sexta-feira, 22 de abril de 2016

Vossas Excelências, deixo-vos com Bernardo Soares

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentirmos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos, vis porque são nossos e vis porque são vis.
O amor, o sono e as drogas intoxicantes, são formas elementares de arte, ou antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína daquele mesmo físico que serviram para estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado nela.
O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo o que nos delicia sem que seja nosso - o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.
Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência. 
Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque sou artista; entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha ideia de os achar belos.
Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos...
O Livro do Desassossego

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