

sábado, 1 de outubro de 2016

Boarding pass para a transição

Recordo-me de como há muito tempo gostava de estar nas frias e amplas salas de aeroporto, a contemplar os vários destinos exibidos em permanência no ecrã. Esse rigoroso ecrã, que simbolizava o avizinhar temporal dos sonhos ou o resignar de oportunidades pseudo amargas. E contemplava-o contigo, num tom puro, brincando com a imaginação ao questionar para onde quereríamos seguir, na certeza não propositada de se flutuar na doce ingenuidade da inocência e leveza. Esse tempo que chegou, que nos fez posteriormente aterrar em definitivo, calçou-me os sapatinhos Oz da Dorothy e soube-me mostrar que não existe nada como a nossa casa quando somos felizes, ou quando essa recordação perece por entre os espaços do tempo e do que com ele se faz.
Com frequência, uma vez que vivo e vejo viver, assalta-me a curiosidade e permito-me a atentar subtil e despretensiosamente na multidão que se move pelo aeroporto. Sei que já não estás por perto para sorrires comigo entre partidas e horários e talvez seja porque resides num desses fusos e destinos da memória, que a viagem foi dura, longa, agitada e transformadora. Só desta forma eu posso agradecer tudo o consegui arrumar naquela mala sem tamanho onde cabem o coração e as lições que nos mudam. Acontece que por vezes possuo dúvidas sobre se o que me falta são mais companheiros do meu estilo de viagem, se a escolha de um será tão árdua quanto a persecução de um destino que parece inatingível, ou se apenas faltará arrumar algo que ainda não detenho em mãos. 
Sei que estou pelo aeroporto e que respeito o poder da vida de ser em simultâneo docemente ardilosa e implacavelmente fraterna. E sorrio. É que recordo agora que no interior do avião conseguem visualizar-se grandes formações naturais e civilizacionais, numa escala muito mais reduzida e abrangente. Essa perspectiva torna-se vital e estratégica para auxiliar na compreensão do que é o fluir da vida e das oportunidades que se seguem e fortaleçem, onde se sente doer. Talvez seja este o momento de optar por outro tipo de transporte onde me desloque mais a pé, para deste modo conseguir maravilhar-me com o encanto e descoberta de outros ângulos. Como aquele que nos permite percepcionar e sentir as pequenas coisas a uma escala gigante. Aquele ângulo que só se encontra quando nasce o amor.