quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Texto do senhor que está sentado no banquinho (G. Waddington)


Lembro-me de, (não necessariamente nesta ordem)

Longos passeios no campo
Eu, saíndo de casa dos meus pais,ou dos meus avós,
Não me recordo bem.
A casa tinha duas portas, ou portões.
Lembro-me que o meu pai nos fazia sair por um lado da casa e,
Depois dos passeios intermináveis,
Nos fazia entrar pelo outro lado
O que me dava a sensação de que a pequena aldeia
Se reconfigurava a cada novo passeio.

O ruído de passos no soalho, no andar de baixo, nos dias de festa.
Cada passo, mais um aperto no meu coração.

O beijo da minha mãe, que não vinha, ou tardava em vir.
E quando vinha era só para me recordar de
Todas as vezes em que não viera.
E foram muitas mais, acreditem.
(Porque é que fingia eu que estava a dormir?)

Swann, o vizinho
Culto, bonito, bem-falante
Sedutor, melómano, amante das artes,
Amante de Odette e não amado por ela.
Em ocasiões diferentes tivemos a mesma epifania,
Eu e Swann, na mesma frase musical
No crescendo da sinfonia de Vinteuil,~
Algures numa constelação de notas
Ele descobriu que amava Odette,
Eu descobri que amava Albertine.
Até que o amor dele por ela acabou, e eles se casaram.
O ponto final perfeito para o amor.
Eu não tive a mesma frescura de espírito infezlimente.
Ele era uma antevisão da minha vida amorosa.
Eu ainda não sabia, porque, na altura
Não tinha consciência de que podia lembrar-me do futuro.
(....)
Onde estiveste a tarde toda Albertine?
Estou aqui há não-sei-quantas unidades de entropia à tua espera!
(...)
Eu Albertine.
Eu. Aqui. Tão culto e deitadinho.
Tão doente e subnutrido.
Tão ciumento e libidinoso
Meu amor.

Oh meu amor!
Tu que não ficas trancada no quarto quando eu quero
Para eu poder ser o sedutor que o destino me prometeu em sonhos
Para poder ter as mulheres todas na mesma cama
Onde chorei por ti, tantas noites
Sem saber por onde andavas
Sem saber com quem andavas,
Sem saber com quem te divertias meu amor.

Para poder voltar a encontrar Gilberte
E provar-lhe que sou um homem
E não hesitaria em agarrá-la pela cintura
E beijá-la com avidez felina
E dar-lhe uma lição de erotismo termodinâmico,
Meu amor.

Para poder ter Stermaria
A amiga de Robert Saint-Loup
A tal que se deixa possuir por dá cá aquela palha,
Sempre aberta como uma orquídea,
Nos compartimentos dos comboios
Nos camarotes dos teatros
Nas salas privadas dos restaurantes
Como a nêspera caída no chão
Nos passeios da minha infância
E que a minha avó insistia em que eu a comesse «Porque o que nos é oferecido no caminho, meu neto, não se pode desperdiçar, come!»
Meu amor.

Para poder ter as mulheres todas
ao mesmo tempo ou de seguida
Emparelhadas, cruzadas ou interpoladas.
(...)

Mas, tu?
A mim, meu amor?
Sozinho?
Abandonado por ti meu amor?
Há quanto tempo meu amor?
Meu amor. Meu amor. Meu único amor.
Meu grande amor.
Meu Albertine

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