quinta-feira, 31 de março de 2016



Há sombra dos dias que passam
movimento-me pela brisa que sopra fria,
nesse caminho em que os valores permaneceram incólumes
e onde a mágoa e desânimo se transformaram em sabedoria.

Solto um suspiro profundo,
ao pensar nos planos imaginados.
Não deveríamos relembrar constantemente
que tudo em vida são dias contados?

Sinto as mãos secas.
O vento frio fustigou-me a pele.
Só quero que também saiba transmitir ao meu coração
para ter confiança naquilo que se segue.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Disponibilidade

que estás por aí vagueando
bem vinda sejas, em tua abertura e presença!
Venha a mim essa libertação
seja feita a tua vontade
assim no corpo como no pensamento.
A autonomia de cada dia nos dai hoje,
Perdoai-me os limites e barreiras impostos
assim como eu perdoo
o meu reflexo no espelho ofendido.
E não me deixes cair na rigidez
mas livrai-me de uma vida sem felicidade
conduzida pela minha própria acção.
Ámen.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Mais do que um Deus, oráculos, astrologias, psicologias, fé, eu acredito na VIDA.
A vida tem a força dos acasos, dos caminhos escolhidos e dos que não se escolheu. Das esquinas que se viveram e das que ficaram escondidas.
Eu acredito que a vida me dará aquilo que EU lhe der.
Responder-me-á com a mesma força com que dou.
Poderá não ser da forma como queria.
Na ideia do que esperava.
No ideal que pretendia.
Não dar sequer na mesma categoria.
E não vou ficar triste.
Aquilo que tiver será merecido, será resultado do que dei, do quanto fui sincera e do quis bem aos outros e a mim própria.
E sempre que a vida se pautar por isto, vou-me deitar de consciência tranquila todas as noites.
Porque espero, espero fazendo e vivendo.
Sem esperar muito mais.

quarta-feira, 23 de março de 2016

O antes e o durante

Pragmatismo, habilidade, destreza e superação emocional de uns, distanciamento e relativização de outros quantos, o caminho que se percorre do antes ao durante tem a verdade e entrega que lhe quisermos colocar.
De nada adianta fazer a função do tempo.
Tudo chega, tudo se dá. Com calma. Essa palavra tão irritante quando o que mais queremos é antecipar o progresso.
E nisto, sem nos apercebermos bem, surge a primeira folha verde que desponta nos ramos nus e frágeis que estiveram expostos ao Inverno duro e rigoroso. Porém, paciente e resignadamente o suportaram, esperando e na esperança do que estava para vir, mesmo que o que sentissem no imediato fossem só ramos nus (Há sempre algum ramo nu ao nosso lado mesmo que disfarçado).
As transformações são lentas. E o que realmente se compreende é doloroso. Doloroso porque poderíamos ter sido melhores. Quiçá mais felizes. Talvez mais conscientes. Não nos levasse pessoas que nos foram especiais. Mas o que podemos fazer nós perante quem e o que não fomos? Lutar, chorar, praguejar, esmorecer? Não, não pode ser para isso que serve a vida, as relações e principalmente a nossa própria companhia. As transformações exigem submeter-mo-nos ao nosso próprio resgate. A lidar com tanta coisa suja e indefinível que determinou este durante tão sofrido. A dar-lhe forma para que a sua compreensão consiga fazer-nos mais verdadeiros connosco e com os outros. E nessa verdade, só pode existir espaço para perdoar, integrar, agradecer. E libertar. Porque aconteceu antes, não aconteceu agora que o compreendeste. Nesse agora, o tempo é outro porque o que acrescentaste em ti foi maior que a dor. E libertou-te.
Fidelidade? Fidelidade a nós, sempre e que isso não se torne ou confunda com um acto egoísta. 
Sob pena de nos tornarmos um ramo que ficou sempre à espera que o Inverno passasse. 
Para que serve uma vida assim?
Os dias, anos, séculos, milénios passam e os Homens mantêm as mesmas características sujas e podres que os acompanharam desde sempre! Vingança, inveja, ódio, morte ou abuso em nome de qualquer coisa que o valha, mentira, ambição pelo poder pessoal, público, relacional... Viaja-se até à Lua, dispomos da cartografia do visível e até do infinito, mas os nossos corações e mentes inquietam-se e vivem com o que de mais básico, mesquinho e degradante povoa a realidade. Quando vivermos através da bondade, sem marketing, etiquetas, compras em prestações, mestrado ou pós graduação, currículo para voluntariado, sem intenções secundárias, numa bondade pura que nos inspire de serenidade através da integridade e honestidade connosco e com os outros, viveremos então a supremacia que conspiraram para nós. Até lá seremos inferiores e perdidos, como todos os que povoaram a Terra desde que a sentiram nos pés.

domingo, 20 de março de 2016

Cunegundes

Imagem intercalada 1

Já percebi o que nos une
Juventude, furor, ingenuidade
misturada com a excitante empatia.
Vem! Rouba-me sem resistir ao desejo
e com as mãos firmes pelas ancas
Faz-me sentir toda tua nesse dia!

Foge comigo para um qualquer sítio
onde o que é proibido se torna ainda mais forte
Entre os risos, silêncios preenchidos e contemplação
nesse beijo que acontecendo, será a minha morte!

Só quero permissão para me fundir
com os teus lábios macios e suaves
e no corpo a pulsar eletricidade, ouvir o coração exclamar
"Como ousaste entregar-lhe as chaves?"

Porém é tão inesperado e aprazível
beijar esses lábios de manteiga e fantasia
que poderia jurar que entregar-me a eles
nunca era em demasia...

sexta-feira, 18 de março de 2016

O sumo e a textura de uma fruta fresca a provar

Percorrer o corpo lascivo
ruborizando todos os orgãos e tecidos
polvilhado em dualidade de ter e dar
ou chamemos-lhe apenas a festa do prazer e dos sentidos.

De forma provocante despertar
num lábio mordido, o desejo
incendiando nesse rastilho, o impulso
de querer ser fogo dentro daquele beijo.

Sensualmente percorrer as curvas
numa devastação quase animal
essa viagem, em respiração suspensa
que é o fôlego da entrega ao carnal.

Com a volúpia instalada
as línguas provam-se e exploram em constante procura
emergindo no silêncio de um beijo quente e demorado
as mais belas notas de uma partitura.

A voracidade com que as pernas se encaixam
no interior lânguido e extasiado
bebendo desse apetite ávido e sôfrego
que nunca parece estar satisfeito e saciado.

Buscam-se formas em esplendor
rosadas, redondas, sedentas e curvadas
perfilando-se em resposta pronta
para se render ao prazer submisso da chamada.

Tudo é sexual, poesia, naturalidade
são relâmpagos, sol e faíscas de cor
para uns basta uma observação física atenta
para outros uns pingos mágicos de amor.

quarta-feira, 16 de março de 2016

À tua Saramago!

" A vida, que parece uma linha recta não o é. Construímos a nossa vida só nuns cinco por cento, o resto é feito pelos outros, porque vivemos com os outros e às vezes contra os outros. Mas essa pequena percentagem, esses cinco por cento, é o resultado da sinceridade consigo mesmo."

terça-feira, 15 de março de 2016

As pessoas são um ser misteriosamente complexo! Fogem quando querem ficar, calam-se quando querem gritar, esperneiam quando desejam correr, acariciam quando amanhã magoam, dizem que não quando mais o querem, confundem sensações com sentimentos, desdenham quando querem comprar, sonham quando o que as afasta é a realidade, são crueís mesmo não querendo, são terríveis não sabendo, aparentam quando gostavam de não (o) ser, retiram prazer do politicamente incorreto, riem-se quando mais querem é chorar e choram a rir, ironizam e desvalorizam quando as afecta, inventam palavras quando as querem calar com um beijo, fogem dos desejos quando mais os querem abraçar, ambicionam o dia quando estão na noite e a noite quando estão no dia, estão bem onde não estão bem e onde não vão, eternos insatisfeitos com a vida, sentimentos, pessoas e situações. Falam de equilibrio e paz e no minuto a seguir a sua vida se destabiliza. Irónico? Fraco? Não sei... Mas rio-me de todas estas fraquezas que nos compõem.

Escrevi este texto em 2007 e ao lê-lo ainda me parece bem actual...
Porque hoje o dia presenteou-me inesperadamente com um circo de afectos externos! 
Circo o qual somos nós, andando nestas voltas esféricas onde gabosamente entendemos que somos nós a domar os animais... Quando somos imensamente domados e dominados não por animais mas por sentimentos/emoções! Que são reflexo do lixo que acumulámos anos e anos dentro de nós, da construção do nosso carácter e dos medos reais e imaginários. 
Confunde-se tanto a rigidez e firmeza com a integridade e honestidade, a busca no outro quando o que se tem de resgatar somos nós, que tão crentes e fieís a uma imagem ou vida, será que realmente correspondemos a quem somos e ao que precisamos? Quem nos pára, quem nos demove, quem nos atenta nisto?
Assumir a fragilidade interior potencia de uma forma esplendorosa a sensibilidade que é estar vivo e sentir os outros. Vamos ter coragem para permitirmo-nos a ser humildes e pequenos, muitas vezes e de muitas formas. 

domingo, 13 de março de 2016

quarta-feira, 9 de março de 2016

- HEY! Hey! Olha lá pá! Que é que andas a fazer?
- Hmmm... quem é que está a falar para mim?!
- Estou aqui em cima estou, embora não repares...estou a falar contigo cachopa, sou o tempo!! Farto-me de andar aqui para a frente com a máquina de costura e esta é das antigas que não permitiram muita evolução técnica, estou todo cansado!
- Que engraçado, pensei que como tempo pudesses recorrer a magia e nem tivesses esse trabalho todo!
 - Ahh minha querida! Porque isto do tempo só trás evolução quando há esforço... daí não poder trabalhar com nada que me facilite a vida. 
- Então, quer dizer que se eu não colocar esforço e dedicação essa máquina enferruja e fica estagnada?
- Certíssimo! E eu estou aqui a puxar e a puxar por ti, mas se não vir retorno isto emperra à grande e corremos o risco de a máquina ficar bloqueada e não haver progressão!
- Ui! E em que é que isso depois me pode influenciar?
- Em tudo! As outras máquinas trabalharam todas à tua volta, menos a tua!! Queres algo mais perigoso do que ficar parado quando tudo à tua volta teve movimento?
- Txi.... nem sei que te diga, nunca tinha pensado que estavas aí em cima nessa labuta diária por mim! E o que fazes na máquina de costura?
- Uno as tuas aprendizagens, os teus risos, choros, dores, conquistas... Como tal, se a máquina bloquear e ficar emperrada não acrescentas mais nada de novo à tua vida além do que já foi!
- E parece-me que isso é bastante penoso...
- Então não é?! Para já eu sou despedido da tua vida porque só sei trabalhar na máquina em modo avançar e não no recuar ou parar... E depois porque, quando vires no final o teu tecido, vai-te parecer pouco preenchido e incompleto!
- Incompleto? E o que é a vida se não uma data de coisas incompletas?
- Ai minha querida, tu e as melancolias e filosofias... Incompleto NÃO É BOM! Significa que tinhas momentos, pessoas e descobertas para ires mais além de ti e não foste porque ficaste bloqueada! ACORDA! Esta máquina é só o resultado do que TU queres fazer com as tuas vivências....
- Do que quero fazer com as vivências... ou do que quero fazer com a vida?
- (sorrindo) E qual influencia qual? 

[Nisto acordou, viu as horas no telemóvel e revirou-se nos lençóis quentes dos sonhos]

segunda-feira, 7 de março de 2016

Para a minha avó

Era uma vez uma velhinha
que morava numa aldeia perdida no mapa
um dia terá sido uma ingénua menina
nos tempos em que raro era viver essa etapa.

O seu pai era o regedor
homem de conhecimentos completos
e para servir os seus interesses, aos filhos presenteou
com a inutilidade de serem analfabetos.

E então a velhinha que foi menina
trabalhava em fornos de cal
carregando em peso no corpo
o que lhe faltava em vocabulário gramatical.

Foi contando as luas e as estações
retinha de quem amou os aniversários de morte
sempre foi mais difícil viver nas más línguas da vizinhança
do que correr atrás da própria sorte.

E por entre paredes seculares
e soalhos envelhecidos de ranger
vai-se escondendo na solidão dos lençóis do inverno
sem a morte parecer temer.

Na sala figuram amontados
calendários de tantos anos que já foram
para ela são sentidos como a arte
de pedaços de vidas e recordações que ainda lá moram.

No quintal estão árvores e raízes
e um poço com água do que choveu
para que quando esta velhinha daqui partir
dar à natureza tudo o que recebeu!

quinta-feira, 3 de março de 2016

Estás tão pequeno e aflito
não sabes em que direcção virar
perdido na espera dum semáforo trémulo
ou procurando pelo escuro da rua, os candeeiros a iluminar.

Aguenta a corda!
Não te lançes vilmente numa rua sem sentido.
De que te serve um caminho pensado
se por dentro o que tens ainda está vazio?

A janela abre-se ao quotidiano
no corredor passeiam-se as fotos em familia.
E vais pensando, enquanto contemplas a incerteza
quando será que mudas de vez a mobília.

O tempo passa, ai como o tempo passa!
Queres promessa mais verdadeira de se cumprir?
seria mais fácil se não desses luta e não acreditasses
nas descobertas do que ainda está para vir!

Vai lavar a roupa! Penteia-te!
Estica as pernas e as mãos!
Encolhe a barriga e lava os dentes!
Mete-me juízo onde não tens razão!

Abre a porta e atira-te para a rua!
sim de tal forma que partas os dentes ou a cabeça!
se não sabes o que andas fazer..
que a dor te faça encaixar a peça!

E quando ao sair caíres no chão
faz-me só o favor de olhar para cima.
E atenta nesta analogia irónica
de vivermos no eco do nosso clima!

terça-feira, 1 de março de 2016

Os dias embalam-se em cor de paciência
e joga-se à mímica com a esperança
para valorizar quando o que não surge
anoitecer num luar da lembrança

Com as escondidas e a cabra cega
ajuda-se o coração a ficar escuro
para discernir no que se procura
a voz do que ficou mudo

O lençinho e o jogo das cadeiras
enobrecem ao aconselhar
que em tudo aquilo que ficou vago
outro alguém virá saborear

Macaquinhos do chinês
é para os que precisam de reter
que só o tempo trás as respostas
as mudanças que precisas entender

E vai-se saltando ao pé coxinho
delimitado dentro desse marco de giz que é a vida
desejando ao alcançar a última casa
nunca esqueçer o percurso que fez o pé desde a partida!

“Manusear materiais do mundo: uma das formas possíveis de descrever aquilo que fazemos na arte. Manusear objetos, imagens, palavras, movimentos, intensidades. Manusear espaços, tempos, afetos, desejos, vibrações. Manusear fantasmas. Sujarmo-nos nesse manuseio. Limparmo-nos nesse manuseio. Um manuseio que, à medida que é percorrido, se torna ferramenta de equilíbrios vários, de ecologias várias, pessoais e sociais. Uma ferramenta específica para reinventar maneiras de ser! É onde reside a riqueza, a densidade, o sentido.” 
Vera Mantero