sábado, 9 de abril de 2016

No final do dia

Levanto-me no calendário dos dias e vou lavar a loiça que se acumulou.
São tantos os resquícios de gordura e flavonóides, impregnados na realeza do serviço de loiça.
Sacudo a toalha na tentativa de esta balançear sem rumo na brisa que não vejo mas sinto.
A mesa agora impera e simboliza um tempo de mudança.
A cor em volta explode em envolvência sempre que ouso esqueçer-me que na minha palete de cores nunca quis abusar do cinzento por muito tempo.
Convivo com fotos de memórias instaladas há tanto tempo que sinto as suas raízes tornearem-me os pés.
E observo a minha porta.
Abriu-se e fechou-se tantas vezes para poucos que amo.
Como se ela fosse um paralelo entre as passagens estreitas, espontâneas mas sentidas a que me dou.
Como se ela fosse uma analogia de um pequeno refúgio, que já foi de cristal, esfumado em ar de sonhos, leveza e ingenuidade. E agora experimenta a sólida sensação de uma pedra, que em nada representa o rígido ou a imutabilidade, mas sim o pódio que a vida nos entrega quando nos permitimos a alcançar as suas mais profundas, simples e propositadas sabedorias.
Tudo isto só porque me permiti a reconhecer e a sentir, com simplicidade, gratidão, humildade, perdão e amor. Os outros. Principalmente eu. E consequentemente a vida.

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