terça-feira, 26 de julho de 2016

O amor é pró-activo

Regozijem-se os poetas e sofredores de esquina, chorem os corações moles de emotividade literária ou cinematográfica, o amor real necessita de acção, iniciativa, raciocínio, assertividade e uma data de conjugações auspiciosas que não se encontram nos astros, pedras da calçada ou imaginação. A vida real é crua, dura, e nem o filtro mais colorido consegue disfarçar a aspereza com que ela nos engole e impõe viver na firmeza, em detrimento de um mar de superficialidade. Mas se a todo este leque conseguirmos juntar um discreto, porém existente, toque de pó de estrelas - seja ele um bocadinho de fantasia, um arrebatamento simpático ou um querer delicado - será que tudo não fica um pouco mais suportável? Ou o que torna suportável é filtrar com pensamento crítico e lógico? Resta saber não nos dominar por demasiada literacia romântica, porque o mundo não está, nem nunca esteve para isso. A arte está, pois grande parte dela são suspiros da vida real que ficou por fazer. Mas a vida não. A vida não pode imitar a arte. Sob pena de também ela ficar por fazer.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Biológica é a minha avó

Neste poderoso caldeirão que é discursar sobre a sustentabilidade ecológica, editar livros, documentários, entre outros que tangencialmente roçam a moda, qual a distância entre algo que é insuflado para a tumultuosa sociedade de consumo e a real reflexão sustentada? Fazem-se festivais com consciência ética, festeja-se o solstício e a lua cheia de mãos dadas, reflectem-se hábitos em formato best-seller e o verde surge saudavelmente anexado em etiqueta de mercado. E apesar de muito nos ter distanciado em conhecimento cientifico e cultural, não consigo abster-me de pensar na minha avó, e em qualquer "avó" que nos tenha transmitido verdadeiramente alguns hábitos ecológicos valiosos, por serem intemporais. O não desperdiçar inutilmente, não gastando mais do que possuimos - seja recursos, alimentos, dinheiro...Ou algo tão lato como o tempo, honra, amizade e amor. Guardar o necessário, porque em o sendo, eventualmente o futuro nos fará procurá-lo.  Não tolerar o descartável. Apreciar o que resta da vida, pessoas e natureza, vendo-as, sentindo-as. Todos eles foram bios, ecos, e agora finalizam essas mesmas vidas entregues a aparelhos eletrónicos inventados para lhes roubar a essência da sua própria companhia. Que mundo tão eco!

sábado, 23 de julho de 2016

Praticar a afabilidade

Quanto rancor e indiferença podem estar num coração? Practicar a afabilidade faz-nos mais humanos e de certo modo equipara-nos de forma humilde a alguns (ou maior parte?) dos animais. De nada serve pertencer a um relacionamento, um grupo de amigos ou a inclusão noutro segmento, quando não te é natural o mais básico, que é receber uma pessoa (por mais lacunas de extroversão que existam). Para fazer amigos precisou-se que nos aceitassem como somos. Para a inserção laboral necessitou-se de alguém que nos guiasse. E o amor? O amor origina-se de muito querer, olhar, sentir, estar com. Portanto, de nada nos serve não ser afáveis. O mundo tem já uma lista interminável de exemplos da pior afabililidade possível. Mesmo os virtuosos humanos que não matam, violam, entre outros verbos demasiado malévolos, conjugam frequentemente esta falta de graciosidade e gentileza sempre que julgam que o seu círculo é demasiado completo ou importante para receber alguém. Somos pouco, se pensarmos sempre que tudo o que temos e damos é já suficiente. Sejamos afáveis. Ninguém ganha mais do que nós próprios.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Escrito a 25/12/1930 por Fernando Pessoa

Por trás daquela janela
Cuja cortina não muda
Coloco a visão daquela
Que a alma em si mesmo estuda
No desejo que a revela.

Não tenho falta de amor
Quem me queira não me falta.
Mas teria outro sabor
Se isso fosse interior
Àquela janela alta.

Porquê? Se eu soubesse, tinha
Tudo o que desejo ter.
Amei outrora a Rainha,
E há sempre na alma minha
Um trono por preencher.

Sempre que posso sonhar,
Sempre que não vejo, ponho
O trono nesse lugar;
Além da cortina é o lar,
Além da janela é o sonho.

Assim, passando, entreteço
O artifício do caminho
E um pouco de mim esqueço
Pois mais nada à vida peço
Do que ser o seu vizinho.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A sorte do contexto geográfico

Excluindo os que opcionalmente alteraram a sua localização geográfica abrindo milhas de perigos, desafios e desformatação nunca sentida, todos nós, que nascemos em locais e cantinhos abençoados deveremos ficar eternamente gratos, nessa sorte que por nós não foi escolhida. Uma saia ou um vestido justo a exalar sensualidade usado por uma mulher, faz essa mesma mulher toda coberta vergar perante os costumes mais fundamentalistas, ou despertar violações em massa algures. Uma torneira, fonte ou bebedouro que tão resplandecentemente hidratam os mimados sonhos, tem o paralelo com os quilómetros que umas mulheres em África fazem, colocando deliberadamente as vidas em risco, para trazer água potável para a aldeia. Um passeio relaxado num parque natural, o trabalho de vigilante num jardim zoológico e algures no Parque Nacional de Virunga são assassinados diariamente esses mesmos vigilantes, por quem lucra imparavelmente com o tráfico de carne e marfim. Não me querendo alongar em outras múltiplas comparações, e sob pena de o texto soar a melodramático quando é apenas a vida real que nos chega, mas não produz impacto, abandono-me aqui em escrita. Nesta escrita que não me é proibida ou censurada, mas que neste país onde vivo, já chegou a sê-lo. Tenho sorte.

sábado, 16 de julho de 2016

Obrigada aí Kahlil Gilbran!

"Os grandes poetas do passado entregavam-se sempre à vida. Eles não procuravam algo em determinado, nem tentavam desvendar segredos, simplesmente permitiam que as suas almas fossem governadas, guiadas e movidas pela Existência. As pessoas estão sempre a procurar segurança e às vezes conseguem; mas a segurança é um fim em si, e a vida, não tem fim."

sexta-feira, 15 de julho de 2016

"Numa ocasião, Buda reuniu os seus discípulos e deu-lhes um sermão muito breve, seguramente um dos mais significativos que alguma vez transmitiu um mestre. Limitou-se a dizer-lhes "Venham e vejam". Não lhes disse "venham e julguem" ou "venham e interpretem" ou "venham e suponham", ou ainda "venham e façam conjecturas". Não. Simplesmente, venham e vejam. Vejam o que é, liguem-se com o que há. Não com o que esperamos ou tememos ver, ou queremos imaginar que é, ou vemos através dos nossos filtros e do nosso condicionamento. Apenas, vem e olha."

Uma dança de pé descalço para o amor

Queria tanto conhecer-te,
admirar os teus contornos
a lua está menos enevoada
despiu-se orgulhosamente dos seus adornos!

Há tanto que ela já iluminou
exibe gloriosa, certezas douradas.
Da mesma forma como esse coração também pensou
que algumas tristezas estivessem realmente eliminadas.

Não chores! Procura sorrir!
E o amor irá encontrar-te novamente.
Basta que voltes a ter a ingenuidade
de recomeçar onde querias ter sido diferente.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Texto de um desassossegado psiquiatra de Coimbra

O Homem pós-moderno e a perda de espiritualidade

O Dalai Lama, o líder espiritual do budismo tibetano, visitou Portugal pela primeira vez em 2001. Durante uma sessão pública, um jovem assombrado pelo fantasma da inquietação interpelou-o sobre qual o caminho a seguir para não se suicidar, tal era o seu sofrimento. A resposta foi de uma surpreendente limpidez: “Comece a dar!”
Tal singelíssima orientação, explícita e sintética, vai ao encontro do cerne da teia em que se debate o homem pós-moderno: o triunfo do egoísmo. As sereias que perversamente nos encantam levam-nos ao endeusamento do prazer imediato, à perpetuação do ideal ilusório do sempre belo e ao espelho que fala tão só aquilo que queremos ouvir: “Be number one”. Aí está, mais do que a crença, o pregão que reiteradamente ecoa por todo o lado: “Dos números 2 e dos outros abaixo na lista ninguém falará; a História é escrita pelos vencedores”.
Esta relação doentia do Eu-Eu interfere seriamente no Eu-Tu e no Eu-Isso. A tempestade afigura-se perfeita porque a sociedade contemporânea alimenta o exacerbar de um perigoso narcisismo, em que o homem não consegue libertar-se da armadilha de um maligno individualismo. Não surpreenderá que, aproveitando esta onda gigante, se imponham as poderosas ditas leis do mercado, do consumo e do espetáculo: “Tens que ter pelo ter; se não apareces, não existes”. E sempre, mesmo sempre, na penumbra ou despudoradamente escancarado lá está o “Deus Dinheiro!”
Então, o que temos hoje? Tudo é efémero, tudo é descartável. Também tudo é dicotómico: ou preto ou branco. Ou 8 ou 80. Deixou de haver equilíbrios ou concórdias. A pressa apressada e o tempo voraz devoram tolerâncias e paciências. O frenesim da competitividade, custe o que custar, projeta-nos o horizonte mais curto, uma cegueira.
Portanto, o culto de um Eu egocêntrico e hedonista, fora da solidariedade colectiva, não permite o “descentrar-se” com vista à partilha e à troca. Poderia ser um slogan de cartaz: “É urgente sair do espelho”; ir para a rua e deixar-se prender pelo gargalhar descomedido de uma criança ou atentar no velho que serena e compassadamente passeia o seu cão. A vida é feita também destas simples interações.
O sábio conselho do “comece a dar”, proferido pelo Dalai Lama, obedece precisamente ao estímulo necessário à mudança interior. Quando a pessoa “dá”, ela apercebe-se que para além de um Eu há também um Outro. Não apenas o budismo nos ensina que a procura da sabedoria e o exercício da compaixão terão que estar forçosamente no caminho da felicidade. Utopia ou não, deveremos porfiar. E isso será muitíssimo reconfortante para todos nós.
Carlos Braz Saraiva

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Uma reflexão inteiramente portuguesa - ou humana - sobre o acreditar

Imagem intercalada 1
Muito foi dito, escrito, vivido, deslumbrado e será relembrado no eterno céu estrelado de ontem. Não é da minha competência escrutinar melhor algo do qual não possuo conhecimentos, além da minha devota nacionalidade, bem querer e pertença a este povo. Que tanto balança poeticamente entre o fado da desventura e a eterna felicidade de julgar meritóriamente ter atingido o que (sempre) mereceu.

Escrevo porque suscitou-me curiosidade esta capa de um jornal francês, quando os outros abundavam em imagens de desilusão. Fundado por Jean Jaurés, um pró democracia que se firmou contra a - ainda não existente - 1ª guerra mundial e por ela foi assassinado, traduziu uma ideia lindíssima do aparente desgosto francês. Aliás, da ideia a reter nos desgostos e derrotas. No final de tudo, o que pesa, importa e deve importar é agradecer pelos momentos bons. Pelos sorrisos. Pela ânsia e força de acreditar.

Quando envolve bons sentimentos e intencionalidade, o acreditar que alguém ou algo nos permite viver, fantasiar e estar energicamente envolvido é poderosamente único. 
É magia, cor, sol, ritmo, energia positiva. Que nos deve fazer sentir gratos. 
Nasce de dentro para fora e revela o quanto da essência do ser humano pertence honestamente à felicidade.
Estamos vivos. Todos vivos, enquanto se sonha.
Só porque se sabe acreditar.

sábado, 9 de julho de 2016

O respeito e compromisso pela palavra proferida

Vivemos numa era descartável e tendencialmente desresponsabilizante para com as palavras. Quantas são as que, além de ouvidas, chovem amplificadas num ecrã de alguém ou são ditas de modo não reflexivo assumindo falsas disponibilidades? Antigamente, os acordos eram firmados com uma palavra de honra. Bastava um sim profuso ou um não assertivo, as horas combinadas sem margem de erro para atrasos ou esquecimentos demasiado convenientes... Não existia a necessidade de repetir, aprovar, comprovar o afirmado porque essa palavra atrás, que foi acesa, decidida, dada, era por si só, segura, irrepetível. Inabalável. Confiava-se através da palavra. E agora?  

quarta-feira, 6 de julho de 2016

A natureza não precisa de esquadro

Biovilla com biovista
António Gaudi foi pioneiro na arquitectura baseada nas formas geométricas que a natureza nos deleita. Ao reconhecer que o mundo natural não é feito de formas rectilíneas, empregou esta aparente perfeição funcional da natureza nas bases estruturais dos edifícios que concebeu.  É que nela nada é tão recto que seja entediante. Nada foi desenhado na medida exacta dos centrimetros delimitarem e confinarem, sem ter em consideração o todo onde está inserido. Muito diferente do quadrado, triângulo ou rectângulo que o Homem criou, se instalou e no qual dificilmente consegue sair. Entorpece a compreensão, releva uma falsa sensação de superioridade e contribui para que seja menos humilde, conhecedor, simbiótico.
Terá sido apenas Gaudi, um homem entre milhares e milhões, a reconhecer uma das mais valiosas lições que a natureza deu ao Homem?

terça-feira, 5 de julho de 2016

Dualidades deste Homo que se diz Sapiens

Encontrava-me a procurar uma sombra numa quente praça central de Lisboa, e eis que a visualizando, me digno a sentar sob o toldo convidativo de uma conhecida e reputada agência de viagens. Abro a minha National Geographic, e julgando não estar com vestuário demasiadamente roto e sujo e com alguma cestinha a pedir dinheiro ao meu lado, aborda-me uma das funcionárias da loja. Oferece-me humildemente as suas desculpas, dizendo que teria de abandonar aquele local, envergando um ar sofrido de "não ficar bem" e "se o meu director vê". Portanto... como reagir a tal? Entre a perplexidade e a comoção de verificar que alguns cérebros se encontram a anos luz da verdade e do que realmente interessa, saí desse malfadado espaço, onde somente se pode permanecer de pé ou a consultar preços, não se permitindo sob qualquer instância esse ultraje que por vezes assola o preguiçoso ser humano que é... sentar-se. 
É tão discrepante orgulharem-se de vender sonhos, luxo, acessibilidade ou comodismo para pessoas... E simultaneamente precisarem de mediar a sua presença em frente à vitrine da loja.

"Não nos importamos de viver no lixo, porque saímos à rua perfumados" (Saramago)

J. Saramago

"Há que ter em conta que a distância entre os que têm e os que não têm só tem paralelismo com a distância que existe entre os que sabem e os que não sabem, e os que não têm são os que não sabem: são condenados desde que nascem."