segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A aldeia mudou porque a vida também muda

Era uma vez

A vida quis que as aldeias fossem uma escola de crescimento muito, muito dura. Dura enquanto a ruralidade cobria o olhar da literacia, privando as pessoas de alimento físico e mental abundante, ensinando a importância da poupança, recolhimento, escolhas e afetos sob outros olhares. A vida quis que nevasse nas aldeias. Que corressem rios. Que existisse água em estado puro, bruto. Assim como pessoas. Animais. Simplicidade. Austeridade. Quis que por existir esse campo de visão curto, todos reconhecessem a importância do contacto contínuo, estando para o outro porque se vê. A vida quis que as aldeias ficassem mais isoladas, mesmo com autoestradas ou sinais de Wifi quase incompatíveis com serenidade. O isolamento está na produtividade que não atrai porque não existe. Nos cabos elétricos, informatização e massas que não podem existir. Numa rua onde se contam pelos dedos da mão os carros - ou as pessoas - que por lá passam. Eu conheci e conheço uma aldeia muito bonita. Onde muitas famílias com dificuldades e abastadas cresceram, fizeram as suas escolhas e a fluidez dos próprios caminhos tratou de permanecerem ou encontrarem outros fora. Os anos foram passando. As ruas que visualizei com famílias, risadas, avós e netos foram definhando. Os avós já não estão. Os netos consecutivamente deixaram de estar. E muitas das casas anteriormente habitadas tornaram-se somente construções de memórias. Mas a aldeia vai resistindo. O rio continua a correr, outrora lânguido, outrora veloz e forte. O sol e lua vão continuar a nascer e a deitar-se, no mesmo céu onde se pintam sonhos e desejos. Agora os netos são pais transmitindo um doce sentimento de renovação, tempo e continuidade. A aldeia mudou e continuará a mudar. Só para relembrar que também ela é apenas mais um reflexo do que a vida contém. 

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