segunda-feira, 7 de março de 2016

Para a minha avó

Era uma vez uma velhinha
que morava numa aldeia perdida no mapa
um dia terá sido uma ingénua menina
nos tempos em que raro era viver essa etapa.

O seu pai era o regedor
homem de conhecimentos completos
e para servir os seus interesses, aos filhos presenteou
com a inutilidade de serem analfabetos.

E então a velhinha que foi menina
trabalhava em fornos de cal
carregando em peso no corpo
o que lhe faltava em vocabulário gramatical.

Foi contando as luas e as estações
retinha de quem amou os aniversários de morte
sempre foi mais difícil viver nas más línguas da vizinhança
do que correr atrás da própria sorte.

E por entre paredes seculares
e soalhos envelhecidos de ranger
vai-se escondendo na solidão dos lençóis do inverno
sem a morte parecer temer.

Na sala figuram amontados
calendários de tantos anos que já foram
para ela são sentidos como a arte
de pedaços de vidas e recordações que ainda lá moram.

No quintal estão árvores e raízes
e um poço com água do que choveu
para que quando esta velhinha daqui partir
dar à natureza tudo o que recebeu!

1 comentário:

  1. Eu não sei se ela leu isto... Mas se não o leu, devia!
    Orgulho com certeza era o mínimo que lhe poderia atravessar a mente!

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