domingo, 15 de maio de 2016

O coveiro dos Olivais

Um dia o cemitério da freguesia de Santo António dos Olivais estava fechado e duas pessoas estavam à porta a espreitar, entre a incredulidade e compaixão. Nisto, uma pessoa atenta surge, abrindo os pesados e ferrugentos portões desse local, como quem desejava mostrar a casa de que muito se orgulha, e inicia uma espécie de visita guiada. Em cada palavra, por mais inculta e envolvida em problemas que pudesse ser a pessoa, denotava-se um respeito e sensibilidade enorme para quem, entre ossadas ou pó, lá figurava. Falou de animais que pousavam saudosamente no local, de amores que se separaram quando a idade os devia permitir vivê-los no pleno fulgor da juventude, detalhou pormenores de campas, flores, cerimónias, céus e plantas. Emocionou-se com o que falava, porque se recordava sentindo. Nos seus olhos havia respeito, sinceridade e uma espécie de beleza crua e verdadeira perante a morte. Algo que ainda hoje não sei se evidenciava o sentir-se mais confortável com os mortos do que entre os vivos. Nunca mais vi tal pessoa. Hoje não me encontro sequer no local onde o conheci. E este homem nunca irá saber o quanto me tocou naquele dia pela simplicidade com que abordava um tema tão doloroso e pela forma como nos conduziu por algo que o sentia, serenava ou inquietava. Gostava de vê-lo novamente. Gostava de ouvi-lo. Quem no mais triste consegue ver beleza e sentimentos que não são os próprios, encontra maneira de conseguir ficar sempre vivo na memória de alguém.

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