segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Pós graduação em análise relacional


Existe uma ideia incorrecta que julgo perpetuar-se até nas mentes dos que se consideram mais incautos. A ideia atormentadora de ser um ermita solitário, que residindo nesse malfadado exílio, não cumpre os vincados objectivos que a sociedade dita e os sonhos utópicos que são produto desta. A sentida concepção surge muitas vezes no âmago de uma relação que se finaliza ou quando outra mais auspiciosa teima em não se iniciar. Ao invés da inquietação - e agora o que é eu tenho a aprender sozinho? - a questão reveste-se maioritariamente de - e agora porque é que  eu (ainda) estou sozinho. Daqui advém alguma relutância em ponderar o verbo presente no agir, como fruto de comportamento activo mesmo que isso signifique trabalhar espera e paciência, e dissociar do imparcial facto, que enverga apenas e tão só a existência do que é real. Vou-me remeter a algo que pode parecer ousado, irónico ou inédito: O amor acontece. O amor não pode ser alinhavado em acordos financeiros, em contratos temporais relacionados com a imposição da idade biológica, ou em muros quotidianos que cerram as convivências, perdão, as conveniências. O amor não dá jeito. Não pede para ser reparado. Quem procura para não estar só, mergulha na relação com a mesma carência interna com que a começou. Talvez a melhor estratégia para a viver, seja iniciá-la no preciso momento em que se está agradavelmente bem sozinho e não abusar de lupas, telescópios, óculos com graduação aumentada, anúncios de auto-publicitação ou falsa modéstia. Para atrair boa intenção, sejamos boa intenção. Para atrair gente que aprecie a companhia, apreciemos também a nossa própria. Para ser amor para alguém, pratiquemos igualmente esse amor com a pessoa que somos. Para atrair alguém que repare em nós, não queiramos ser reparados apenas quando nos esforçamos. Para ser um plano com alguém, não coloquemos ninguém à força num que já se concebeu anteriormente. Deixemos, deixemos tudo acontecer. Que inevitavelmente, o amor também acontecerá.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

"Só o amor é real"

Descobriste que lá existe amor. Não sabendo ainda com que força, familiaridade ou dimensão. A verdade é que, quando o amor surge e para ele se é emergido, torna-se impossível guiar o caminho como se nada de extraordinário tivesse ocorrido. Ele tem essa subtileza, de relembrar persistente e pacientemente, tentando medir forças num duelo optimista, quando existe a tentação de combatê-lo com racionalidades, negação e princípios comparativos. O amor sabe sempre onde irá fluir - e como um rio constante - não cessa em chegar até nós, que conduzimos, somos conduzidos e escolhemos, pretendendo ou não, essa opção. Muitos é que se habituaram a viver com tantos véus, contratos, caridade que não entendem quando chegou, e quando necessita de ir ou ficar. Inúmeras gotinhas de chuva podem sair de uma nuvem e esta acinzentar serenamente as mesmas cabeças que ainda não repararam que partilham o mesmo espaço. E esta é uma magia do amor....descobrir sol entre as gotas de chuva. E agradecer a existência de ambos!

Maravilhoso Kahlil

"A vida é irónica. Muitas vezes, quando tentamos ser delicados e tolerantes, ofendemos os outros. É preciso muito cuidado ao falar com as pessoas. Se eu disser a alguém - Compreendo que pensa assim, mas quando tiver mais experiência entenderá melhor este tema - a pessoa fica furiosa, vira as costas e vai embora. Entretanto, se eu disser - Só está a falar tolices - esta mesma pessoa vai-me dar toda a atenção e gastará o resto do seu dia a discutir comigo. "

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Resultado de imagem para fotos de jardins com flores

Existem fases onde consideras que existe supremacia de uma espécie de flor e que dificilmente algo conseguirá mudar aquilo que é o teu gosto pessoal. As cores, cheiro, tempo e localização influenciam na mesma proporção em que te barricas cegamente nesse sentimento estético. Mas em tudo o que origina gostos e identificação, um visão mais ampla vem contribuir para a extensão e liberdade desse mesmo olhar. E começas a conhecer, conferindo oportunidades e espaço onde antes existiam reservas ou pré-estabelecimentos. O que aprecias não se coaduna com oportunismo de alternativas ou condicionalismos, pois só se consegue apreciar quando se é suficientemente pequeno para compreender a gigante diversidade do que nos rodeia e o quanto dela nos é imprescindível. E como um girassol que procura a luz, contemplar a variedade e contributo que cada flor trás ao mundo transforma a resignação ou automatismo, numa capacidade de estar mais grato à vida por aquilo que ela augura em surpreender. Se esta multiplicidade é necessária e fulcral na natureza, porque não procurar, respeitar e apreciar também quando se trata de pessoas?

domingo, 18 de setembro de 2016



Beleza: O que nasce de dentro para fora, que consegue ser irresistivelmente perceptível ao olhar dos outros.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

À procura da intangível perfeição

Assola-me o coração e os pensamentos sentir que uma grande parte deste precioso mundo está entregue a uma doença que não figura nos compêndios dos manuais de diagnóstico e estatística de doenças mentais. Essa doença também deprime, angustia severamente, provoca ansiedade no seu extremo e uma colocação permanente de dúvidas e incapacidades. Essa doença chama-se PERFEIÇÃO. Corroí cada pedaçinho de oportunidades, dilacera a auto estima e o amor que se queria incondicional, deturpa o presente e o futuro numa ficção agudizada em que se é o segundo elemento da história, porque se foi harmoniosamente ensinado a saber que só os heróis e princesas são abundantes em virtudes e excelência. Existe tanto que foge e fugirá de forma permanente do nosso controlo. Porque queremos sempre segurar a carroça onde vão os animais, olhar por eles, não perder a estrada, verificar as rodas, falar com o companheiro do lado? Não dá, não dá para tudo. Essa condição máxima que devia respirar no ser humano, seria a de que, não controlamos basicamente QUASE NADA. Há pouco, muito pouco que podemos de facto controlar. Os padrões de exigência contínua onde devotamente somos educados e que pautam as relações pessoais e profissionais transformam o que seria a capacidade de cada um, para o estreitamento cognitivo que conduz a rigidez excessiva e medo de falhar. Pois bem, para atingir alguma conclusão,amadurecer, ser fiéis a nós, tivemos e temos muito que errar, cair no chão, sofrer, admitir. O que é idealizado serve também para atraiçoar o compromisso que temos em ser nós próprios, com a verdade e o todo possível de cada momento. As ideias fantasiadas de ter ficado aquém, que surgem na revisão de algum comportamento, são mais uma falta de respeito por tal. Fomos aquilo que tivemos de ser naquele momento, de acordo com o que poderíamos dar, sejam elas limitações ou aptidões. Para que servem inúmeras chicotadas mentais, se o que elas provocam é uma abolição de alegria, energia anímica e iniciativa feliz? Concluo que o que tem de imperar é a forma de reagir ao que não controlamos e não o resultado final imaginado dessa mesma acção. Quando todos conseguirmos ser educados a viver na permanência de que só se controla o que trazemos para a nossa vida e não o que a vida trouxer para nós, alcançaremos aceitação e tranquilidade. Ironicamente, o que tanto se procura atingir, sacrificando a ingénua felicidade e condição de sermos frágeis, feios e nada omnipotentes.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016


Ouvi algo a explodir por dentro.
Talvez possa chamar de amor próprio.

A todos os enólogos desta vida

Setembro é intrinsecamente o mês das vindimas. Dos cachos ricos em sabor, perfeitamente contextualizados na acidez, cor e peso. É o resultado final de um ano produtivo e planeado. Num ano que se inicia com a poda, seja ela de perdas, tristezas e dores, anunciando um longo Inverno em que a ausência - ou uma vazia presença - se faz notar indelevelmente. A primavera faz nascer consigo as primeiras esperanças, os indícios ténues de força, superação e resiliência em prol de um nascimento que se avizinha e que necessita de acontecer. Quando tudo se torna fluente e real, o Verão vem acrescentar a cor onde esta não se observava e aroma e paladar de quem tem orgulho, respeito e humildade pelos frutos que tanto custaram a despontar. Sendo as vindimas sinónimo de convívio, festa e alegria, cortar os cachos em conjunto torna-se assim absolutamente necessário pois a alegria faz mais sentido quando é partilhada. Um acondicionamento atento dessa conquista torna-a menos frágil a exposições posteriores e a extracção pura do que esta trouxe de melhor terá que ser firmemente escrutinada. Finalizando todo o processo, o vinho é engarrafado para consumo próprio ou de terceiros. Eu vivi intensamente todas as fases da minha vindima. Um dia acreditei que não tinha chão para uvas, noutro não valorizei o que elas me podiam dar, até que entendi que serei sempre o catalisador máximo das experiências e aprendizagens que realizo nas minhas videiras... A qualidade da uva será directamente proporcional ao empenho e trabalho que é colocado em todas as fases anteriores. Não sei, de facto, se hoje chegou Setembro. Sei que quero muito beber desse vinho e que quando o beber, não almejo um regozijo de sentidos, um deleite alcoolizado ou um florescer de emoções. Já vivo muito disso no vinho de outros. No meu, só ficarei satisfeita quando dele sentir apenas um sabor inqualificável de paz e evolução interior. Até lá, vou bebendo esses vinhos... enquanto aprimoro e espero o resultado do meu.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016


Comprei um piano de cauda para fazer companhia ao meu coração.
Investi dinheiro nos melhores professores, estudei e consegui recriar melodias intemporais, perdi-me pelo tempo no prazer fortuito da descoberta, vivi instantes melómanos inebriada pelos sons e emoções do momento. Mas como se tratava do momento, efémero e cíclico, quando fechei o piano seguiam-me pequenas réstias de bem estar que se esvoaçavam como pós de per-lim-pim-pim. E aí, voltei a chorar. E tive a ousadia de me sentar ao piano a chorar, pois afinal, tendo sido comprado para fazer companhia ao coração, o sentimento de tristeza por vezes também é parte inevitável e necessária dele. À medida que as notas se desenhavam, também as minhas lágrimas deslizavam, como um doce embalo de orquestra. Não tive medo de as mostrar ou de dizer que as tinha, porque nenhuma dor é aliviada verdadeiramente se não se é forte o suficiente para admitir onde está. E aí, o piano começou a devolver-me encanto e gratidão de estar no agora, com quem sou. O meu eco já não era a dor. Era algo maior que eu, que me transmitia a esperança de que, como nenhuma nota está ao acaso, também as dores não o estão na vida. São feitas para aprendizagem, trabalhar a perspectiva, lapidar o que somos para alcançar a verdade. Não são elas que nos mudam. É a nossa capacidade de perceber o que está para além delas.

Em memória de


"Vou-te contar uma coisa que um dia o meu pai um dia me contou. Olha para as estrelas. Os grandes reis do passado olham para nós lá de cima. Sempre que te sentires sozinho, lembra-te que eles estarão lá sempre para te guiar. Tal como eu."

sábado, 3 de setembro de 2016

A mudança se verdadeira é gradual


Muito de nós é analisado em audácia constante, insatisfações ou exigências pressionadas, como um espelho e eco consciente dos reflexos que nos atingem, por voz própria ou de terceiros. Mas dificilmente algo muda se tal não se apoderar interiormente. Percorrer todas as células, sangue bombeado, pensamento, sonhos palpáveis e comportamentos. Não confio em mudanças que se dão do 8 para o 80. Num dia que instantaneamente anoitece e num luar trocado velozmente pelo sol. Hesito em promessas e conjuntos de palavras ditos no calor da dor e do momento. A mudança, quando acontece, precisa de ser gradual. Reconhece que foi produto de hábitos, mecanismos de defesa, estruturação e identidade que a vida foi dando e do destino e resiliência que há para com cada momento. Constata a importância do tempo e dos julgamentos de tempo que nele se colocam. Tem a humildade de perceber que não se deixa ir num rio constante, mas que fluí. Fluir significa ser trabalhada porque a mente irá intrometer-se querendo entorpecer e fantasiar o caminho com o que já conhecia ou pensa conhecer. Faz uso de argumentos frágeis e pode valer-se de tudo o que nos limita: ignorância, dor, vazio, raiva, projecção em demasia do futuro no ter e ser. Como tal, quando a mudança chegar, de nada servirá colocar trancas na porta, ignorar a sua presença, fantasiar cenários, ter a voz orgulhosa, ou sofrer em estado permanente. Quando ela ficar, sabe-se. Não se pensa, julga, ou acha-se que se sabe. Sabe-se. Amplia o pensamento. Começam a visualizar-se oportunidades onde estas pareciam irrisórias. Há sabedoria onde antes havia medo. E este é um dos lados mais interessantes da mudança. Permitir-nos, dentro daquilo a que consideramos de alguma forma uma perda, ter a plena certeza que algo ficou preenchido. E esse algo, é o caminho até nós próprios e ao nosso maior potencial.