quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Breve reflexão sobre a saúde mental

Subtraindo todas as etiologias genéticas e biológicas que contribuem para o aparecimento de doenças mentais, é urgente que se começe a repensar os pilares onde a sociedade assenta e caminha solidamente. Os empregos, que seriam uma abobóra transformada em coche para uma vida melhor, tornaram-se num poço sem fundo de stress mental, emocional, físico e interrogue-se, qualquer outra categoria de stress não mencionada anteriormente. Tudo o que sejam estruturas hierárquicas e organizativas ignoram homicidamente o facto de que todos têm carne e osso ao invés de ferro e maquinaria. Claro está que existem pessoas que deliberadamente escolhem uma entrega missionária ao trabalho em prol de objetivos (ou ás vezes da própria vida), cujos efeitos dessa mesma entrega serão repercutidos nas longas horas a que nele estão imersos. Já Manoel de Oliveira via novelas brasileiras nas horas vagas alegando que era isso que lhe fazia descansar o cérebro. Pois eu dou vivas ás novelas brasileiras. Há Rihanna, José Malhoa e música carrinho de choque em alto som. A Bon Iver, Amália e Tom Jobim dentro do coração. A longas noitadas virtuosas com amigos leais a dançar, rir, brindar, conversar e ver gente passar. A horas de lazer a correr, saltar, fazer amor, sorrir, ler, interessar pela vida, pessoas, arte, ridículo. A guiar-nos por disciplina e brio e simultaneamente por um grau de doidice mental que nos permita ser absolutamente saudáveis. Só assim se pode aguentar esta vida de loucos.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Mondiego

O que corre nas tuas águas é mais instrutivo do que qualquer livro jubilado da universidade.
"Quando a mão da vida é pesada e não se escutam canções durante a noite, a única coisa que nos alivia é acreditar e confiar no amor. Então, mesmo nas piores circunstâncias, tudo se torna mais leve e algumas melodias surgem na escuridão - porque estamos a amar e a confiar nesse amor. Obrigado pelo meteorito que me enviou. Costumo tocá-lo e pensar que nas minhas mãos, está algo que veio de milhões, milhões de quilómetros de distância. Este precioso meteorito enche a minha imaginação e faz o infinito menos estranho à minha alma. Há momentos em que a vida, aparentemente sem significado, parece ter mil sentidos ao mesmo tempo. O nosso coração está em todos os lugares, sentamo-nos na beira do rio e bebemos as suas águas mais profundas. Percebemos que a água também tem sede, e nós estamos a bebê-la também.
Então somos um só com o Universo."
Kahlil Gibran

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Tipologia

Nesta vida inadvertidamente
surge um passo que não se queria combalido
quando a música presente noutras estradas
ressoa por dentro de um coração sentido.

A alegria protectora da ingenuidade
afasta qualquer pensamento sobressaltado
mas eis que na esquina do tempo algo a desvanece
e deixa a descoberto o que tinha sido ignorado.

Não possuo uma balança descalibrada.
Nada menos ou mais que os outros posso ser.
Só preciso de entregar sabedoria, amor e paciência
naquilo que resiste em a receber.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

De Marcelo Gleiser, em "Criação Imperfeita"

Como explicar o sucesso de Kepler? Numa palavra, «procura». Acreditar numa ideia é a condição básica para tentar prová-la como correcta. Tal como o viajante que acredita na Terra Prometida e sai em sua procura, descobrindo novos lugares pelo caminho, muitas das descobertas mais importantes da ciência ocorreram durante a procura de objectivos que nunca foram atingidos.(...) É irónico e justamente importante para o nosso argumento, que precisamente o homem que tanto amava a simetria acabasse por provar que o círculo - a mais perfeita das formas - não tinha um papel central na astronomia. A estrututra do cosmo deixou de ser um sonho humano, passando a ser uma realidade científica, imperfeita e assimétrica. Kepler proporcionou-nos um cosmo menos belo, mas uma ciência mais precisa. A lição que aprendemos é tão simples quanto essencial: para nos aproximarmos de uma verdade, teremos que nos abandonar por diversas vezes dos sonhos de perfeição.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

For Emma, forever ago

Aconchegada no teu abraço firme e livre, perco-me em acordes de guitarras que fluem na proporção directa das memórias e desejos que sou. O céu vai rodopiando, num fiel reflexo do eixo e velocidade que a Terra encerra, e nele vão-se perfilando cores, nuvens, estrelas e tudo o que o tempo dá, desfaz e constrói. Um tom anoitecer suave desliza pela cortina delicadamente, como quem presenteia paz e harmonia. E sinto que poderíamos ficar assim, sossegados e absorvidos, enquanto assistímos passivamente ao universo no seu caos organizado. Nesse instante, concluo que eu e tu somos feitos desse mesmo caos, bem como uma eterna e efémera porção que o compõe. Só assim poderíamos assistir a tudo aquilo, envoltos num sentimento de união, pertença, compreensão e querer de algo mais. Algo mais que o universo dá - e que naquele momento - só podia ser amor.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Crítica da comparação pura

Desde muito novos somos educados na arte comparativa. Vivemos por ela, com ela e inevitavelmente as escolhas, decisões e caminhos trilham-se através desta prossecução, onde o cerébro astuto e pensante nos deveria indicar com maior celeridade como muitas vezes está a ser mais castrado que beneficiado. Comparamos bens. Valores. Preços. Qualidade. Prestações. Pessoas. Felicidade? O cérebro acorda  e deita-se a comparar, estuda, cresce, trabalha a comparar, numa interpretação que tem um paralelo colossal com a ignorância do todo que somos. Não pretendo retirar a importância do peso comparativo que auxilia em decisões vitais, estruturantes ou simplesmente práticas. Refiro-me a um mundo assente nesta ignorância da sociedade marketing-zada, que transforma a individualidade em produtos em série. Dolorosamente, o TER e SER estão sempre em primeiro plano na arte comparativa. Uma sociedade que privilegia a posse e valoriza a aparência não se poderia privar de possuir ambas como reféns. Quando se compara estes dois verbos o que se gera são competições. Que podem ser tão amplas como em nome de um país, religião ou algo que o suporte, ou mais particulares como pequenas invejas, frustrações e cansaços permanentes, associado ao engano crasso de nunca viver em nome próprio na sua própria história. Todos somos únicos, fundamentais e irreversíveis para a vida. O universo precisa de todos nós com o cada um tiver para dar, que venha do fundo de si e acompanhado das melhores intenções. Desta forma todos somos um pontinho a mais num livro que só é autêntico porque tem a caligrafia única de cada um. Para que serve uma sociedade que quer o mesmo de todos? Para que serve uma vida que não entenda que o todo só se faz porque existe cada um?

domingo, 21 de agosto de 2016

Pontos de balanço


Sem legendas possiveis de adicionar

Um dia quiseste ser ingénuo, temeroso ao ponto de não testar o medo, optando por sentir o sol e vento na cara, exibindo a inocência de viver na espuma dos dias. E foi de dias que esse calendário se fez, como uma fonte cuja água não cessava de jorrar, mas da qual nunca te inquietaste em perceber como se formava e onde terminava esse mesmo caudal. Em tudo existe esse principio, meio e fim. Nem que seja a origem de uma ideia, sua elaboração e posterior destino final. Viver é transformar. Aceitar o que nos chega, principalmente não resistir ao que a nós se avança. Seja uma decisão, um medo, um coração pequenino. A tudo o que se resiste o universo impõe três vezes mais força para que não se canse de chegar até nós. Talvez para nos lembrar que somos capazes, que precisamos de obter maior clarividência. Ou para não pronunciarmos em definitivo os nuncas e sempres que convictamente defendemos. E sentindo que o que há para viver, é no agora que se faz. O passado e futuro faz-se de agoras. Do agora que vivemos, ignoramos, que planeamos. E é nesse agora onde eu quero ser feliz. Para poder recordar e antever algo que também espelhe semelhante sentimento.

sábado, 20 de agosto de 2016

Ai querido Pessoa...

Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido - sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, aquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever, ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com os seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que os animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais. 
Livro do Desassossego

O mundo como infelizmente sempre o vamos conhecer


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A aldeia mudou porque a vida também muda

Era uma vez

A vida quis que as aldeias fossem uma escola de crescimento muito, muito dura. Dura enquanto a ruralidade cobria o olhar da literacia, privando as pessoas de alimento físico e mental abundante, ensinando a importância da poupança, recolhimento, escolhas e afetos sob outros olhares. A vida quis que nevasse nas aldeias. Que corressem rios. Que existisse água em estado puro, bruto. Assim como pessoas. Animais. Simplicidade. Austeridade. Quis que por existir esse campo de visão curto, todos reconhecessem a importância do contacto contínuo, estando para o outro porque se vê. A vida quis que as aldeias ficassem mais isoladas, mesmo com autoestradas ou sinais de Wifi quase incompatíveis com serenidade. O isolamento está na produtividade que não atrai porque não existe. Nos cabos elétricos, informatização e massas que não podem existir. Numa rua onde se contam pelos dedos da mão os carros - ou as pessoas - que por lá passam. Eu conheci e conheço uma aldeia muito bonita. Onde muitas famílias com dificuldades e abastadas cresceram, fizeram as suas escolhas e a fluidez dos próprios caminhos tratou de permanecerem ou encontrarem outros fora. Os anos foram passando. As ruas que visualizei com famílias, risadas, avós e netos foram definhando. Os avós já não estão. Os netos consecutivamente deixaram de estar. E muitas das casas anteriormente habitadas tornaram-se somente construções de memórias. Mas a aldeia vai resistindo. O rio continua a correr, outrora lânguido, outrora veloz e forte. O sol e lua vão continuar a nascer e a deitar-se, no mesmo céu onde se pintam sonhos e desejos. Agora os netos são pais transmitindo um doce sentimento de renovação, tempo e continuidade. A aldeia mudou e continuará a mudar. Só para relembrar que também ela é apenas mais um reflexo do que a vida contém. 

domingo, 7 de agosto de 2016

Manifesto de amor II

Deita-te comigo sob a imensidão de um céu estrelado, para juntos unirmos as estrelas que naturalmente se configuram na nossa constelação. Unidos, veremos cometas de aprendizagens que nos fizeram ser melhores um para ou outro, e contemplaremos serenamente a expansão da própria galáxia, quando esta só contiver amor puro e companheirismo. Bem sei que existem estrelas já extintas cujo brilho ainda é perpetuado durante anos, e como tal não quererei escondê-las de ti. Reconhecerei que elas são parte do meu próprio brilho, e uma razão mais para me amares pelo que sou. Não fujas quando o céu parecer demasiado encoberto, e sobretudo, não me deixes fugir se perceberes que o brilho das estrelas que ainda espreitam, é vivo e inocente. Tal como eu quero ser para ti. 

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A única idade é a vida!

Algures em Coimbra junto de um relojoeiro:
- Senhor João e que idade tem?
- Eu não vou dizer a minha idade. Assim como também não vou perguntar a sua. Desculpe-me, mas fui educado assim.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Requiem para um Nico



Foste sempre um companheiro. Companheiro no nascimento, nas surpresas, nas sonhos, ideias, risadas inteligentes. Nas descobertas, contemplação da natureza e do que nasce de genuíno em nós. No amor e na dor. Na amizade e no carinho. Na disponibilidade. Na juventude, crescimento, integridade, ingenuidade. No crescimento, afirmo. Na solidez de quem denota a presença sem incomodar, julgar ou duvidar. Um companheiro, verdadeiramente! Que hoje me deixa tão triste saber a forma vil e injusta como desapareceste. Nalgum escaninho da memória, o dourado da tua cor sempre se equiparará a alguma estrela no céu, que só alimente as boas memórias e a ternura eterna de quem me é muito.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

"Há sempre um degrau à espera"



Há sempre um degrau à espera...
... para uma nova amizade
... para um beijo apaixonado
... para um entendimento não forçado
... para perdoar e ser perdoado
... para saíres do degrau que já te deu tudo
... para verbalizares um sentimento que está mudo
... para sentir mais humildade
... para encontrares em ti a verdade
... para trabalhares a compreensão
... para desafiar alguma estabelecida razão
... para o que quiseres de uma nova experiência
... para te dares com maior transparência
... para acreditares no poder da tua acção
o que importa é que nesse degrau
aquilo que apreendas seja maior que a sua própria dimensão.

Vou só ali tirar foto com uma fonte e já venho

Aylito Binayo conhece a montanha. Mesmo às 4 horas da manhã, consegue descer até ao rio correndo sobre as rochas, apenas com a luz das estrelas a iluminá-la. Depois, volta a subir a montanha até à sua aldeia, carregando às costas 23 litros de água. Aos 25 anos, ela repete este trajecto três ou quatro vezes desde que nasceu. Todas as mulheres da aldeia de Foro, no distrito de Konso na Etiópia o fazem. Aylito abandonou os estudos aos 8 anos, em parte porque foi preciso ajudar a mãe a recolher água do rio Toiro. Quando se gastam muitas horas a percorrer longas distâncias carregando água, cada gota consumida conta. Segundo o grupo Águas de portugal, cada português gasta entre 100 a 180 litros por dia. Aylito vive apenas com 9. Lava as mãos com água "talvez uma vez por dia", reconhece. Lava a roupa uma vez por ano. E só de vez em quando lava o próprio corpo. 
Fonte: National Geographic
"À volta de um mestre, tinha-se formado um círculo de intelectuais e eruditos. O mestre quase nunca falava, mas o discípulos não paravam de bisbilhotar e de se perder em todo o género de opiniões e pontos de vista. Durante horas, distraíam-se com todo o tipo de hipóteses e conjecturas metafísicas e em abstracções filosóficas. Todos falavam e ninguém prestava atenção aos outros, apenas às suas opiniões. Certo dia, o mestre disse: 
- São como lavadeiras! 
- Lavadeiras? - Perguntaram perplexos - Não percebemos o que temos a ver com lavadeiras. 
- As lavadeiras têm muita roupa, mas vêm os proprietários da mesma, levam-na e elas ficam sem nada. Vocês têm muitas opiniões tiradas de livros, textos, filósofos, mas nada vos pertence. Estão vazios. Continuam a especular, mas assim não vão obter nem uma grama de sabedoria e continuarão a ser como lavadeiras.

O conhecimento é informação, dados, opiniões reunidas; A sabedoria é conhecimento vivo, experiência, compreensão clara, entendimento livre de juízos e preconceitos. O conhecimento é superficial, parcial e condicionado. A sabedoria vê no modo final de ser das coisas e liberta-se dos conhecimentos produzidos pelos modelos, padrões, esquemas e preconceitos. O conhecimento baseia-se no pensamento e no que está para lá do pensamento. O conhecimento é transmitido de uns para aos outros, é de todos e de ninguém. A sabedoria é pessoal e não é transferível. Eu posso dar-te conhecimento e tu podes dar-me conhecimento, mas nem eu posso dar-te a minha sabedoria, nem tu me podes dar a tua. O conhecimento informa, a sabedoria liberta. O conhecimento ilustra, a sabedoria transforma. O conhecimento usa a mente, a sabedoria mente e coração."

Os melhores contos espirituais do Oriente, de Ramiro Calle