quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Todos os dias caminhava com os horários definidos e os passos automáticos.
Sabia institivamente onde cada árvore se colocava, o local em que as paragens de autocarro se desenhavam, as pedras geometricamente iguais da calçada. Era raro o cumprimentar alguém, fruto da boa educação que se propagou como um virus indiferente nas grandes cidades. Seria estranho poder contemplar uma mudança no seu trajecto habitual, tão raras as vezes que erguia a cabeça do seu vai-vem sem surpresa. Mas nesse dia não. Nesse dia, algo afixado num poste de eletricidade lhe chamou a atenção. Pensou consigo próprio: "Que cão se terá perdido? Hmmm cão... Pode até ter sido um objecto mais valioso!". Nisto, reparou que o número de telefone para devolver informações era o seu. Petrificou, não sabendo se vivia realmente a incredulidade de ser alvo de alguma brincadeira de mau gosto.
Começou então a ler os detalhes desse anúncio:
Procura-se com as seguintes caracteristicas:
- não ter medo
- não ter vergonha de falar com outras pessoas
- não ter receio de fazer perguntas
- questionar tudo até o óbvio
- brincar sempre, todos os dias, mesmo depois de horas fechado num lugar
- naturalidade para estar com qualquer pessoa
- espontaneidade para ser o que quiser
- simplicidade para se encantar com pormenores sem intenções secundárias
- rir alto e chorar sem inibição
- manter e falar de sonhos, por mais irreais que possam parecer
- dizer aos pais o quanto gosta deles num beijo

Nisto observa a foto que acompanhava o anúncio.
Era ele com 6 anos.
Afinal procurava-se a criança que outrora fora.
Que recompensa se ganha quando a procura é esta?


Convido a com a imaginação pensar-se num anúncio com a nossa foto em crianças, seja a saltar, sorrir desarmadamente,ou num olhar ingenuo e feliz. E olhando para aí perguntarmo-nos sobre o que lhe teríamos para dizer, onde a desiludimos e surpreendemos nos nossos caminhos, e principalmente o que diria ela de nós como somos hoje.

Sem comentários:

Enviar um comentário