quarta-feira, 20 de abril de 2016

José Guerra

Há muitos anos, quando respirava frescura e ingenuidade, candidatei-me a um voluntariado na Casa da Cultura em Coimbra. Consistia em gravar audio-livros, para dotar um acervo que devolvia a palete de cores a quem não a conseguia contemplar num olhar. Lembro-me de me ter embelezado, na certeza de que além de uma boa oratória, seria igualmente simpático uma boa apresentação. Fresca e jovem, tal como me sentia. Esforços estéticos colocados em vão. Quando chego, sou surpreendida com o calor e a cordialidade de uma pessoa que nem sequer me estava a ver. Observo uns óculos escuros, a bengala, uma cadela amorosamente companheira e um sem fim de Braille no escritório. Fiquei-me a sentir inevitavelmente e refletidamente ridícula. Para que queria eu pôr-me bonita? O que interessava isso no mundo de quem não vê? O tempo foi passando e fui desenvolvendo uma amizade e um carinho enorme por este senhor que era o director e me acolheu, chamado José Guerra. Também ele foi fresco e jovem em tempos e terá sido nessa certeza observável, numa cama de um hospital na guerra colonial, que recebeu a noticia por duas empregadas que limpavam o seu quarto, enquanto fingia estar a dormir: "Ai que pena, um rapazinho tão bonito e já cego!".
Foi das pessoas mais inspiradoras a me provarem que somos nós que fazemos o que queremos com a vida. Com as limitações. Com os desgostos. Debateu-se pela defesa dos direitos dos cegos e acima de tudo, com o mesmo amor, carinho, devoção e conhecimento defendeu e privilegiou oportunidades para dar cultura a todos. Tinha sempre um sorriso porque não tendo visão para apreciar, desenvolveu a sensibilidade, o toque, o calor para acolher e um sorriso para nunca deixar ninguém sozinho. E a quantas pessoas com visão falta isto. Povoadas de indiferença para com o outro. 
Este senhor morreu há alguns anos, caído de um muro ao qual a Câmara de Coimbra negligenciou o risco de altura. Morreu sem a cadelinha que esteve lá, sempre aconchegada perto de si, no manto da companhia e lealdade, enquanto ele estava sentado a redigir histórias, deliciar-se com projectos e a orquestrar sonhos.
E eu? Eu fui uma abençoada por o pedido de voluntários para um dos seus projetos se ter cruzado comigo.
Porque nunca irei esquecer que não ter e transmitir amor é que é uma incapacidade. Não o não possuir o sentido da visão.

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