quarta-feira, 14 de setembro de 2016

À procura da intangível perfeição

Assola-me o coração e os pensamentos sentir que uma grande parte deste precioso mundo está entregue a uma doença que não figura nos compêndios dos manuais de diagnóstico e estatística de doenças mentais. Essa doença também deprime, angustia severamente, provoca ansiedade no seu extremo e uma colocação permanente de dúvidas e incapacidades. Essa doença chama-se PERFEIÇÃO. Corroí cada pedaçinho de oportunidades, dilacera a auto estima e o amor que se queria incondicional, deturpa o presente e o futuro numa ficção agudizada em que se é o segundo elemento da história, porque se foi harmoniosamente ensinado a saber que só os heróis e princesas são abundantes em virtudes e excelência. Existe tanto que foge e fugirá de forma permanente do nosso controlo. Porque queremos sempre segurar a carroça onde vão os animais, olhar por eles, não perder a estrada, verificar as rodas, falar com o companheiro do lado? Não dá, não dá para tudo. Essa condição máxima que devia respirar no ser humano, seria a de que, não controlamos basicamente QUASE NADA. Há pouco, muito pouco que podemos de facto controlar. Os padrões de exigência contínua onde devotamente somos educados e que pautam as relações pessoais e profissionais transformam o que seria a capacidade de cada um, para o estreitamento cognitivo que conduz a rigidez excessiva e medo de falhar. Pois bem, para atingir alguma conclusão,amadurecer, ser fiéis a nós, tivemos e temos muito que errar, cair no chão, sofrer, admitir. O que é idealizado serve também para atraiçoar o compromisso que temos em ser nós próprios, com a verdade e o todo possível de cada momento. As ideias fantasiadas de ter ficado aquém, que surgem na revisão de algum comportamento, são mais uma falta de respeito por tal. Fomos aquilo que tivemos de ser naquele momento, de acordo com o que poderíamos dar, sejam elas limitações ou aptidões. Para que servem inúmeras chicotadas mentais, se o que elas provocam é uma abolição de alegria, energia anímica e iniciativa feliz? Concluo que o que tem de imperar é a forma de reagir ao que não controlamos e não o resultado final imaginado dessa mesma acção. Quando todos conseguirmos ser educados a viver na permanência de que só se controla o que trazemos para a nossa vida e não o que a vida trouxer para nós, alcançaremos aceitação e tranquilidade. Ironicamente, o que tanto se procura atingir, sacrificando a ingénua felicidade e condição de sermos frágeis, feios e nada omnipotentes.

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