sexta-feira, 22 de julho de 2016

Escrito a 25/12/1930 por Fernando Pessoa

Por trás daquela janela
Cuja cortina não muda
Coloco a visão daquela
Que a alma em si mesmo estuda
No desejo que a revela.

Não tenho falta de amor
Quem me queira não me falta.
Mas teria outro sabor
Se isso fosse interior
Àquela janela alta.

Porquê? Se eu soubesse, tinha
Tudo o que desejo ter.
Amei outrora a Rainha,
E há sempre na alma minha
Um trono por preencher.

Sempre que posso sonhar,
Sempre que não vejo, ponho
O trono nesse lugar;
Além da cortina é o lar,
Além da janela é o sonho.

Assim, passando, entreteço
O artifício do caminho
E um pouco de mim esqueço
Pois mais nada à vida peço
Do que ser o seu vizinho.

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