sexta-feira, 29 de abril de 2016

Manifesto de amor

Abraça-me em todo o meu esplendor e na pequenez que me corrói e limita e simplesmente diz-me que me aceitas como sou. E assim, na humildade da entrega que tudo isso encerra, no mar, nas galáxias, nos dias mais nebulosos, eu poderei chorar ao pé de ti, ser ínfima como um barco no mar visto da lua ou uma pequena peça na engrenagem que é a vida e o universo. E habitármos esse tempo, sólido e simultaneamente frágil que é o agora, sendo verdadeiramente um para o outro porque não nos concentramos em querer sempre o melhor, sem de antemão nos termos disponibilizado a escutar, entender e a assumir o nosso pior.

domingo, 24 de abril de 2016

Obrigado ao Comuna Teatro de pesquisa e a todos os que nele conheci!


Porque enfrentar os medos tem disto.
Não se trata apenas de esventrar o Adamastor.
De velejar com audácia por mares turbulentos.
De impor a voz em tom excessivamente austero perante outros para os dominar.
E não me remeto a viver situações de doença, morte e luto que pela dignidade e dor se remetem a outro campo incomparável.
Falo em vencer medos procurando tudo o que abrace a novidade e altere a nossa zona de conforto.
Porque essa mesma zona só reside na cabeça, aprisiona-nos e começa a esbater-se quando o corpo é observado de alto a baixo sem receios, em diferentes ângulos e perspectivas, numa espécie de libertação de juízos, rotinas e opressões. Quando a voz é ouvida e percebida por nós, com tempo, muito tempo. Em que todo o corpo responde naturalmente aos estímulos porque é espontâneo e autêntico em quem é. E torna-se muito delicado e especial tudo isso ser iluminado em holofotes de oportunidades, que apenas acentuam o que está verdadeiro em nós. De preferência com pessoas importantes presentes, que fazem nos relembrar em como acreditam em nós. E uma data de desconhecidos que pretendes cativar por simplesmente possuíres confiança no que estás a fazer. E como tal, vencer o medo é mesmo assim. A coragem para deixar o melhor de nós vir à frente, mesmo que as pernas tremam e tudo possa parecer incerto. Porque fazê-mo-lo a saber que temos valor. Inteiro valor. A luz só emergiu para que pudesses não duvidar dessa certeza.
No escuro as oportunidades não se criam. Fogem, distanciam-se, parecem demasiado audazes. Quando ousares sair do escuro que apenas te faz sentir mais do mesmo... Procura confirmar ou experimentar o calor desse holofote interno, que por ser só teu tem tanto, mas tanto para te dizer e dar. 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Vossas Excelências, deixo-vos com Bernardo Soares

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentirmos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos, vis porque são nossos e vis porque são vis.
O amor, o sono e as drogas intoxicantes, são formas elementares de arte, ou antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína daquele mesmo físico que serviram para estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado nela.
O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo o que nos delicia sem que seja nosso - o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.
Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência. 
Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque sou artista; entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha ideia de os achar belos.
Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos...
O Livro do Desassossego

quarta-feira, 20 de abril de 2016

José Guerra

Há muitos anos, quando respirava frescura e ingenuidade, candidatei-me a um voluntariado na Casa da Cultura em Coimbra. Consistia em gravar audio-livros, para dotar um acervo que devolvia a palete de cores a quem não a conseguia contemplar num olhar. Lembro-me de me ter embelezado, na certeza de que além de uma boa oratória, seria igualmente simpático uma boa apresentação. Fresca e jovem, tal como me sentia. Esforços estéticos colocados em vão. Quando chego, sou surpreendida com o calor e a cordialidade de uma pessoa que nem sequer me estava a ver. Observo uns óculos escuros, a bengala, uma cadela amorosamente companheira e um sem fim de Braille no escritório. Fiquei-me a sentir inevitavelmente e refletidamente ridícula. Para que queria eu pôr-me bonita? O que interessava isso no mundo de quem não vê? O tempo foi passando e fui desenvolvendo uma amizade e um carinho enorme por este senhor que era o director e me acolheu, chamado José Guerra. Também ele foi fresco e jovem em tempos e terá sido nessa certeza observável, numa cama de um hospital na guerra colonial, que recebeu a noticia por duas empregadas que limpavam o seu quarto, enquanto fingia estar a dormir: "Ai que pena, um rapazinho tão bonito e já cego!".
Foi das pessoas mais inspiradoras a me provarem que somos nós que fazemos o que queremos com a vida. Com as limitações. Com os desgostos. Debateu-se pela defesa dos direitos dos cegos e acima de tudo, com o mesmo amor, carinho, devoção e conhecimento defendeu e privilegiou oportunidades para dar cultura a todos. Tinha sempre um sorriso porque não tendo visão para apreciar, desenvolveu a sensibilidade, o toque, o calor para acolher e um sorriso para nunca deixar ninguém sozinho. E a quantas pessoas com visão falta isto. Povoadas de indiferença para com o outro. 
Este senhor morreu há alguns anos, caído de um muro ao qual a Câmara de Coimbra negligenciou o risco de altura. Morreu sem a cadelinha que esteve lá, sempre aconchegada perto de si, no manto da companhia e lealdade, enquanto ele estava sentado a redigir histórias, deliciar-se com projectos e a orquestrar sonhos.
E eu? Eu fui uma abençoada por o pedido de voluntários para um dos seus projetos se ter cruzado comigo.
Porque nunca irei esquecer que não ter e transmitir amor é que é uma incapacidade. Não o não possuir o sentido da visão.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Deleitémo-nos

Uma comoção passou-lhe na alma, murmurou, travando o braço do Ega:
É curioso! Só vivi dois anos nesta casa, e é dela que me parece estar metida a minha vida inteira!

Ega não se admirava. Só ali no Ramalhete ele vivera realmente daquilo que dá sabor e relevo à vida – a paixão.

- Muitas outras coisas dão valor à vida… Isso é uma velha idéia de um romântico, meu Ega!

- E que somos nós? exclamou Ega. Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento e não pela razão…

Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até o fim…
- Creio que não, disse o Ega. Por fora, à vista, são os desconsoladores. E por dentro, para eles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que neste lindo mundo ou tem de ser insensato ou sensabor…
- Resumo: não vale a pena viver…
- Dependente inteiramente do estômago! atalhou Ega.
Riram ambos. Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua teoria da vida, a teoria definitiva que ele deduzira da experiência e que agora o governava.

Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear… Não se abandonar a uma esperança – nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com tranqüilidade com que se escondem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada, que se chama o Eu, ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo… Sobretudo não ter apetites, não ter contrariedades.

Eça de Queirós, Os Maias.
Carpe diem - arte e pesquisa

Quando espreitamos pela fechadura do "vizinho" o que realmente vemos?
Serão tão felizes quanto julgamos?
Os sonhos etéreos quanto aparentam?
O sentimento tão reconfortante e vívido?
A segurança inabalável?
Comparamos porque não estamos felizes?
Ou estamos felizes porque conseguimos reconhecê-lo ao compará-lo?

Não conseguimos viver sem o outro e para o outro a menos que cada um cultive o que tem. Porque quem se perde em comparações do que o outro é ou possui, esquece que por dentro tem a sua própria arte para trabalhar. E como arte que é, só consegue ser reconhecida e apreciada quando não existe plágio, submissão e carência de ideias próprias. Aceitando e abraçando todo o contributo e individualidade que a permitam ser autêntica. Distinta. Subjectiva. Única. Tal como a vida de cada um! 

domingo, 17 de abril de 2016

Da minha cidade eu consigo ver
as pessoas apressadas sem se cumprimentarem
o betão erguido em edificios megalómanos
os prédios até perder de vista
as estradas dominantes a impôr a superioridade
as árvores propositadamente inventadas
o cheiro a fumo que inunda os dias
...
Como é que nos habituámos a conviver com isto?
(progresso-dinheiro-civilização-bens-emprego-metrópole-evolução-...)

sábado, 16 de abril de 2016

Sentei-me à mesa com o tempo
falei-lhe sobre os meus temores
sorri-lhe face à dúvida
da incerteza dos amores

Ele contou-me entre um copo de vinho
a importância de nos descobrirmos
e que pode acontecer todos os dias
por vezes entre simples suspiros

Falou-me da luta interior, das perdas
das certezas que se consolidam em nós
Da rapidez com que o que julgamos certo
um dia nos deixar numa rua sós

Cantou-me caminhos e guitarras
que tenho de trilhar com o meu próprio esforço
ouvir a chuva na janela de um domingo
e ver as estrelas num sol posto

Desarrumou fantasmas debaixo da cama
ouviu-os esvoaçar nos meus pensamentos
mas provou-me que com a força de duas mãos
somos nós que conseguimos ultrapassar os momentos

Disse-me para transformar o meu sorriso
em pó de estrelas eternas
e colocá-lo no céu todas as noites
no coração das pessoas mais belas

Sorriu entre passos
e disse que não nos voltaríamos a ver
para encarar esta despedida
como o destino que a vida tem a ser

Despediu-se e disse-me
que o calendário se desfolhou
e que agora é comigo fazer do tempo
o tempo que me restou.

Cândido de Voltaire

"Encontrava-se à mesa um homem sabedor e de bom gosto que apoiou o que a marquesa dissera. Falou-se em seguida de teatro. A dama perguntou porque é que havia peças que se podiam suportar em cena, mas que não se conseguia ler. O homem de gosto explicou muito bem como uma peça poderia ter interesse e não possuir mérito algum. Provou em poucas palavras que não era bastante apresentar duas ou três situações extraídas dos romances e que seduzem sempre os espectadores, mas que era preciso ser-se novo sem se ser bizarro, muitas vezes sublime e sempre natural, conhecer o coração humano e fazê-lo falar, ser um grande poeta sem que, contudo, nenhuma das personagens da peça seja poeta, e sobretudo conhecer perfeitamente a sua língua, falá-la com pureza e com uma harmonia contínua, sem que, porém, a rima prejudique o sentido."

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Coragem

Como preciso tanto de ti
De braço dado, queixo levantado e peito erguido!
Ajuda-me a revelar e a consolidar
todo o potencial que trago comigo.

Com bravura, valentia, firmeza e tenacidade
sem sentir âncoras de mágoa, medo e dor
Por favor, entrega-me a esse profundo e completo
sentimento restruturador!

Deita-te a meu lado na cama
e acorda em mim diariamente!
Sobretudo naqueles dias mais trémulos e cinzentos
onde desejava que tudo tivesse sido diferente.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Elogio ao AMOR

Venho por este meio escrever-te meu querido amor.
Tu és muito mais do que só o amor entre Homem e Mulher. Entre Homem e Homem. Entre Mulher e Mulher. Não deveria esse ser apenas o mais relevado, o atentamente aguardado, o desesperadamente procurado.
E percebi que te reconheço desde bem pequenina, quando alguém da minha família me falava de um lenço preferido, um tal de lenço que comprou quando passeava uma bebé num carrinho e lhe quis proteger a cabeça do sol.
Sei o teu valor porque fui a valentíssima de uma afortunada, em ter tudo, mas tudo quando poderia viver a infelicidade de não ter nada. Porque quando não o poderia escolher, tive-o.
Como te amo porque consigo maravilhar-me com a beleza de um tronco de árvore ou apreciar uma pequena flor que graçeja ao sol, aqui ao meu lado.
O amor que existe em cada sorriso e reencontro de um verdadeiro amigo.
Na alma das pessoas boas e generosas com que me cruzo.
Ou em exercer o que acreditamos com uma dedicação inabalável. Compartilhando-nos. E crescer nessa partilha que nos revela tão frágeis, humanos, emotivos. E poderosos!
Amar a nossa individualidade, como um presente único que nos foi dado.
Amar a vida, simplesmente porque ela nos ofereçe aquilo que temos de esperança, gratidão e positividade em acreditar. 
Por tudo isto eu amo o amor e elogio-o assim, fortemente.
Porque é um conceito tão amplo que mergulha além do relevo que é atribuido somente nas relações a dois, que inundam a poesia, os dias e a melancolia de quem não o tem.
Quem sente e reconhece todo o amor que existe, consegue amar e ser amado. Compreende que é muito maior do que os compartimentos onde nos querem encaixar e limitar. Porque a vida não se permite a ser imposta, compartimentada ou sequer uniformizada. Tal como o amor.

sábado, 9 de abril de 2016

No final do dia

Levanto-me no calendário dos dias e vou lavar a loiça que se acumulou.
São tantos os resquícios de gordura e flavonóides, impregnados na realeza do serviço de loiça.
Sacudo a toalha na tentativa de esta balançear sem rumo na brisa que não vejo mas sinto.
A mesa agora impera e simboliza um tempo de mudança.
A cor em volta explode em envolvência sempre que ouso esqueçer-me que na minha palete de cores nunca quis abusar do cinzento por muito tempo.
Convivo com fotos de memórias instaladas há tanto tempo que sinto as suas raízes tornearem-me os pés.
E observo a minha porta.
Abriu-se e fechou-se tantas vezes para poucos que amo.
Como se ela fosse um paralelo entre as passagens estreitas, espontâneas mas sentidas a que me dou.
Como se ela fosse uma analogia de um pequeno refúgio, que já foi de cristal, esfumado em ar de sonhos, leveza e ingenuidade. E agora experimenta a sólida sensação de uma pedra, que em nada representa o rígido ou a imutabilidade, mas sim o pódio que a vida nos entrega quando nos permitimos a alcançar as suas mais profundas, simples e propositadas sabedorias.
Tudo isto só porque me permiti a reconhecer e a sentir, com simplicidade, gratidão, humildade, perdão e amor. Os outros. Principalmente eu. E consequentemente a vida.

terça-feira, 5 de abril de 2016

(Suspiros de Saramago)

"A memória é o dramaturgo que todos os homens têm dentro de si. Põe em cena e inventa um disfarce para cada ser vinculado connosco. A distância entre o que foi uma pessoa e o que se recorda dela é a literatura."

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Culpa

Ninguém tem culpa das adversidades que a vida coloca que não são jogadas na decorrência da sua própria acção! De algo desajustado, ingratidão, do amor e dedicação que não vemos partilhado... Porque se procura a culpa? Ou a justiça? Não há! Desculpem-me! E mais grave para quem ronda insistentemente este círculo é que não existe qualquer prova LÓGICA que demonstre que existe justiça no mundo, não existe! Quem se ressente que procure as forças, maturidade e resiliência que só quem vive essas dificuldades sabe que adquiriu. Quem nunca as teve, que valorize a sorte e o maravilhoso mundo que lhe deram e seja melhor com isso para os outros. Inspire com bondade quando os outros estão de pé atrás com ela. Mas que estes dois mundos nunca se julguem e nunca pensem que um tem mais ou menos que o outro. Todos somos humanos. E todos estamos cá para aprender o mesmo, tarde ou cedo, agora ou depois. E quando decidirmos o destino a dar aos infortúnios - perdão ou raiva - um dos caminhos trará a justiça que tanto almejamos. Resta saber escolhê-lo.