quarta-feira, 7 de setembro de 2016


Comprei um piano de cauda para fazer companhia ao meu coração.
Investi dinheiro nos melhores professores, estudei e consegui recriar melodias intemporais, perdi-me pelo tempo no prazer fortuito da descoberta, vivi instantes melómanos inebriada pelos sons e emoções do momento. Mas como se tratava do momento, efémero e cíclico, quando fechei o piano seguiam-me pequenas réstias de bem estar que se esvoaçavam como pós de per-lim-pim-pim. E aí, voltei a chorar. E tive a ousadia de me sentar ao piano a chorar, pois afinal, tendo sido comprado para fazer companhia ao coração, o sentimento de tristeza por vezes também é parte inevitável e necessária dele. À medida que as notas se desenhavam, também as minhas lágrimas deslizavam, como um doce embalo de orquestra. Não tive medo de as mostrar ou de dizer que as tinha, porque nenhuma dor é aliviada verdadeiramente se não se é forte o suficiente para admitir onde está. E aí, o piano começou a devolver-me encanto e gratidão de estar no agora, com quem sou. O meu eco já não era a dor. Era algo maior que eu, que me transmitia a esperança de que, como nenhuma nota está ao acaso, também as dores não o estão na vida. São feitas para aprendizagem, trabalhar a perspectiva, lapidar o que somos para alcançar a verdade. Não são elas que nos mudam. É a nossa capacidade de perceber o que está para além delas.

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