quinta-feira, 26 de maio de 2016

("Os pontos negros - Salomé")

Tudo tem uma espécie de fim.
Uma libertação plena de opressões e correntes de aço, que nos aprisionavam muito mais do que nos permitiam a ser felizes. 
Embora dentro dessa melancolia, algo conseguisse ser simultaneamente tão confortável quanto temível, solitário ou desesperançoso.
Queremos demasiado acelerar o tempo, fazer a função dele, enganarmo-nos vilipendeando o que somos e sentimos em troco de muito menos.
Tantas expectativas, imaginações. Tantas comparações que só tornam inglórias e desajustadas a nossa essência. Que de tão singular e individual é omitida na certeza maior de que realmente somos o que de mais único nos foi oferecido. Quem somos nós para rejeitar isso ou outros o rejeitarem?
Todos somos alguém. Todos somos pessoas.
Merecemos amar, merecemos confiar no que acontece, nas razões e no decorrer do tempo, na certeza de que as respostas surgem mais tarde do que precisávamos, mas surgirão.
O longo caminho do inverno é árduo. E teremos que nos permitir a ser desde a mais singela folha que cai caduca no chão, ao tronco da árvore que se vai formando, sólido, no diâmetro dos anos e das estações. 
Crescer não é fácil. 
Mas torna-se muito mais dificultado na ausência de nós próprios. 
Que não nos esqueçamos que amarmo-nos e amar o mundo, consegue ser a plena certeza de nunca, mesmo nunca, estaremos sozinhos. E sem isso, por mais rodeada de pessoas e relações estejamos, sem essa poderosa condição, estaremos sempre sós. Amargurados, frustrados, famintos, insatisfeitos.
Amar atraí outros que se amam. Outros que não estão sós porque têm tanto amor por dentro que desejam partilhar desse mundo que lhes é querido. Desse amor que nasce de dentro para fora.
E não existe nada mais genuíno do que esse encontro.
Permitiremo-nos a vivê-lo, ou a fingir que os outros não nos tocam, ensinam e mudam? 

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