sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Abro a porta com a distância entendida
cheira a sofá de conforto produzido em massa
mas nele não figura qualquer alma perdida
é apenas a minha solidão em forma devassa!

Aceito, compreendo, integro
e faço por ignorar a reflexão comparativa
pois esquecendo-me que cada vida é única
é tão fácil julgá-la numa fogueira inquisitiva!

Com o corpo descontraído
vou enganando dor e vontade
ao questionar-me se terei uma vida
que acompanhe a idade.

Contudo reconheço
que para saber nortear o caminho
ao não existirem erros, fragilidades e defeitos
este seria muito mais sozinho.

Sozinho de vivências
percepções, lutas e certezas
afinal o ser humano só é grande
quando abraça e assume as fraquezas.

Vamos viver uma vida
onde se aceite cada minuto do que fomos
para, no fim, não acabarmos zangados
com tudo aquilo em que somos.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Texto do senhor que está sentado no banquinho (G. Waddington)


Lembro-me de, (não necessariamente nesta ordem)

Longos passeios no campo
Eu, saíndo de casa dos meus pais,ou dos meus avós,
Não me recordo bem.
A casa tinha duas portas, ou portões.
Lembro-me que o meu pai nos fazia sair por um lado da casa e,
Depois dos passeios intermináveis,
Nos fazia entrar pelo outro lado
O que me dava a sensação de que a pequena aldeia
Se reconfigurava a cada novo passeio.

O ruído de passos no soalho, no andar de baixo, nos dias de festa.
Cada passo, mais um aperto no meu coração.

O beijo da minha mãe, que não vinha, ou tardava em vir.
E quando vinha era só para me recordar de
Todas as vezes em que não viera.
E foram muitas mais, acreditem.
(Porque é que fingia eu que estava a dormir?)

Swann, o vizinho
Culto, bonito, bem-falante
Sedutor, melómano, amante das artes,
Amante de Odette e não amado por ela.
Em ocasiões diferentes tivemos a mesma epifania,
Eu e Swann, na mesma frase musical
No crescendo da sinfonia de Vinteuil,~
Algures numa constelação de notas
Ele descobriu que amava Odette,
Eu descobri que amava Albertine.
Até que o amor dele por ela acabou, e eles se casaram.
O ponto final perfeito para o amor.
Eu não tive a mesma frescura de espírito infezlimente.
Ele era uma antevisão da minha vida amorosa.
Eu ainda não sabia, porque, na altura
Não tinha consciência de que podia lembrar-me do futuro.
(....)
Onde estiveste a tarde toda Albertine?
Estou aqui há não-sei-quantas unidades de entropia à tua espera!
(...)
Eu Albertine.
Eu. Aqui. Tão culto e deitadinho.
Tão doente e subnutrido.
Tão ciumento e libidinoso
Meu amor.

Oh meu amor!
Tu que não ficas trancada no quarto quando eu quero
Para eu poder ser o sedutor que o destino me prometeu em sonhos
Para poder ter as mulheres todas na mesma cama
Onde chorei por ti, tantas noites
Sem saber por onde andavas
Sem saber com quem andavas,
Sem saber com quem te divertias meu amor.

Para poder voltar a encontrar Gilberte
E provar-lhe que sou um homem
E não hesitaria em agarrá-la pela cintura
E beijá-la com avidez felina
E dar-lhe uma lição de erotismo termodinâmico,
Meu amor.

Para poder ter Stermaria
A amiga de Robert Saint-Loup
A tal que se deixa possuir por dá cá aquela palha,
Sempre aberta como uma orquídea,
Nos compartimentos dos comboios
Nos camarotes dos teatros
Nas salas privadas dos restaurantes
Como a nêspera caída no chão
Nos passeios da minha infância
E que a minha avó insistia em que eu a comesse «Porque o que nos é oferecido no caminho, meu neto, não se pode desperdiçar, come!»
Meu amor.

Para poder ter as mulheres todas
ao mesmo tempo ou de seguida
Emparelhadas, cruzadas ou interpoladas.
(...)

Mas, tu?
A mim, meu amor?
Sozinho?
Abandonado por ti meu amor?
Há quanto tempo meu amor?
Meu amor. Meu amor. Meu único amor.
Meu grande amor.
Meu Albertine

"Albertine, o continente Celeste"

Entropia - seta do tempo. De acordo com o princípio antrópico o universo é como é, porque nós existimos nele. Como se nós fossemos uma criação do universo para que ele, universo, tenha uma testemunha da sua própria existência: nós.
Todos os dias caminhava com os horários definidos e os passos automáticos.
Sabia institivamente onde cada árvore se colocava, o local em que as paragens de autocarro se desenhavam, as pedras geometricamente iguais da calçada. Era raro o cumprimentar alguém, fruto da boa educação que se propagou como um virus indiferente nas grandes cidades. Seria estranho poder contemplar uma mudança no seu trajecto habitual, tão raras as vezes que erguia a cabeça do seu vai-vem sem surpresa. Mas nesse dia não. Nesse dia, algo afixado num poste de eletricidade lhe chamou a atenção. Pensou consigo próprio: "Que cão se terá perdido? Hmmm cão... Pode até ter sido um objecto mais valioso!". Nisto, reparou que o número de telefone para devolver informações era o seu. Petrificou, não sabendo se vivia realmente a incredulidade de ser alvo de alguma brincadeira de mau gosto.
Começou então a ler os detalhes desse anúncio:
Procura-se com as seguintes caracteristicas:
- não ter medo
- não ter vergonha de falar com outras pessoas
- não ter receio de fazer perguntas
- questionar tudo até o óbvio
- brincar sempre, todos os dias, mesmo depois de horas fechado num lugar
- naturalidade para estar com qualquer pessoa
- espontaneidade para ser o que quiser
- simplicidade para se encantar com pormenores sem intenções secundárias
- rir alto e chorar sem inibição
- manter e falar de sonhos, por mais irreais que possam parecer
- dizer aos pais o quanto gosta deles num beijo

Nisto observa a foto que acompanhava o anúncio.
Era ele com 6 anos.
Afinal procurava-se a criança que outrora fora.
Que recompensa se ganha quando a procura é esta?


Convido a com a imaginação pensar-se num anúncio com a nossa foto em crianças, seja a saltar, sorrir desarmadamente,ou num olhar ingenuo e feliz. E olhando para aí perguntarmo-nos sobre o que lhe teríamos para dizer, onde a desiludimos e surpreendemos nos nossos caminhos, e principalmente o que diria ela de nós como somos hoje.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

E se Fernando Pessoa nunca tivesse existido, a poesia nunca teria sido assim

Compreender um ao outro
é um jogo complicado
Pois quem engana não sabe
Se não estava enganado.
Dá-me um sorriso daqueles
Que não te servem de nada
Como se dá as crianças
Uma caixa esvaziada.
Nuvem alta, nuvem alta
Poque é que tão alta vais?
Se tens amor que me falta,
Desce um pouco, desce mais.
Dá-me um sorriso ao domingo.
Para à segunda eu me lembrar.
Bem sabes: eu te sigo.
E não é preciso andar.

Diz-me uma palavra.
Sonhos.
O que são sonhos?
Olha, podem ser uns doces que se fazem no natal!
O que são doces?
Alimentos que sabem imediatamente bem e te fazem querer mais!
E o que é bem?
Um estado de aceitação, de liberdade, aprovação!
O que é aceitação?
Amor, respeito, acreditar no que sentimos e fazemos mais que ninguém.
O que é acreditar?
É querer, desejar, ter esperança em algo, alguém!!
O que é alguém?
É uma pessoa, dito de uma modo indefinido.
E Indefinido?
Algo que não temos muito bem a certeza para conseguir fazer, dizer, nomear, esclarecer.
E o que é que indefinido tem a ver com sonhos?
Hmmm.... Quem nunca começou um sonho numa ideia indefinida?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Sou um fortune cookie, ou um bolinho da sorte como me quiserem chamar. Na minha família existe uma longa tradição na clarividência futurística. A minha avó iniciou-se por vocação, porque não queria ser um bolinho devorado por dedos obesos ou corações partidos em fase de latência. Seguiu-se a minha mãe e o meu irmão. A minha irmã mais nova preferiu o ramo dos cup-cakes, vaidosa como era, sempre quis ficar enfeitada de tudo e mais alguma coisa. Por mim tudo ok. Não sei bem qual o cariz da mensagem que trago comigo. Sei que não gosto de frases cliché. Sinto-me uma espécie de Messias, um Papa ou Mahatma Ghandi. Na fábrica disseram-me que não poderia escolher a mensagem que transporto, em virtude do preço de produção, e afirmam eles também, que assim conseguiria trazer melhor o sabor tenro e genuíno da descoberta. Dou por mim a reflectir. Que importância tenho eu para as pessoas? Num mundo onde existem astrólogos, tarólogos, meteorologistas, videntes, avós, mães sábias e pessoas pouco influenciáveis?
Hoje, antes de ir para a fábrica, faço uma incursão na farmácia para o antidepressivo. É que estou tentado em quando colocarem uma moeda na máquina realizar um mergulho fatal, para não assistir à indiferença quotidiana nos olhos da pessoa que me abrir.
Tenho a alma num trapo sujo,
a retorçer-se de humidade, pó e entranhas da vida
Esfrego, contorço, aplico força e conhecimentos
será que experimento a líxivia?
Um remédio eficaz
para os males bacterianos
já que não posso comprar um pano novo
como limpo estes danos?

Depois de o sujeitar
às altas temperaturas da raiva e culpa
e à permanente água das incertezas e verdades
Eis que o deixo abraçar o sol envolvente
para poder libertar as saudades.

Não basta usar a máquina
ou a força hábil de mãos e pensamento.
essa sujidade consegue dar
a força do que não compreendes aí dentro.

Porque nada desta vida
pode ser só luz e exactidão
essa sujidade tem que relembrar
as marcas dos momentos de indecisão!

Essas marcas foram rasgos!
desgaste, desbotar, ou cores que não haviam aparecido!
o que realmente importa
é que tenhas vivido!
Entornei um copo de tinto...

Por embaraço, por alegria efémera, por felicidade conjunta, por miopia descentralizada, por saudades, por ideias, por partilha de opiniões, por crescimento em dó maior, por copos de tinto a mais e principalmente porque existia um copo de tinto na mesa. Ou na vida. Bem vindos!