sábado, 31 de dezembro de 2016

Quantos anos tem um ano?

Finalizo este ano com o pleno sentido interrogativo de quantos anos podem existir dentro de um.
Para mim este significou voltar a ser um bebé, gatinhar, escorregar, cair, aprender a andar pé ante pé sozinha. Nada disto significa uma infantilização, um pessimismo detalhado em lente macroscópica ou simplesmente uma coitadização que podemos fazer de nós próprios. Não, definitivamente não.
Há anos que são fortíssimos, vindo provar do que se é realmente feito. Se de pessimismo, dependências, não assunção do que se faz e é. Se perante tudo o que há para inovar, saber e abrir, nos refugiamos na certeza que o conforto será sempre um grande amigo.
A vida continuará a ser um eterno presente e representará muito mais do que um eco das nossas acções para um todo, seja ele nós, as pessoas que nos rodeiam, a natureza e o próprio universo.
Frequentemente todos vão traçando objectivos que norteiam acções, futuros, tranquilidades ou no seu reverso excitações entusiasmantes.
Vamos é esqueçendo que não há comparação mais inigualável do que a própria vida, e que será perante ela que devemos responder em objectivo maior.
Chega de esquematizar as relações, empregos, hobbies e sei lá mais o que.
Vamos viver.
VIVER.
E a isso chama-se apenas ser congruente e espontâneo com aquilo que nos liga, exalta, e envolve na atmosfera incomparável de estar em contínua dádiva e gratidão.
O que não é muito difícil, só o sendo caso se ceda em completo a viver numa comparação fortuita e na ignorância de que cada um é amor e potencial individual que precisa de existir para haver um todo e completar este puzzle com a sua lógica, magia e energia própria.
Vamos cruzando com muitas pessoas e situações, que vão trazendo, levando, agitando, tudo isto para revelar o melhor ou pior de nós. Que em devota meditação deverá ser reciclado e transformado em energia e mudança positiva. Pois transformando desilusões em realidade, medo em coragem, desafios em oportunidade, dor em valorização e força interior, correntes em liberdade, não estamos a passar um ano. Estamos a retirar, de facto, o melhor dele.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O Bar do Fred

Todos nós já entramos no Bar do Fred.
Uns durante momentos ou anos, outros por força de circunstâncias às quais não se negaram e alguns sem a intangível ideia de que teriam responsabilidade de maior para não o efectuarem.
De facto a bebida é perigosa, figuram diversas associações e movimentos, estudos, mestrados, investigações e objectos de doutoramento e fibrilhações auriculares.
A verdade é que há idades que são protegidas na forma de Deus no Olimpo pelo fervor alcóolico, qual acto messiânico e divino de tudo poder fazer, assistir e rir. Porque o amanhã não é longe demais, o amanhã nem sequer entra como dádiva meditacional, qual chama budista do viver no aqui e agora.
E por ele quantas relações entraram em ruptura sísmica, quantas apalpões não foram dados por baixo da mesa ou da saia, quanta porrada alguém ou o próprio levou. Quantos carros se conduziram com o dedo mindinho - ou com o focinho (desculpem-me mas não resisti ao sarcasmo fácil da rima), desafiando a própria sorte de quem manipula a marioneta lá em cima por nós.
De qualquer forma, há algo puramente divino que protege todas as criaturas que se aventuram a entrar neste bar do fred que são os devaneios, alegrias e turpores alcóolicos, saindo vivo e com todos os dentes. Com a carta. Com o corpo. Ou com o que resta de alguma relação.
Este é o tributo a Coimbra, o tributo a ser-se jovem e inconsequente. O tributo a outras cidades, aldeias, gentes, nesses sitios onde o líquido for instituição e institucional. Nos milhares, milhares e milhares de gentes, que se presenteiam, deleitam, descontrolam ou simplesmente usufruiem do que é estar possuido pela alcoolémia. Que tanto pode ser docemente poética, como estupidamente hostil ou ridiculamente predisposta.
Coincidência ou não, retrato-a num dia em que parte do mundo, pelo menos o Ocidental que se julga mais evolúido, festeja o amanhã como se não o houvesse. E afinal, quando acordarem, sempre chegou.
E concluo com um brinde a todos nós, de copo bem cheio!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Activismo de extrema direita

Quantos são os que, informados e pesquisadores de informação, simplesmente não a partilham com os demais? O que esperam eles? Que a informação seja santa e santificada, pelo que só poderá chegar às mentes iluminadas de uns? Que o que importa é cada um ir fazendo o seu caminho sem intersecções e cruzamentos? O que sou eu só e sozinha com informação? Posso aculturar-me, inquietar-me, regozijar-me, maravilhar-me, mas tudo o que sei, morre comigo.  Se não passar, falar, partilhar, transmitir, provocar curiosidade, contestação, medo, alegria ou estupefacção. 
Por isso eu afirmo sim, muitos activistas de direitos, informação e ideais bonitos andam aí armados em extrema direita, algo que até devem abominar em comparação. Mas nas suas mentes, uma vez que sectarizam, julgam e hierarquizam pessoas e necessidades, actuam como tal, como supremos nas informações e mentes pródigas que têm. Mas ninguém tem uma vos garanto. O único ser pródigo é aquele que é bom e generoso, independentemente de ser o mais instruído do mundo ou o pobre modesto que vive de caridade alheia ou fracos rendimentos.
Portanto, não tomemos a informação e o que se sabe como valores que confiram diferença e superioridade entre todos. Se a vida fosse partilhar e não as anteriores, tantas guerras e cegueiras por pessoas, honras, territórios, religiões e ideologias não tinham acontecido. Viemos cá para partilhar e ser apenas derradeiramente melhores com isso, uma vez que quem beneficia é o todo onde nos movemos e existimos e não cada existência em particular.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

De Ramiro Calle

"Somos capazes de ser tão implacáveis a julgar os outros e no entanto, tão indulgentes connosco mesmo, tão permissivos, tão habilitados para encontrar todo o tipo de justificações falazes e pretextos inconscientes. Mas aquele que ama, está consciente das suas deficiências e aceita-as, e inspira-se de tal maneira nelas que é muito mais permissivo, indulgente e benevolente com as falhas alheias e sabe perdoar, mas sem que isso denuncie falta de firmeza ou incapacidade para estabelecer os limites necessários. Se vês em ti mesmo, consciente e humilldemente as tuas falhas, sem te auto-enganares nem argumentares neuroticamente, desmascarando-te com intrepidez, serás capaz de compreender melhor os outros e ser mais compreensivo, superando por outro lado toda a espécie de expectativas sobre os outros que, quando não sentes cumpridas, te conduzem ao desencanto, frustração e à raiva. Devemos aprender a aceitar-mo-nos conscientemente a nós mesmos e a aceitar os outros; isso também é uma bela faceta do amor."

domingo, 25 de dezembro de 2016

Um tributo ao encanto de ser pequeno

Há muito muito tempo Fernando Pessoa escrevia numa carta de final de namoro a Ofélia Queiroz, que o progresso dos seus anos estava a par do progresso na infelicidade e desilusão. Não posso generalizar ou ser tão ingrata de modo a que transfira isso para mim, mas a excitação, brilho e encanto que o Natal proporciona não tem par nos anos. E não está relacionado ou implícito a crenças religiosas ou presentes ofertados. Está relacionado com o progresso intelectual, com o crescimento e visibilidade da realidade, tirania, traição, injustiça e não verdade que assola o mundo dos adultos, e ao qual, em crianças, somos alheados de entender e vivenciar, conforme a sorte dos nossos contextos. O que eu transmito não é a impossibilidade do Natal. É a impossibilidade de vivê-lo sabendo que existe paz, amor e disney nos nossos corações. Que existe uma ligação mágica e invisível no ar de ligação, generosidade e presença. Presença de todos os que já não estão mais. A nossa ausência em virtude de ocupações laborais, que nos dão dinheiro mas não a essência mais profunda. A crença de uma conexão e extensão que não tem paralelo com a realidade do que a vida deu. 
Como tal, hoje, se rever aquela alegria ténue e inocente da Disney, aliada a cânticos queridos, sabedoria dos animais a tratar bem os humanos, e sobretudo, uma espécie de pó de estrelas no ar que não se encontra na atmosfera fria e crua dos dias, sorrio. Sorrio porque também eu fui um dia, inocente, feliz e despretensiosa. A minha realidade seria, além dos dias, o que imaginava na cabeça cheia de sonhos, encantos e imaginações, polvilhados por um nascer de sol que iluminava o céu e as estradas com cores que agora só trago na memória. E em tal, consigo rever o que aconteceu. Eu cresci, e cresceram e morreram comigo pessoas, desejos e pureza. Resta-me vir respirar neles sempre que a densidade e falta de ar povoar o meu coração.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Numa altura em que se alinha a consciência na proporção das prendas e sentimentos propagados pela comunicação social e em que se revê o ano planeando mudanças e desejando algo melhor, deixo algumas mensagens para todos nós!

- Tornar-mo-nos cada vez menos egoístas e cegos às necessidades dos outros
- Viver a vida com os seus previstos e imprevistos com amor e humildade, em vez de raiva, frustração, insatisfação crónica e ganhos fáceis projectados ou ambicionados
- Entender que objectos e bens dão pacificidade material e nunca de espírito
- Ter abertura para outros pontos de vista, perspectivas e ideias, não sendo rígidos ou defensores de verdades absolutas
- Lutar por um mundo melhor não significa sonhos pueris com o hino da alegria, começa todos os dias na atitude que se têm ao tratar/lidar com outros, seja numa profissão, relação afetiva ou com o vizinho do lado, ou com alguém que nos tenha magoado
- Cordialidade, tacto, polidez e bom senso dá-se a todos mesmo aos que se acha que não mereçem, Ter honra e dignidade é isso e não o contrário
- O ego, a vaidade e o orgulho só preenchem aspectos densos e pouco contributivos de nós
- Ter consciência que a vida não é só o m2 por onde nos movemos e o umbigo da qual estamos ligados. A vida é universo, outros formas de vida animal, natureza plena, estando todos intrinsecamente ligados e no qual depende de cada um cuidar, crescer e informar-se continuamente
- Pensar a vida de forma abstrata, além do que é a função básica de comer, respirar, beber, e de ter um salário ao fim do mês, numa vida de casa-trabalho sem contributos para dar ao mundo
- Interessar-se pelas pessoas, aprender com elas. Do porteiro do prédio, ao dono da loja, ao velhote que todos os dias está na mercearia, todos têm uma história e algo com que se possa aprender e retirar lições
- Simplificar. Reciclar o que dá densidade em vez de simplicidade, retirar o que é tóxico e não permite a mudança para melhor. Usar a cabeça para pensar além do que é inundado em redes sociais, media, sociedade; Usar o coração para valorizar, estar preenchido e praticar a gratidão com todos.
- Positivismo. Porque para complexo já basta muitas vezes as redes que nos circundam, uma atitude de gratidão, ver o copo meio cheio do que meio vazio, partilhar,acreditar e unir sem pretensão maior do que sentir em pleno o que isso trás.
- Centrar em nós e em nós com os outros. Somos nós que detemos o controlo da reacção ao que nos chega, que em parte, não nos é controlável. Centremos as responsabilidades em nós, 
em vez de carregarmos fardos inúteis que nos fazem piores do que viemos ser.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Eis-nos chegadinhos

Tal como a certeza de que existem átomos, ecossistemas, prostituição de luxo e particularidades que afectam e habitam a vida de cada um, há adventos aos quais ninguém consegue escapar ou ser indiferente, tais como as festividades de Dezembro chamadas de Natal e Fim de ano. 
São épocas que para uns podem custar um rim, lágrimas, alívio, amarguras, risos embaraçados na contextualização do "ainda bem que não sou eu", entre outros. Épocas de jantares entre gente que não se atura e atura, badalar de sininhos e cornos de rena, apelo intenso à revisão do ano, com gratidão, bondade, genorosidade e género, dentro de todos os seus significados, pensando em mudanças e planos que são tão sólidos quanto a primeira indisposição que se sente pela manhã.
Épocas que a televisão/cinema nos ensinou a aconchegar nos corações, apreciando o sozinho em casa como se fosse a primeira vez, a evolução darwiana da Leopoldina em Popota, e os cânticos plenos de amor que povoam as baixas citadinas e altas sacristias do comércio global chamadas centros comerciais, apelando à vinda. Sim, já dizia o outro, deixai vir a mim as criançinhas, mas estas músicas, pareçem-me que fervilham mais de "deixai vir a mim uma época que não diz muito, a não ser o que estão aqui a procurar".
Para um país fervorosamente cristão situado em 1940, o Natal representava uma época povoada de celebrações puras e honradas do catolicismo. E nesse pulsar cristão, sob custódia de Salazar e o reino de analfabetos e ruralidades, as prendas pensadas seriam algo tão lato, tais como e só por pequeno exemplo, ter saúde e meios de proporcionar essa saúde, mais uma sardinha no pão ou a ousadia de uma vida melhor.
Com a cortesia de permitir o Pai Natal visitar um estábulo lá para os lados de Bélem, as prendas passaram a ser impositivas, carregando status, carinho ou consideração, descentralizando do prazer primordial que é estar junto, sentindo a união, convívio e generosidade no seu ímpeto máximo, que é aquele que só o olhar, escuta interessada, sorriso aberto e a presença inteira transmite.
Quanto à passagem de ano, não vejo época onde se sinta com maior expectativa nos olhos dos outros, as penetrantes questões de onde é que foi, como foi, e o raio se fez e viu nas entradas no novo ano. É uma noite ou transição que dura pouco, mas esse ínfimo durável tem que ser eterno, eternizado e o seu planeamento revelador das redes sociais, tais como a diferença entre os populares da escola ou os meninos sem planos fixes a um canto.
Em suma, são duas épocas brilhantes, bonitas e profundamente simbólicas dentro da perspectiva do que cada um pode dar e retribuir de melhor, pensando sempre numa base de desenvolvimento, dedicação e cuidar. O cuidar de nós, dos outros e da vida, com estima e reconhecimento. Isso faz com que as festividades surjam e acompanhem anos, séculos e milénios da existência do Homem.
Porque no fundo, o que celebramos sempre é a vida de alguém e a vida em si, na sua união, presença e significado. E tão somente isso, devia colocar-nos activos, generosos, esperançosos e em partilha, também em todos os outros dias do ano.
Só assim exercitamos a coerência e a real percepção da importância do que se anda aqui a celebrar.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Ah pensei que.

Neste mundo, na sua globalização, continuidade e rotação física, não existem grandes espaços destinados à possibilidade de não entender o que se diz, ou até, de ter a audácia de através da soma de alguns dados inferir os próprios entendimentos.
A vida não permite assunções de ordem empírica, dedutiva ou intuições. Precisa de provas inabaláveis de tal. Da mesma forma, também não simpatiza com a existência de fontes rígidas, que podem partir de hierarquias ou sistemas conceptuais de pensamento, sem constatação e validação final apurada. Num tribunal ou contexto laboral, familiar, pessoal ou social em que se assume uma decisão difícil, séria e altamente responsável, esta não conteve, e felizmente para todos não precisou, de argumentos da ordem do "pensei que". Pensar que, reside numa ínfima porção do pensamento, quando este ainda é inocente, pouco estruturado, aglomerando escassa informação clara, capacidade decisiva, priviligeando a vida sentida num prisma mais básico, com facilitismo e magicação do que os outros pensam e fazem, inserindo-nos numa rede extensa de presunções que mais prejudicam do que ajudam.
Não existe nada mais claro do que a verdade e a verdade que é fornecida ou procurada, sem dúvidas, subterfúgios ou conclusões, com base em aparências, indícios ou conjugações precoces de dados.
Use-se - por fim e para todos os fins - de solidez, densidade e informação clara no que se pretende ou recebe, para originar decisões mais conscientes, com real empatia pelos outros e por nós, assentes na ideia deste todo que, não nascendo adquirido, nunca nos ensinou a assim o interpretarmos.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Pedaços do que R.M.Rilke deixa ao mundo

"Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-me a mim. Antes perguntou a outros. Envia-os para periódicos. Compara-os com outros poemas, e inquieta-se quando certas redacções rejeitam as suas tentativas. Ora (e uma vez que me permitiu dar-lhe conselho), peço-lhe que desista de tudo isso. O Senhor olha para fora, e é sobretudo isso que agora não deve fazer. Ninguém o pode aconselhar e ajudar, ninguém. Só há um meio. Entre em si mesmo. Investigue o fundamento que o chama a escrever; ponha à prova se ele lança raízes até ao lugar mais profundo do seu coração, admita se teria de morrer caso lhe fosse vedado escrever. Sobretudo isto: na mais silenciosa hora da sua noite, pergunte a si mesmo: tenho de escrever? Escave dentro de si à procura de uma resposta profunda. E se esta houver soar afirmativa, se lhe for permitido encarar essa pergunta como séria com um forte e simples «Tenho» então construa a sua vida segunda essa necessidade; a sua vida, até ao âmago da hora mais indiferente e limitada, terá de se tornar um sinal e testemunho para esse ímpeto. Tente, então, como um primeiro homem, dizer o que vê e experimenta e ama e perde. Não escreva poemas de amor; evite de início aquelas formas que são demasiado correntes e comuns; são as mais difíceis, pois é precisa uma força grande, amadurecida, para dar algo de pessoal num terreno em que se acumulam tradições boas e, em parte, brilhantes. Fuja, pois, dos motivos gerais para aqueles que lhe oferece o seu próprio quotidianoa; retrate as suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a fé numa qualquer beleza - retrate tudo isso com sinceridade íntima, serena, modesta, e use para se exprimir as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objectos da sua recordação. Se o seu quotidiano lhe parece pobre, não o acuse, acuse-se a si; diga a si mesmo que não e poeta o suficiente para convocar as riquezas dele, pois, para o criador não existe pobreza alguma, nem lugar pobre e indiferente. E mesmo que estivesse numa prisão, cujas paredes não lhe deixassem chegar aos sentidos nenhum dos ruídos do mundo - não continuaria ainda a ter a sua infância, essa preciosa riqueza régia, essa câmara de tesouro das recordações? Dirija para aí a sua atenção. Tente trazer ao de cima as afundadas sensações desse distante passado; a sua personalidade firmar-se-á; a sua solidão ampliar-se-á e tornar-se-á uma habitação crepuscular onde o barulho dos outros passará ao largo".

Em, Cartas a um jovem poeta

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O limite dos limites

É comum haver um fluxo contínuo no dar e receber, ora recebemos, ora damos, havendo quem perpetue o hábito inveterado de querer mais uma direcção do que o ciclo total, ou então, não pesando bem os lançamentos do que ofereçe e recebe, alegue em sua defesa juízos protectores para justificar os laços - ou nós - dados. Contudo, é amplamente saudável saber onde há limites dos limites. Limites no limite. Onde é que de nós começou a ser resistência, suor, insistência ingénua e vã. Saber diferençar entre o que é paciência, conivência ou alheamento. Qual o rio para onde vão essas lágrimas e que força motriz propaga o tónus muscular. Admitir um limite é saudar o início de outro. Ou iniciar o nosso, com o fim do que nos está circundante. Não acredito em dar demais. Dá-se o que se sente. Dar é vida, deontologia, ética, é orgânico e puramente natural. Tudo o que assim não seja é falso e controlado. Saber quando retirar, aí sim, é agir na aceitação do limite. É acreditar na campainha sonante que acelera a voz da consciência. A voz que envia argumentos lógicos para agir, baseados em racionalidade. Não é atribuir a essa campainha, todas as nossas frustrações e misérias, fugindo ou negando mal o alarme soe e implicando-nos a receber novamente outros trinta mil sinais até entender. Não se trata de escudar sofrimento ou desgaste. Trata-se  de encarar que se alcança o limite dos limites, implicando muita seriedade emocional, que não se consegue só com idade, experiência e posturas. Há para quem tal capacidade seja inata, outros conquistam-na através do intelecto e sabedoria interior transformada. Pior estão os que dificilmente o atingem, porque querendo ter na mão o espelho e controlo, não percebem que a vida não tem parceria nesses tais conceitos. Obriga-nos todos os dias a repensar que não mudamos pessoas e situações. Mudamo-nos a nós, e numa questão de boa fé, possivelmente poderemos influenciar a mudança externa. Possivelmente. Só porque há limites e porque talvez  neles resida das maiores provas do que é ter dignidade.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Between angels and insects, já diziam os Papa Roach

Relembro-me quando eu era miúda, usava um bibe, tocava flautinha num sopro inocente, cantava músicas do Rei Leão e do maravilhoso mundo que não existe da Disney e sentia um ideal Luther King em mim. Eu tinha um sonho, viver era em si um sonho, longo e imaginado. Hoje isso não mudou, viver é a oportunidade mais interessante que alguma vez nos foi dada, mas longe de imaginar naquela altura as putacracias dos adultos e da eterna, subtil e irrevogável submissão ao dinheiro que se tornou esta vida, no cruzamento com aquela onde imaginava sítios, palavras, ideias com pó de estrelas com que assistia nos filmes. Talvez nada nem ninguém nos tenha preparado para este mundo, onde tudo é vendido e pago, até a própria honra. E embora não nos bata à porta uma realidade de África subsariana, as tendas de campismo que nos transformámos inibem de atingir inúmeras liberdades que um ser humano pode ter, como seja habitar longe da escravatura do dinheiro, mas simultaneamente não sendo prostituído ou mendigado em tal. E parece-me que na realidade dos dias de hoje, que auspiravam mudança, evolução e direitos humanos, muito ficou em ténues linhas escritas em documentos oficiais ou de fins de marketing. Porque marketing é ilusório, enganar e magicar para vender, sabendo qual a melhor estratégia a aplicar. Será que é hoje como estamos com os serviços que nos rodeiam?
Epá... é que contemplei-me agora e senti-me aliviada.
Percebi que ainda não tenho nenhuma etiqueta na pele.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Era uma vez alguém que gostava de olhar as primeiras estrelas a brilhar, deliciando a sua afinidade na proporcionalidade directa da beleza e mistério de um imenso céu nu. E gostava de pedir desejos, contemplar os alinhamentos constelares, suspirar, etc e e-te-ce-te-ras. Do outro lado estavam os planetas, estrelas e luas olhando e rindo-se à brava. Sempre que os julgavam alinhados, apoiantes na concordância inspiracional dos seus maiores sonhos, eles comentavam entre todos "Epá... Acham que estamos todos alinhados à esquerda... Bora lá.. vira tudo para a direita!!" ou outro exemplo, que já me constou: "Este pessoal enternece-se com a primeira estrela da noite, quando nem sabe que na verdade o que  olham é Vénus.. " dizendo isto a rir na maior perdição e entrega. E assim sucessivamente. Gostavam de mostrar aos humanos que superstições, sinais divinos e estéticas planetares estão, na mesma medida em que estão todas as razões, emoções, desgostos e lógicas - dentro de cada um. E como tudo o que é natural, na sua dinâmica e inclusão, é dado por adquirido, fantasiado, interpretado, subjugado ou demasiadamente valorizado. Tal como as pessoas, umas às outras, ou pensamentos, ideias e a vida. Sejamos leves e frescos para sorrir, quer Venús se encontre à esquerda, à direita, ou em lado nenhum.

domingo, 11 de dezembro de 2016

A sonhar

Venho declarar que me apraz muitíssimo imaginar que no mundo:
- Não existisse a permanente e subjugante sustentação das pessoas ao sistema bancário, os verdadeiros assaltantes e violadores da equidade que tanto se apregoa como Direito Humano Universal. Acrescento aqui as seguradoras, parasitas que relembram que há que ter a finitude, doença e bens em carteira, sob pena da surpresa, esse pequeno choque incontrolável que assola com frequência quem está vivo;
- A habitação não fosse um luxo acessível a um chorudo empréstimo sujeito a saques e compromissos de vida que nem os casamentos cumprem (ou que engraçado, até a própria vida). A renda de uma casa valer metade do que uma pessoa trabalha, quando os impostos de um rendimento poderiam por exemplo, contribuir para suportar uma suave parte, se prevalecesse uma noção de partilha e dignidade e não de rendas baseadas em apetites fixos pelo dinheiro fácil;
- A educação fosse livre, sem rigidez e criação de pessoas que não questionem, já ensinadas a  ficar presas a identidades e instituições, sem ideia geral de que um grande caminho é o do progresso e inovação que não beneficie a vida particular. O direito à educação continua por muito mais do que o 12ºano, devendo as empresas fortalecer, promover, dando condições laborais e orçamentais para que se continue activo mentalmente, sem julgamento da procura de áreas completamente distintas da sua;
- As crianças não tivessem que pagar bilhetes de transportes, cultura, entre outros, quando não são independentes para fazer e entender;
- Onde a Natureza fosse mais entendível e respeitada que artigos de jornais de fim de semana, rótulos de instagram, e qualquer fuga momentânea à rotina e betão. Ela É a nossa vida, parte integrante e indissociável do que somos e nos originou. A fuga para o betão e rotina foi o que se fez para esquecer por momentos o bem espiritual e mental que esta dá, sem acesso a nada que não seja sentir, respeitar e aprender silenciosamente da sua contemplação;
- Onde os empregos não fossem sinônimo de escravidão de tempo, não contestação de directivas superiores, fonte de terrores para idas a psiquiatras e psicólogos, em que os novos elementos trouxessem frescura e não o bilhete sem volta, que é fazer o que todos fazem, não importando os sonhos e visões, o que interessa é ser gostado e aceite... Empregos em que fosse respeitado o aspecto incrível que é a opinião e crescimento num todo, inserido onde realmente se gosta de trabalhar (cada qual entregue ao que quer, e não ao que é possivel, sob pretexto de ser feliz e fazer consequentemente os outros)
- Onde o amor fosse a fonte principal e que entendessem que isso não é criar intimidades e afecto com qualquer um, mas sim o sentimento mais digno que origina e permite a união e reconhecimento de uma ligação permanente que é a igualdade e generosidade, naquilo que são as diversidades e pluralidades de milhares de milhões de existências...

Sob pena de isto ficar demasiado político quando assumidamente é apenas contestação de uma pequena cabeça, silencio-me pois todos têm capacidade de pensar isto e muito mais. E exigir e fazer. Em micro sitios, em micro locais. Mas fazer. Ou pensar. Porque já pensando a vida ganha um tom. Que não precisa de ser de rebeldia e anarquia completa. Mas de pesar nas acções. De onde coloco o meu dinheiro. Nos bens, essencialmente. A quem o dou, pesando as consequências. A quem dou o meu voto. Entre um rol de outras escolhas ponderadas e não adquiridas. Que seguramente não se faz se não se procurar, pensar, incomodar e querer saber mais além do vísivel.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Qual apoiante do filósofo Espinoza ao defender o panteísmo, permito-me sentir o Universo como mãe, criador, amor e uma data de belezas em simultâneo. Pensava que só quem vive grandes tragédias, experiências marcantes de assimetrias de necessidades, ou profissões que todos os dias lidam com a morte e doença, é que tinham, de alguma forma, as ideias bem definidas do que realmente importa. Não coloco isso em causa, não o coloco verdadeiramente. Apenas, e após começar a atentar de modo contínuo em divulgação proveniente de astrofísicos incluo-o estes profissionais dentro do quadro de honra de quem vê mais da vida do que o seu substrato directo. 
Neil Tyson bem diz que são por vezes criticados, devido a dedicarem o seu tempo a estudar mais o céu do que a Terra, esse sitio onde é urgente estar. E ele defende-se bem. Diz que, estudar a vida que houve noutros planetas que já foram idênticos à Terra, oferece resultados sobre como poderemos estar daqui a muito tempo. E podem dizer - mas não há influência agora. E eu pergunto - Será que não? Os primeiros dados expostos há muitíssimos anos por tantos ilustres corajosos, não foram contributivos e importantes para o que se sabe hoje? 
Há tantos factos belíssimos que nos trazem. Como o sermos todos feitos da explosão de estrelas e portanto parte integrante do Universo e nunca algo mais especial ou diferente que ele próprio. Não somos especiais. Especial foi esta oportunidade de cá estar. A ideia de que tudo nasce, renova-se, é útil e utilizado. Têm sentido, ritmo, conteúdo mesmo no ínfimo pormenor.
E penso na vida na Terra. O que está para além de um emprego, estudos, amor, filhos, pertenças a objectos e materialismos, humor, cultura, arte, rotina, betão. Estes pequenos resquícios de todos nós, pouco significam perante a imensidão do que nos rodeia e da qual somos parte. Contudo esse infinitamente grande e eterno é algo onde não sabemos se faremos sempre parte, e se o fizermos, sob que forma. E esta humilde questão também dá consciência da finitude. Da finitude, pequenez e ausência de certezas rígidas... só para nos poder atribuir mais valor à vida e ao que dela vem.
"Uma acção praticada por dever tem o seu valor moral não no propósito que com ela se quer atingir, mas na máxima que a determina".

Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Incomparável é adjectivo de uma má história

Qualificar com o adjectivo de incomparável ou um dos seus requintados e gabosos sinônimos é colocar algo numa fasquia onde não pertence. Algumas ou muitas das decisões menos benéficas e transformadoras foram tomadas a pensar na incomparabilidade dos momentos. Viver sabendo que lá algures no castelo querido do conto de fadas, se conheceu, viveu, pereceu junto do melhor dos melhores, seja ele um trabalho, uma relação ou um local, tornando-nos submissos à ideia de que arriscar é passível de se poder não ficar melhor. Pois eu digo, que se LIXE. Que se lixe isso tudo. Que fique a ideia do melhor possível. O melhor possível que nos alcançou pelas nossas opções. O melhor possível do que nos faciltámos em conhecer. Os quatro cantos que configuram a moldura onde se está instalado. É tudo sempre maravilhoso até conhecer outros pontos, histórias, ares. Que depois também passam elas a ser felizes e nossas, porque apropriamo-nos não delas mas dos significados. E aí está uma diferença entre o que é incomparável. É o que obtemos através da nossa inteligência e percepção, e não o objecto em si. O significado e não o significante. Quem me dera já o ter sabido!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Divina comédia

Dante tinha em sua posse uma vastidão de sabedoria interna e conhecimento espiritual , tendo brindado o mundo com o Inferno, Purgatório e Paraíso, naquilo que seria a sua obra mundial A Divina Comédia. Ocorre-me dizer três coisinhas.
Aquilo que se passa cá por baixo, é já em si uma síntese dos três famigerados locais que descreve.
Apenas escolhemos é viver em cada um deles, experienciando-o no mais profundo do que sentimos e damos.
Alimentando discórdias, egos, poder, tristeza ruminante. (Inferno)
Alimentando culpa, dúvidas, acesso constante ao passado, auto-análise punitiva. (Purgatório)
Ou alimentando paz, alegria, bons sentimentos, protecção interior através de se saber estar com quem se é, na sua franqueza e leveza. (Paraíso)

Coloco alguns bombons:

"Quando os seus pés deixaram a pressa, que tolhe a nobreza a todo o acto"

"O mundo é cego e tu vens exactamente dele"

"A fama que se adquire no mundo não passa de um sopro de vento que, ora vem de uma parte ora de outra e assume um nome diferente segundo a direcção de onde sopra"

"Louco é quem espera que a nossa razão possa percorrer a infinita via que tem uma substância em três pessoas"

"Quem és tu que queres julgar, com vista que só alcança um palmo, coisas que estão a mil milhas?"


Na espera de algo que vá desde o caos organizado, à junção da beleza dos sonhos e estrelas mais longínquas. Que, orientando e cintilando nesse horizonte que nunca deixa só, revela, protege, e embala na esperança do que há de ser. Ou de vir. 

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ausência de títulos por força maior

Numa limpeza que jamais seria étnica, chamemos-lhe com mais certeza de temporal, fui ter sem encontro marcado com trabalhos, escritas e vídeos realizados em pleno fulgor do início da vida como jovem adulta. E apeteceu-me chorar. Não de tristeza, mas de ter verificado em completo o quanto existe uma semente rebelde, inovadora, crítica, astuta, forte, desafiante, criativa e promissoramente JOVEM nesses tempos.
E é isto, é realmente isto que se deixa perecer quando se entra no padrão da vida merdosa do adulto.
Tornamo-nos chatos, convencionais, cheios de paninhos quentes por ai ui e ui ai, entramos no esquema, na roda do hamster, na vida chata e aborrecida de quem sabe que deveres são cumpridos e direitos nunca na totalidade, agradeçendo até, rezando um terço da boa vontade e bebendo-se outro numa esquina qualquer em honra ao céu azul de outros tempos, mais jovens e sem dúvida mais promissores.
Secalhar foi por tal que sempre gostei da Psiquiatra, no sentido em que não prevejo o que me dizem e a variabilidade da experiência, loucura e espontaneidade de cada um, me dá sentido a alguma coisa que trago cá dentro.
É quase como quem critica o PCP por ser um partido que ainda está no tempo da União Soviética e só existe porque é oposição, nunca sobrevivendo se fosse ele próprio o poder. Mas honestamente, e olhando para o exemplo daquele congresso ocorrido, sinto que podem ser eventualmente mais felizes assim. Pelo menos lutam, revoltam-se, estão lá atrás naqueles tempos em que o MRPP entrava pelas escolas dentro, desafiavando a autoridade, pensando-se mais além, onde a arte e cultura eram tão importantes, urgentes e íntegras quanto mais fortes as garras da opressão. 
E agora que as garras ainda se sentem (ou será que se sentem ainda mais) onde está essa luta??
Esse fulgor jovem, o sangue quente a correr pelas veias, os ideais e ideias???
O brilho, a energia a bombar, a frescura, o olhar toldado pela sede da mudança, da novidade e da vontade??
É que se for para fazer deste mundo um local cheio de carcaças velhas, de nada nos adiantou cá chegar cheios de tudo quando o embate com o não poder fazer nada é mais que chocante. É assassinato mental.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Viver sem expectativas não é ser desconfiado ou pessimista

Algo que é uma ferramenta imprescindível para estar na vida com saúde mental e equilíbrio trata-se de saber viver sem expectativas. Assim proferido e escrito quase que transmite a ideia errada de uma libertinagem completa e da anarquia de acções ou relacionamentos, ou de que se tem que de viver em permanente desconfiança e sob a inclusão de um conceito pessimista sobre os outros e a vida. Não. Não se trata definitivamente de tal, pois este tipo de ideias pode ser muito mais prejudicial que benéfico. Reforçam a ideia de que há perigo, de que não vale a pena acreditar ou entregar, quando o que transmitimos de bom e livre aos outros, é que o que trás a força e beleza de quem somos e do nosso propósito.
Viver sem expectativas exige um amor próprio e uma auto estima inabalável, reforçada e bem definida. Tal como o tronco grosso que sustenta a árvore, ou os pilares que comportam o templo ou a casa. De pouco importa saber fazer contas, independência e ambição quando o mais básico não existe ou está tenuamente desenvolvido - e pior - com um medo enorme de ser tocado e abanado.Quantas faltas de autoestima e amor próprio originaram guerras, disputas, falta de perdão, violência, inveja, controlo?
Viver sem expectativas permite ser paciente. Receber o melhor dos outros, sem esquecer que podem revelar momentos e acções menos esperadas e a isso terem categórico direito. Permite ver os outros na sua integridade e não aquilo que queremos que sejam. Inicia o caminho maravilhoso do dar pelo que sentimos e não pelo que sentimos que os outros devem sentir. Não medeia ou esfria o estar. Pelo contrário. Coloca muito mais naturalidade e aceitação do que tudo o resto. Faz-nos não desenvolver dependências por pessoas, relações ou objectivos e pensamentos rígidos que não nos preparam para a surpresa e receptividade. Auxilia a encarar a mudança como inevitável, incontrolável e essencial para o crescimento e não na base do remorso ou punição. Retira a imposição perante os outros e dá-nos a inclusão perante um todo. Se abandonarmos tudo o que seja viver exclusivamente na busca do reconhecimento, prazer, justiças, alcançamos tamanho amor e gratidão connosco e outros, que a vida nunca mais será a mesma. É transformada pela ampla leveza do existir e ver existir os outros sem obrigações ou lógicas, num modo de contínua transformação interior. E a isso, a isso sim, chamo liberdade. Ser livre. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Alguém atira uma bóia?

De uma análise minuciosa por aquilo que foi próprio, cumulativo ou de visões periféricas, preocupa-me a situação de reféns que existe em cada coração. Com coração digo aquilo que nos enobrece ou algum orgão que quando devidamente usado seja na manifesta partilha de qualidades e alegrias por outros. Adiante. Quantos de nós foram ou são reféns de algo? De aprovação, ideias inflexíveis, trabalho, sentimentos, pessoas, relações ou compreensão? 
Parece-me que das mais incapacitantes que por aí existe, e uma vez que muito se discutem as anteriores, seja a compreensão. 
Mas não confundamos o potencial inequívoco da comprensão. Compreender uma pessoa é belíssimo e vital, mas tende a ser uma prisão nas relações se houver consequências em vez de resultados.
Todavia, não sei se as expectativas são o alimento para tal ou se é a compreensão que as gera.
Nos nossos genes está carimbado tanto o alívio que sai da partilha, como o fervor que alimenta a discórdia. Se eu fico refém de que aquela pessoa me compreenda sempre, quando exponho o que sou, penso ou sinto, fico à mercê da bóia que me lança. Fico zangado, frustrado, combalido de não receber o que achava meritório. Pois bem, a compreensão não é nem nunca foi transversal e a menos que falemos de direitos humanos, situações legais e deontológicas, não se deve exigir. Para exigir tem que se solicitar da mesma forma empatia, respeito, disponibilidade, um sem fim de inteligência emocional, conceitos para muito desconhecidos ou não aplicáveis sob milhares de razões. Não reclamemos compreensão se nós próprios não entendermos que cada um é, vê e pensa diferente, sob a máxima do "todos iguais". 
Trabalhemos a nossa compreensão e deixamos a dos outros com eles. Para não sermos seres que a toda hora se relacionam com expectativas criadas na direcção errada, acumulando frustrações em vez de independência. O bem, mal estar ou exibição de opiniões sai de cada um e não deve esperar em resposta semelhança, colo, disponibilidade física ou mental sempre.
Saibamos viver esperando e alimentando apenas a nossa própria compreensão para que, quando ela surgir dos outros ser sempre só um acrescento feliz e não a razão da própria felicidade.

A todas as Didis desta vida

Na vida, com a busca incessante do crescimento organizado, planeado ou por forma das circunstâncias imposto, cruzamo-nos com Didis que vão ensinando algumas lições. Eu até engraço com as didis. Também já fui certamente uma delas. Agradeço a posse de algumas jeitosas faculdades mentais que hoje me fazem ter abandonado esse campo pantanoso e assumir em pleno a solidariedade, compaixão e necessidade primordial do bem, para que esse bem também me alcance, nunca da forma como se queria mas no sentido do bem estar sem méritos ou justiças advogadas.
Por estes dias, vendo esse elemento didinozo, não senti culpa, raiva ou sentimento de revolta. Silenciosamente agradeci-lhe e agradeci a mim em maior escala pela capacidade integrativa e de prossecução de ideais maiores. O seu aparecimento, que tanto incorreu em queixume, foi igualmente necessário e contributivo para iniciar sólidos caminhos. Caminhos que não se fixam em atribuir culpas, viver numa escala de projecção de responsabilidades dos outros para mim, mas sim de mim para os outros. Assumindo-me no centro. Da decisão, acção e integridade. De existir voz e agir para pedir princípios e valores quando igualmente se rege e os exerce, sabendo que há um papel e em cada papel, direitos, deveres e, repito, responsabilidades.
Essas queridas didis foram cruciais nisso. Tornaram-se no despertar do que havia para nascer que estava sombrio e em segundo plano, silencioso mas em movimento secreto. Agradeço tanto a sorte e beleza que me envolvem, como as tristezas que sacodem. É que havendo apenas uma estética de harmonia, não sei se era perceptível criar sentido, ir ao fundo da nobreza dos sentimentos e manter a linha firme daquilo que é não mudar o acreditar e a esperança por ninguém, além da que nós próprios criamos, alimentamos e nos faz sonhar ingénua e alegremente. E a isso, não quero nunca deixar de ser fiel.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Cosmus

Há muito muito tempo no séc. XVI, existiu Giordano Bruno, um frade italiano que morreu queimado na fogueira sob condenação da Inquisição, por convictamente ter defendido ideias científicas de astronomia e filosofia, absolutamente contrárias às da Igreja Católica. Acreditava na existência de almas, na pluralidade de mundos e que vivíamos num contínuo infinito que onde quer que procurássemos a tal divindade, ela estaria sempre perto de nós, num lugar no nosso íntimo. A visão ampla formada sobre o que nos rodeava, num século tão dominado por dogmas, poder e rigidez do catolicismo, foi um exemplo de coragem e firmeza da sua intuição e pensamento audaz. Ou para os outros, apenas de loucura e heresia. Giordano veio abraçar muito para além das ideias da teoria de Copérnico, um astrónomo polaco que trabalhou a tese de que a Terra não seria o centro do Universo, pois no seu lugar estaria o Sol, o verdadeiro centro.
O exemplo destes pensadores que se situaram a muitos anos luz do seu tempo, ainda hoje nos pode trazer manifestos contributos mentais, mesmo que um tivesse ousado a sua vida pela defesa (Giordano) e o outro não (Copérnico).
Vivemos uma vida onde nos julgamos o astro rei de uma dada galáxia, exigindo, querendo, forçando até ao limite, não respeitando a naturalidade, diversidade e a evolução do contínuo questionamento interior. A mente quer acreditar apenas no visível e palpável, reduzindo as probabilidades, o sem fim de conhecimento e surpresa que é a vida, a um conjunto de escolhas ou certezas finitas. Esquecer que estamos incluídos em algo maior que pode ser visualizado na escala de um país, continente, planeta, sistema solar ou galáxia fez-nos ficar talvez mais passivos, mesmo que paradoxalmente a realidade se instale através de ecrãs nos sofás das nossas casas. 
Sinto-me grata por estes astrónomos terem existido, desafiando as ideias certas do seu tempo e por tal trazerem o progresso e evolução de todos nós. Hoje em dia parece que tudo pode ser contrário e rápido, a informação brota de inúmeros lados, mas o verdadeiro arranque e alavanca consistiu quando a procura do conhecimento precisou de coragem e de trabalhar a uma velocidade tão infinita e credível quanto o Universo.
Somos um produto de pó de estrelas colocado num imensurável caos organizado. E por tal, nunca me senti tão grata e incluída na minha própria pequenez.

sábado, 26 de novembro de 2016

Embotamento cerebral

A constante chuva de acções destrutivas, violentas, corruptas, descredibilizantes do que deveria ser sempre ético e credível, aliada a uma ensinar para obedecer e nunca questionar, estão a massificar os cérebros humanos com o maior embotamento cerebral que há memória. Não vivemos em ditatura, não existe sequer uma policia de vigilância e defesa do estado que controle acções opositoras, mas os reinos legais e democráticos produzem algo há semelhança das vacas em fila no matadouro. A capacidade de exclamar, ter opinião própria exprimida em respeito, surpreender-se com tratamento inferior face a uma data de capacidades e escolhas. É-se ensinado a não contestar, agradecer muito encarecidamente a Deus o facto de ter emprego, tecto, etc, quando o que se deveria sempre agradecer é ter ideias que pensem e nos façam VIVOS e agitem! Que confusão com os conceitos de humildade e gratidão quando o reconhecimento dessa beleza vem de se saber quem é e o que se tem, num passado, presente e futuro em íntegra concordância. Preocupa-me o mundo estar a criar estas vacas em matadouro. Que somos nós, alguém que conhecemos, ou pode ser um filho ou amigo de um filho. Vamos ter a ousadia de nos preocuparmos realmente com o que andamos aqui a fazer. Para alguém ter sido emissário do progresso, inovação, melhoria, desafio esse alguém não esteve a dormir na sombra do que parecia bem. Esse alguém, certamente não pensou em agradar a alguém que não ele próprio com os princípios que tinha em conta. E esse alguém, definitivamente não teve que cortar as pernas, braços, ou um cérebro (a meu ver legitimamente mais preocupante) para entrar na caixa certa e previsível que é o mundo de quem quer ter tudo previsível e controlado. Preocupemo-nos com o mundo e as nossas vidas a uma escala maior do que apenas o cumprimento dos deveres. Lembremo-nos dos direitos, e do direito maior de ser felizes, respeitados e dignos, para relembrar quem se cruza connosco que isso não tem preço. O preço é a própria evolução da humanidade. E parece-me que é isso que está em jogo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O universo respira a nosso favor

Torna-se recorrente ouvir por entre esquinas e ruas que o universo conspira a nosso favor. Ora conspiração, no seu sentido léxico nomeia um atitude de segredo, concretização de uma acção contrária contra algo ou alguém, reunindo planeamento, enredo ou intriga. Isso para mim representa tudo o que universo não é, diz, ou faz. Tudo o que nos rodeia tem uma verdade clara, está disponível, simples, acessível, decorrente de milhares de descobertas e contemplações. Todos nascemos interessados e interessantes e com o tempo, contexto cultural, estimulos, afecto e experiências pessoais divergimos naquilo que nos afasta do nosso objectivo puro que é ser e descobrir. E criamos em nós maldade, acomodação, rigidez de ideias e posturas, egoísmos maleficientes e fraquíssima inteligência emocional que nos prende a atitudes conservadoras, preconceituosas e de uma estreiteza e sofrimento mental atroz. Sonhamos com a segurança quando só deveriamos estar seguros do propósito máximo de que ela é tão ilusória como todas as correntes que nos consigam limitar a ver mais além. Gostamos de romancear e atribuir um sentido lógico dizendo que nada é por acaso, mas não nos conseguimos entregar em pleno a tamanha afirmação quando a verdade nos dói ou entra num compartimento desconhecido. Indagamos a causa mas não colocamos em questão o que realmente teremos a aprender, retirando o melhor de tudo o que nos atinge, para consequentemente ser melhor naquilo que se dará. Portanto, estando ciente destas inúmeras certezas, só posso opiniar que o universo não conspira, ele respira connosco. Dá-nos acontecimentos naturais e encadeados, recheados de lições e oportunidades que só são possiveis com total gratidão e receptividade ao que quer esteja nos nossos caminhos. Claro que pensando em catástrofes ou doenças malignas é sensatamente impossivel recebê-las de braços abertos sem revolta, mágoa ou sensação de plena injustiça e dor. Refiro-me concretamente a tudo o que nos motive a criar uma riqueza interior tão forte que não se materialize em bens mas se materialize no BEM. Envolvamo-nos de coragem, liberdade, consideração pela vida, compreensão, capacidade ampla de pensar e altruísmo generoso, e veremos, de facto, o que nos trás. 

sábado, 19 de novembro de 2016

É comum que todos somos muito do lixo que trazemos, do destino que lhe demos, dos valores e princípios incutidos, continuamente solidificados e colocados em acção nos contextos de relações pessoais, sociais e laborais. Será sempre estranho quando em algum destes contextos uma pessoa não conseguir ser correcta, mas preencher os outros. Parece-me que todos estão em ampla simbiose e revelam a integridade e não aspectos de personalidade orquestrados em molduras personalizáveis. Com tudo isto, o que me apraz dizer é que ninguém é assim ou assado porque o paizinho fez isto, bullying aqui e ali, traição inacreditável do namorado mais querido, situação de doença própria ou de terceiros, uso óculos e aparelho na adolescência, entre outros determinantes não agradáveis mas que em nada contribuem para o TODO da pessoa. Esse todo, implica maturidade. E a maturidade é perceptível na forma como age para si e o mundo e não só em momentos. E esse agir, transparece reflexão, capacidade de introspecção para autoanalisar, que saudavelmente permitem a reciclagem de emoções, colocar raiva, orgulho, inveja definitivamente num buraco negro e saber pedir desculpa, ser humilde, impôr limites com base no respeito próprio, que não vem de magoar alguém intencionalmente ou de apenas perceber os seus próprios pontos de vista. Ser tocante nas vidas com que se cruza porque se aprendeu o poder da empatia, na sua incrivel capacidade que é a de partilhar e ouvir sem julgar, não transmitindo esse julgamento por qualquer via.
Não somos nada do que fizeram de nós, a não ser o que nós próprios fizemos com isso. Se o destino foi ser amargurados, nervosos, desconfiados com a vida, por mais pessoas e situações bondosas que nos sejam colocadas no caminho, vão-se corroer com esta instabilidade.
Permitir o altruísmo, positividade, aprender com a mudança e as dádivas dos outros e encarar a vida como um fluxo de dar e receber sem pretensão de justiças, divindades ou falsas protecções pessoais sabendo que só com a permanência de humildade é que somos melhores. Quem se quer proteger, faz um seguro, usa preservativo, entre outras atitudes legal e pessoalmente possíveis. Quem se quer proteger - e também aos outros -  nunca é rude, agressivo ou desconfiado. Nisto a ingenuidade e abertura alegre é protectiva, pode ser contudo uma rede de pesca por arrasto onde não se consigam diferenciar bem os peixes mais podres dos límpidos, mas ajuda. Ajuda acreditar que as pessoas tendem ao amor. Querem o bem ao outro e fazem por fazer o bem. A não agir mal porque lhe agiram mal. As escolas, manuais de auto ajuda, catequeses e instituições religiosas, muito tendem a apregoar este facto. Por outro lado, os tribunais, prisões e hospitais psiquiátricos são os locais que nos fazem acreditar que por vezes esse amor não existe interiormente ou não foi sequer transmitido ou devidamente ensinado. 
Lá pergunta o outro apresentador de TV, o que dizem os teus olhos. 
Julgo que os meus podem dizer que só sou feliz porque sei o que é a bondade. Porque saber é simplesmente reconhecê-la e exercê-la. Contínua e naturalmente. E isso é a significativa diferença entre quem é bom e quem apenas o tenta.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A mulher sofisticada em jeito natalício

Por esta altura, quando me permito chegar ao centro comercial ou a qualquer agregado contínuo de comércio global por onde passeio, necessito de um forte shot natalício ou um de um soberbo risco de cocaína-santa para conseguir aguentar.
Deparo-me com anúncios da mulher sofisticada, elegante, regojizada e realizada na imensa felicidade e exigência que é dominar as artes do uso de malas, joias, perfumes ou menos rugas. Parece um paradoxo dos tempos modernos. Que a imagem que se projecta da mulher que se quer sofisticada seja uma ideia ainda fortemente baseada em status e não no que deveria ser a realidade de uma mulher que reflicta intelectual, ética e afectivamente. A imagem deste segundo sexo como identificava Simone Beauvoir, sempre foi aliada a um segundo plano, quer seja o cuidar, ser dependente, submissa, com menor força física e/ou mental, entre outros tantos clichés e premissas que se misturam. Hoje, com a literacia e aquilo que significou o emprego fora de casa, a mulher cresceu, modificou ideias e posturas. Eu sou mulher e não reclamo igualdade naquilo que é o facto rígido que me separa geneticamente de um homem, com as suas inevitabilidades ou consequências. Sou grata por em termos geográficos e culturais não sair à rua e esconder o corpo, ou fugir de violações e crimes que não perpetrei, mas tenho que respeitar a genética que não possuo. Assim como o homem respeitar a genética que não tem, traduzindo isso em respeito prático e em leis e normas que protejam grávidas e vulnerabilidades às quais só o nosso corpo pode sucumbir. A mulher sofisticada é a primeira a nunca tratar mal outras e a um homem, na posição da pura discórdia e estabelecimento de desníveis irreais. É a primeira a saber que, por debaixo da roupa todos somos pele e coração, amamos e somos amados, tornamo-nos pequenos, grandes ou assustados. Ninguém é o que exerce e usa. Sabe que, com a inteligência aliada a sensatez e bondade, pode ter o que quiser de quem quiser. Nomeadamente, o respeito.
Entenda-se isso e sigamos em frente com acções de marketing que inspirem o simbolismo do que se use por dentro e não do que se use por fora.  

"A sofisticação é o último degrau da simplicidade" - Leonardo Da Vinci

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Diferença entre sensibilidade e hipersensibilidade

É comum o facto de que determinadas pessoas se ofendem e compadecem com o condão da palavra. Pessoas que são protegidas ou temidas pelos demais e que por vezes contam com a amabilidade alheia do tom caridoso do "ele é muito sensível". Gostaria prontamente de me manifestar sobre tal. Existe uma diferença entre alguém que é sensível, contrariamente a alguém que é hipersensível e que a meu entender, muito se confunde. Os sensíveis não são vulgares florzinhas frágeis para estar expostos ao ar da vida. De facto, a emoção proporciona muitas vezes uma leitura mais humana e que nos aproxima empaticamente dos outros. Já os hipersensíveis, têm seriedade em demasia perante os outros, estando convictos, rígidos ou paradoxalmente, combalidos e submissos.
Ora vejamos.
Podem afastar situações emocionalmente tocantes por precisamente essa vertente se antecipar. Vão-se emocionar, despir, obrigar a estarem nus diante do desaparecimento de uma data de artifícios de fuga. Interpretam erradamente a realidade com base naquilo que anseiam e projectam o que fazem favor de fazer acreditar na plateia, de modo a ser verdade para si. Na inevitabilidade da máscara cair, procuram-na no sentido de continuar firmes na ausência da verdade que dói.  Por outro lado, existem também os hipersensíveis que absorvem o clima de determinada área como seu, não conseguindo discernir que ninguém é desumidificador dos outros. Compadecem-se e ficam à mercê de um estado de emoção que não é o seu. Mesclam identidades, pertenças, afirmações.
Que não se pense que quem se emociona (por emocionar não refiro o choro e comportamentos mentalmente perturbados) ou revela transparência no aguerrido das emoções mais vulneráveis, é um coitadinho que tem menos força para lutar ou encarar o mundo. Ele precisa de muita sim, para poder afirmar/exibir isso perante os outros. num contexto saudável e lúcido daquilo que são os acontecimentos que a vida pode leccionar. Podermos pensar usando emoção e vice-versa, é demonstrar o quanto precisamos desse binónimo para ir continuamente ao fundo de nós, e com isso, melhorar quem somos num contexto de frutífero conhecimento. É um dom para vida, estar atento e receptivo aos seus sinais mais pequenos, que de tão fortes fazem tremer as raízes, colocando em permanente florir. Assim como, saber onde acabam os nossos limites e começam os dos outros, é absolutamente imprescindível para todos não estarem sob o mesmo guarda chuva aberto na deriva da tempestade que caí. Com isso, o hipersensível encarrega-se de entrar em cortejo diverso quando não o precisava, submetendo o seu bem estar, por não dissociar que o que pertence ao outro, não pertence a si.
A sensibilidade permite-nos também estar atentos a tudo o que somos, damos e recebemos. Esta não pode ser concebida como um par de óculos que pintem o mundo mais cor-de-rosa, porque para tal julgo que poderemos antes qualificar o que existe de fantasia, imaginação, criatividade ou inocência. A sensibilidade não precisa de óculos. Ela é em si, o que já está impregnado no olhar, para ajudar a compreender a realidade com a união do sentido do coração e racionalidade da mente, E sabendo que, para existir hipersensibilidade, algum destes dois lados teve de ficar claramente mais desfavorecido.

Uma das maiores prendas educacionais para um filho

Para pais e não pais de todo o mundo que se atrevem humildemente a realizar o seu caminho na compaixão de que nada se sabe e substancialmente muito pode mudar, ocorre-me dizer que desde há uns tempos me detive numa ideia. Aliás, numa sólida ideia. Existem factos inabaláveis e inquestionavelmente construtivos do ser humano, como seja crescer num ambiente calmo, pleno de amor, afecto, com sentimento especial e vínculo significativo que una positivamente todos. Assim como proporcionar, dentro do sistema moral e cívico de cada um, o melhor que os pais consigam transmitir.
Contudo, não sei se existe algo que vão declinando ou não, conforme o apego e não autonomização dos pequenos, que se chama, educar para decidir. A educação para decidir é preciosa e vital e talvez seja mesmo uma das maiores heranças educacionais. Nela é necessária uma dose grande de coragem, para ajudar os pequenos futuros adultos naquilo que é a responsabilização através do seu olhar.
Por certo, sabemos que a responsabilidade é induzida em qualquer acção para o próprio ou terceiros, mas do que os pais não se lembram é de que, o futuro é moldado pela capacidade que a criança adquiriu em saber decidir (e bem decidir). A responsabilização pede que não se substitua ninguém naquilo a que o próprio é indispensável. E só decidindo se percebe o peso das consequências e só sabendo o que são as consequências é que se consegue decidir. Quase como a intrínseca ligação entre experiência e decisão, decisão e experiência. Uma completa a outra e precisa simultaneamente dela. E não me remeto ao plano da comida, roupa, entre outros bens. Falo da responsabilização progressiva. Porque saber educar a decidir é muito duro. É duro ver um filho a seguir algum caminho que se julga não ser o melhor (e atenção que aqui nem sequer entra campos de risco de vida ou algo similar) e ter a coragem de não agir. Assim como deve ser duro ver um filho a não agir e actuar para o fazer pensar naquilo que está a fazer.
Educar para decidir é colocá-lo como a pessoa mais importante da sua própria vida e transmitir-lhe garra e dinamismo para ser o seu melhor. Não o melhor que alguém imaginou ou as projecções de medos e sonhos. Isso é não respeitar a pessoa que se está a criar, como alguém que vai ser um prolongamento da mão, quando ele já tem as suas duas. E entendo que tudo isso se baseie no amor e medo, onde um e outro toldem a visão e fiquem tão perto que não permitam distinção e controlo. Parece-me que as noites se dormem muito melhor quando se consegue ter os filhos moldados por rédeas do conforto e comodidade. Mas viver em constante conforto, como alguém que pode seguir um traço da linha porque vê sempre o rasto do lápis por baixo, é como viver a vida com anotações, post-its e subterfúgios. E isso não é educar para decidir, através de tornar alguém competente, confiante, individual. É educar para ser esse contrário.

domingo, 13 de novembro de 2016

O Alfredo namora com a Genovevazinha.
Genovevazinha tinha uma amiga que gostava de Alfredo.
Alfredo tinha um amigo que gostava da Genovevazinha.
Esse amigo que gostava da Genovevazinha, já namorou com a prima do Alfredo.
A prima do Alfredo, conhece das aulas de piano a Genovevazinha.
O amigo nunca se declarará à Genovevazinha porque namorada de amigo é homem.
A amiga nunca se declarará ao Alfredo porque namorado de amiga é mulher.
A prima do Alfredo ficou sempre na dúvida sobre quem gostava de quem e não a quis esclarecer.
No final, não importando os pressupostos éticos, o amor falará mais forte, na sua anulação ou florescer.
E o único argumento, que separará tanta tolice junta, é o facto de que tudo é tão insignificante, perante aquilo que é o próprio ser.
(Ou a nossa própria finitude).

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

"Nothing last forever, even a cold november rain"

Vendi o espaço deste título num supermercado

Hoje fiz-me entrar num daqueles supermercados que só não conseguem vender honra e dignidade e deliciei-me com o banquete de necessidades em montra. 
Quase senti um calafrio inoportuno, pensando na minha extinta bisavó que viveu numa aldeia perdida no interior do país, que já de si, também está perdido de Portugal. Retomando a ideia, recordei a minha bisavózinha porque também ela ficaria entorpecida com a intrigante panóplia de decisões que se afiguram em compras num grande supermercado, quando a vida antes só permitia divagar entre o necessário e o óbvio. Não no tipo de presunto, tomate, granolas ("que é isso filha", parece que a ouço a perguntar), postas de pescada ou fraldas de cores, texturas e cheirinhos. 
É caricato este peso que colocam no vulgar contribuinte, estando ele atormentado na gestão do dinheiro volumoso do seu bolso, não podendo simplesmente optar por A, tem o alfabeto inteiro perfilado para escrutínio. Para ler rótulos, sentir a estética e necessidade promíscua do marketing e quiçás, não encontrar a menina oprimida que observa na esperança de nos borrifarmos para a existência do novo queijo que lhe paga o aluguer da casa (ou do quarto?).
Enfim, é a súmula desta vida. As pessoas julgam estar com maior capacidade de escolher, envergar direitos e consciências, mas não percebem que muito do progresso nos empurrou para pior. Nunca estivemos tão ensimesmados nas nossas escolhas e com tão pouca informação clara. Os gerentes dos supermercardos têm fortíssimas dores abdominais de tanto rirem dos comuns consumidores, pois a confusão está instalada e tão bem orquestrada, que julgamos ser nossa a palavra final. E não percebemos que, nesse final, nós é que somos o seu maior produto em venda.
(E agora ocorre-me uma epifania... parece que não é só nos supermercados).

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

No decorrer das prendas imateriais que possuo felizmente em todos os dias do ano, o céu brindou-me hoje com uma especial. A lua congruente, afirmava comigo um vigoroso quarto crescente, mas nesta noite eu poderia jurar que ao traçar o diâmetro e percebendo o raio, as contas seriam sempre similares, em termos da exibição orgulhosa da metade exacta, do lado escuro e o lado visível.
O que me fez pensar em algo muito importante.
Quando somos mais jovens existem vários momentos novos, plenos de descoberta, incerteza e em que a entrega não pensa imediatamente no peso das consequências. Sente-se, respira-se sem hesitação e na inocência do que há para viver. Com o passar dos anos vamos ficando antiquados, subjugando o peso da nossa história e do ego com que resolvemos nela agir, afastando, não abraçando, vivendo de dúvidas, suspeitas, pessimismos ou confortos delimitados, nada plausíveis com a potencialidade e surpresa que a vida tem para presentear.
Talvez esta lua esteja assim hoje para dizer que, por muito que sejamos luz, preenchimento e alegria, existirá sempre a seguir-nos saudavelmente um espaço escuro e não revelado, que em nada representa medo e terror, mas sim a necessidade imperativa de vivermos na possibilidade do desconhecido. Seja ele conhecer-mo-nos nos maiores limites onde não nos julgaríamos, viver uma vida sem expectativas e exigências aos outros e ao que possam ser, uma obediência cega a  posses, ou descobrir que um lado negro e de luz estão juntos para nos fazerem sempre muito mais completos. Tenho aprendido igualmente que estamos mais sozinhos do que julgamos, não no sentido do amor e afecto ser desvalorizado, mas porque somos lançados neste lindo mundo com a pretensão de descobrirmos que damos o que temos cá dentro e só sabemos aceitar e estar no aqui e agora livres, quando tudo chegou ao destino sem esperar o mesmo em troca. Não utilizo o sozinho rejeitando as pessoas. As pessoas são essenciais, nos relacionamentos que nos dão, para ensinar que só com muito amor partilhado um percurso único tem chão para ser feito. Por isso é que o amor e a felicidade são tão fortes. São um estado de partilha contínua, sólida, que nos envolve e só vem a nós quando é trabalhado em várias direcções, cuja responsabilidade é primordialmente nossa. 
São pequenas e grandes lições que, embora não tendo hoje um aspecto e posses físicas congruentes com o capital e envergadura estimado dos 30 anos, tenho a mente e o espírito altamente agitados e em progresso. E isso para mim, faz-me não ter uma pertença na idade. Faz-me ter com a vida.

domingo, 6 de novembro de 2016

Ode aos 29

Há quem diga que os anos não se compartimentam na passagem de 31 de Dezembro a 1 de Janeiro, mas sim que se iniciam no dia de aniversário até ao outro seguinte. Hoje não se trata de aniversário, mas de alguma forma sinto que tenho de congratular o que os quase vividos 29 fizeram por mim. Para os entendidos na astrologia, aos 29 acontece algo que se chama o retorno de Saturno, um planeta que precisa de 29 anos para fazer o mesmo movimento que a Terra faz à volta do Sol num 1 ano. Corresponde a um ciclo de agitação e crescimento que atribui pesos, decisões, responsabilidades e mudanças. Algo como uma ambivilência produtiva na reflexão entre o que a vida deu e o que lhe demos, e sobretudo, nessa substanciosa aprendizagem, perceber o que com isso queremos ser e agir.
Valorizo tanto os pequenos e grandes momentos de felicidade, que sei como o sofrimento sempre me moldou muito e trouxe, no meio dos seus vendavais e chuvas cinzentas, as contribuições fortíssimas para apurar o que ainda estava verde e carente de acção.
Acredito que para muitos o que relato não signifique necessariamente um acontecimento de 29 anos. Todos estamos sujeitos aos tormentos de imprevistos, previstos e momentos que perfazem a fluência e ritmo da vida. E para nossa sorte, no sentido de crescer e aprender, devem existir e marcar integrativamente, desde que nos permitamos ter inteligência suficiente para tal.
Posso afirmar que os 29 foram um misto incrível entre sofrimento e crescimento, e refiro-me ao sofrimento como algo produtivo e não como uma bandeira mártir e de vitimização, que em tempo algum foi companheira de quem pretenda ser feliz. 
Somente quem se permita atravessar, mergulhar e entregar naquilo que dói, não sabe e quer mudar, ganha coragem, resiliência, amor e entrega com conhecimento. Ou humildade, lucidez e o infinito por dentro. Não sei se podem ter sido essas todas as minhas lições. Sei que muitas mais ficaram aqui a ser plantadas para colher na melhor altura. E não será a altura em que surja alguém, algo ou a fantasia de um futuro mais auspicioso.
Porque auspicioso? Auspicioso sou eu.

sábado, 5 de novembro de 2016

"Se não me interessar pelo mundo, este baterá à minha porta pedindo-me contas." José Saramago

Há muito tempo, estudiosos da área transmitiram o aviso de que a inteligência, mais do que uma capacidade de raciocíno de situações complexas, decisivas, vitais, de aprendizagem e aplicação complexa ou abstrata é uma capacidade evolutiva e adaptativa, recordando o perseverante Darwin com a sua teoria da selecção natural. Teoria que, na superioridade narrativa que adopta o ser humano, julgar só acontecer para com os pobres animaizinhos das ilhas galápagos.
Que perspectiva evolutiva há para o mundo onde uma grande parte do mesmo, que tem acesso a cultura e informação, percorre o dia no feed de noticias do Facebook? Em que as preocupações se subjugam a interesses quotidianos, que não sejam publicitados em larga escala, ou repare-se, quando não há união de figuras públicas a alguma causa que os desperte? Quando os 2º e 3º ciclos de estudos não traduzem sempre um crescimento contributivo e aplicado na prática? Não me quero colocar como uma virgem estarrecida perante o mundo que também é o meu, e na qual posso pecar e orar simultaneamente, mas vejo-me na obrigação de exprimir que na constituição de qualquer país civilizado devia  zelar o seguinte dever: CULTIVE A SUA INTELIGÊNCIA.
A nossa casa não se trata só do m2 que com esforço pagamos todos os inícios de mês, ou com sorte (ou paternalismo da vida) não se pague. A nossa casa é todo este mundo maravilhoso onde a cada minuto algo muda, algo acontece, algo há para saber. Algo que foi que pode ser sempre procurado, lido, estudado, reflectido. Da filosofia à religião, da política às ciências naturais, das artes à história da humanidade ou do cosmus. Quem somos nós para vir aqui e não nos interessármos?!
Quero cultivar árvores com raízes densas na inteligência ao invés de nesse precioso lugar ter um campo abundante de estrume que nunca fertilizou.

Aprovação por parte dos outros

Resultado de imagem para sartre e beauvoir

"Concedemos um carácter mais real à forma como os outros nos vêem do que à forma como nos vemos a nós próprios. Assim, estamos a ver-nos a nós mesmos como um objecto, perdendo a essência de quem realmente somos."
Jean-Paul Sartre

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Empowerment, o caraças.

Temos, na língua portuguesa, alguns estrangeirismos que adoptámos com orgulho, tão versados que somos em falar bem o inglês entre outras línguas que permitam demonstrar, qual habilidade de circo, o quanto o QI roça limites dignos de exclamação superior. Pois bem, focalizando um pouco, apetece-me dizer algo.
Hoje em dia há empowerment para tudo. Só de dizer a palavra, sinto-me inundada subitamente por uma fortaleza de aptidões, carácter e capacidades.
Vou citar exemplos.
Quando desvio a minha bicicleta do local habitual, para a empregada de limpeza do prédio realizar o seu trabalho mais afincadamente.
Quando elogio um micro passo, dado por uma micro pessoa, num micro espaço de tempo.
Quando se fazem pesquisas no google para diagnóstico, estatística, promoção de ideias, factos e filosofias de bolso fáceis de divulgar.
Quando existem reuniões de serviço, questionários de satisfação, boletins de voto ou o canal da assembleia em divulgação livre.
Quando me voluntario por causas, de preferência nobres, mui nobres.
Quando ajudo alguém a escolher, sendo dele a autonomia.
Quando sou eu a escolher, lembrando-me que é minha a autonomia.
Entre outros, outros e outros.
Será preciso muito para simplesmente admitir que, aqui por baixo, todos os dias, são dias de luta pela sobrevivência?! Do corpo, da mente, do espírito, de quem somos...
Empowerment, oh caraças! Termos laureados para florear o facto cru e duro de que, viver, é decidir a todo o momento. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Um novelo emaranhado

Pareceu-me uma grande novidade avistada no horizonte, assim que o meu cérebro denotou a realidade que é trabalhar hoje em Portugal. Consigo sentí-lo na identidade de pessoas próximas, que ao recordar há muito anos atrás, se demonstravam felizes no meio laboral. Dizem-me algumas vozes mais pacíficas que se deve acalmar a revolta porque, enfim, não estaremos nós nivelados como Etiópias, Vietnames e outros que tais. Mas daí secalhar surgirá mesmo a revolta. Um país que floriu de um Abril apinhado de cravos, direitos e ideais, é o mesmo que se verga perante uma qualidade de trabalho decrépita face ao que são as qualificações e o próprio bom senso e solidariedade que dizem que abunda ou nasce subtilmente com o ser humano. A gravidez não é um acontecimento natural, trata-se de algo paranormal do campo do impensável ... as doenças e baixas quando acontecem são uma lástima, já que programados que são os humanos quando nasceram de uma vagina ou barriga robôtica, não constaria tal no manual de instruções. Um recibo verde foi chamado assim para simbolizar alegremente o verde de esperança, quando nada mais acalenta a passagem para uma vida profissional estruturada. E o esforço interior que fica nas longas horas passadas, não tem muitas vezes paralelo com o recibo de vencimento. Muito está em modo conta gotas, com filas de espera anuais em parelelo com pedidos inquietantes que ordenam que seja para ontem, proliferando o desejo de que ninguém faleça, para não faltar ao trabalho no dia a seguir (é que é muito engraçada a idade de reforma, estou-me agora a lembrar). Quando os humanos inventaram esta transição de competências por bens, qualificando-o de trabalho, seria mesmo isto que tinham em mente? Criar um mundo insano, onde a mesma hierarquia que contrata é aquela que não actua nas condições que fornece? Haver conjuntos de pessoas com medo, preterindo a sua saúde mental ao seguimento cego do que tem de ser feito? Existir sofrimento crónico que advém do não se conseguir lidar com o stress a que se vai ser exposto? Figurarem estudos a médio, longo prazo, investigações, etc mas os rácios, distribuição equitativa e respeito ficarem aquém? Não.. dá-me ideia que não foi para isso que inventaram o trabalho. Não me esqueço que todos temos direitos e deveres e que existem trabalhos que compensam abonatóriamente mais uns que outros... Mas trata-se somente de um ponto de vista irredutível... o trabalho foi feito para servir o interesse do Homem. E não o contrário.

O passado e o futuro de tempo nenhum

A forma como se encara a vivência dos tempos verbais e a inclusão destes para extraír o agir e estar nas nossas vidas, influencia grandemente a saúde mental de cada um. Um presente polvinhado em sentimentos amargurados, de culpa, arrependimento e em permanente dúvida ou equacionamento do passado, oferece que contributos? Da mesma maneira que, um estado contínuo de projecção futura do que ainda não se viveu, oferecerá realmente o controlo e sossego pretendidos? Serão raros os que vivem no agora, centrando o agora das relações, consigo, com outros e nas escolhas que fazem. Apesar da ligeira menção e não querendo aprofundar os conceitos de carpe diem ou de hedonismo, o que pretendo esclarecer com o viver no agora, é a honestidade e lucidez de estar numa mente mais livre e limpa. Porque uma mente refém do que fez no passado ou do que ainda não sabe do futuro, está sozinha, longe de si e do seu melhor. Está polida apenas com a prisão das suas próprias expectativas e frustrações. E estar no agora, não significará alhear-se ou negligenciar tudo o que teve a aprender com o passado, ou não se preocupar de forma saudável com o futuro. Trata-se apenas de um entendimento cordial e tácito entre todos. De entender que, a sabedoria que provém do que teve de acontecer habitar num lugar único, ao qual há que deixar ir para nele conseguir florescer a liberdade. A coexistência pacífica com o futuro, na ideia de que, só sendo amplos e inteiros com o agora, poderemos estar mais bem preparados para enfrentar o que quer que chegue amanhã que não saibamos. Embora seja premissa que os seres humanos são racionais, Aristóteles defendeu que a racionalidade é em si uma capacidade que precisa de ser desenvolvida através do hábito e prática. Parece-me que é urgente aprendermos a viver no agora, nesse agora que nos permita trabalhar respeito, congruência e bem estar. E, em tudo o que seja atraído por nós de diferente, que saibamos usar por fim, dessa aclamada racionalidade.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Elogio aos loucos

Este texto é para todos aqueles que fazem a diferença na vida de alguém. Na diferença difundida pelos círculos por onde se movimentam, ou talvez possa nomeá-los de quadrados, rectângulos e tudo onde exista um vértice em pleno na normalidade que se passeia. Este texto é para os que são chamados de peças, personagens, entre outros eufemismos refrescantes. É para aqueles seres enormes cheios de luz num local acinzentado e surpreendentemente adivinhatório do que vai ser dito. Para quem agita com novas cores, propostas ou exaltações interiores. Os que não passam de modas, nem são de modas. Contudo, que não se confunda com povoamentos de raiva e assuntos mal resolvidos que fazem surgir respostas em torpedo, que em erro de encaminhamento, acabam por ser mais sentidas pelo emissor do que pelo receptor. Remeto-me a a discursos, monossílabos e figuras de pensamento proferidas apenas por quem tem clareza, inquietação, ironia e inteligência suficiente para colocar os outros a admirar, pensar ou preocupar pelo níveis de insanidade mental discrepantes do seu quotidiano. Esses fazem falta, muita falta para este belíssimo mundo. Precisámos ao longo da história de várias contribuições dadas por pessoas para a ciência, paz, humanidades, entre outros. Mas no micro mundo onde a vida é realizada em menor escala, precisa-se urgentemente de gente louca, disposta a marcar com criatividade e humor aquilo que floresce dentro delas e aos outros é tão necessário ou estranho. No dia em que (me) faltar loucura, seriamente me preocuparei com a hipótese grave de estar a ficar doente e senil.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Quando eu era espiritualmente menos evoluída empregava a palavra azar. O azar, esse que aparecia sem convite e que de forma displicente, dispunha e irritava no que tinha de menos firme. Hoje, com o decorrer das lições que autonomamente me predisponho a fazer, descubro que a palavra azar é rígida e pouco contributiva. Surge para enredar toda esta significância e colocar as pessoas numa torrente de energia negativa pelo mundo ou circunstâncias. Devolve pouco do que é a nossa acção individual e atribuí tudo a uma justiça irreal que se julga que o universo prontamente concede. O azar é o lado inverso da vida. É o que se vê por trás de um bordado, o entrecruzado de linhas e linhas sem beleza aparente. É uma série de imprevistos que contribuíram para sermos melhor do que estávamos predispostos a ser. É a parte do copo vazio que auxilia a ver o quanto está cheio. Azar é esquecer que o mar tem ondas, tempestades e atritos, para poder ser límpido, espelhado e calmaria. Uns revelam o que de melhor são quanto melhores as circunstâncias, há outros que, quanto piores as circunstâncias mais constatam reflectidamente que não têm azar. Têm discernimento, força, resiliência e superação emocional. E isso, nunca, mas nunca se poderia chamar azar.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Postais da vida



Pontualmente envolvem-me saudades desse passado que lá foi, não remetendo de modo objectivo a uma pessoa, mas na mistura harmoniosa de todos os momentos de felicidade em que a imperava a união, conforto e ingenuidade, e em que o estar e ter por perto, era tão seguro como a flutuação interminável dos dias e noites. Ainda me recordo das manhãs enevoadas, das noites pintadas de luar com o som do motor a iniciar momentos, do sol da tarde na janela, a cadência da alegria, o ritmo das certezas e do coração que ainda maleável como plasticina, envolvido nas descobertas de si e dos outros, sorria quando era aceite e espontaneamente aceitava. Não sei até se posso chamar saudades ao que estou a sentir. Saudades trás-me também um sentimento de querer voltar e embora muito me agradasse abraçar aquelas pessoas e ver inocentemente, sei que não poderia, nem devo voltar atrás. Vivê-lo e vê-lo assim, fez-me o que sou hoje. O play só se faz uma vez na vida. Constantamente falamos de oportunidades que ela concede, mas não referimos que a vida é em si a maior oportunidade de todas. Ninguém faria o mesmo duas vezes, sabendo e não sabendo o desfecho. O livre arbitrio é incrivel, como as sincronias, surpresas, destroçamentos e o crescer. Quando há amor e entrega em vez do conformismo e resistência a vida, esta torna-se uma amiga, professora, companheira e um contínuo presente para descobrir. A vida é força e só quer que nos deixemos fluir para a ganhar e aprender. De vez em quando sabe bem fazer uma homenagem ao passado, se o que resultou dele foi a força de mil músculos no coração e um tamanho maior que o céu dentro dele. E honrar tudo isso com o que somos e fazemos hoje.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Inspirado por - parte II

truthhastobegiven
Maravilhosa capa por Camila Reis

Por vezes um acontecimento pode ser incorrectamente interpretado, não sendo percepcionado como algo que proporcione evolução interior. Seja um questionar doloroso, um abalo sísmico quando reinava paz complacente, a insatisfação de estar preso a tumultos que se pensavam resolvidos ou não desejados. Os sinais são evidentes, proporcionam à intuição aquele canal secreto que só ela conhece para comunicar connosco, ajudando a parar para sentir. Contudo, como se é educado para acomodar no conforto e limites e não na imensidão de receber o que vem do aparente caos, esquecemo-nos de admitir como é necessária a renovação, para quando nos coloquemos em causa, alcançar apenas a verdade e o que com ela nasce de melhor. Estes sinais não surgem para castrar, julgar ou atribuir compensações reclamadas só porque se quer ou precisa... surgem para revelar cada vez mais quem somos, e quanto mais transparente e límpido for o entendimento, constatamos o caminho porque nele nos voltamos a ver. Ser o caminho implica limparmo-nos de variadas crenças, controlos, egoísmos, raiva, ilusão e falta de amor que atingem o mundo e sinergicamente nos atingem, a uns pontualmente, a outros com maior frequência, inibindo de viver com maior simplicidade. 
É isso que me agradaria, de viver mais simples, num mundo de relações sem sub ou sobre interpretações e em que não necessitássemos previamente de nos esconder e perder nas próprias feridas e (in)seguranças, quando o desafio já lançou a âncora. Tomemos muito, ou talvez tudo o que vai acontecendo de impactante nas nossas vidas, como pequenos e grandes pontos de luz que vão formando a nossa constelação, perto de tantas que nos acompanham e de muitas outras que nunca conheceremos. E nesse céu sem fim elas vão apresentando algo em comum. Formam-se e revelam-se no maior e mais diferenciado companheiro das nossas vidas. O brilho inigualável que cada um trás dentro de si.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Ninguém repara o quanto o amor esta a ser dado, recusado ou ignorado a toda a hora.
Numa ignorância que se cria, num distanciamento gelado, num atentar com foco discriminado e intencional.
O amor está em todo o lado e sempre o damos aos outros quando oferecemos o melhor de nós em boas acções e sentimentos, independentemente do vínculo afectivo ou compromisso.
É o que mais se pretende ter e viver e não discernimos que ele já está presente, é em si o vínculo, com uma força inesgotável e que nos liga em corrente universal, que por ser interior, precisa de paz, verdade e reconhecimento para discernir e deixar revelar.
Que feliz sou, de sentir todas as fontes de amor que partem de mim para os outros e dos outros para mim!

domingo, 16 de outubro de 2016

As grandes lições que gentilmente nos sacodem

Uns mais que outros conseguem sentir e observar a certeza de que nada é nosso. Porque tudo o que são pessoas e sentimentos não tem anexado visceral e firmemente, carimbos, vinhetas, assinaturas digitais ou artísticas. Vivemos numa doce ilusão de que podemos, porventura, possuir vontades e sentimentos e adivinhar expectativas ou posições alheias, qual custódia reclamada em amplo espectro. Pois bem, a vida não se coaduna com esta salomónica realidade. Pode existir porém um sentimento de união, fraternidade, cordialidade que conflua na exigência de um mínimo de possibilidades. Seria totalmente aristotélico e contudo inutilmente produtivo. O ser humano também é ser para sonhar, sair, estar e não estar, querer e não querer. De se vender quando a oportunidade surge e de se perder quando fica inebriado em si.  Por isso esta exigência trás em si sofrimento, porque quem sofre é o ego, desamparado, frio, orgulhoso e construtor de ideais. Paradoxalmente a uma lição incomparável de sobrevivência por fome, frio e sede, essa satisfação de funções da maior vitalidade, vem outra que é a de aprendermos a ser totais sem esperar que alguém nos venha completar em afectos, argumentos, companhia ou compreensão. E aceitar assim, tudo o que somos e tudo o que os outros possam ser.

sábado, 15 de outubro de 2016

Miguel Torga x 2

Coimbra, 11 de Março de 1953

Destino

Sozinho, como um sapo que passeia
Por entre a noite cega que o não vê
Arredo os reposteiros de silêncio,
E é mais silêncio ainda...
Mas prossigo esta ronda penitente
De sereno dum mundo adormecido...
Guarda dos versos de quem vive ausente
Dos tesoiros que tem no próprio ouvido.


Coimbra, 5 de Abril de 1952

Ponta seca

Remendo o coração, como a andorinha
Remenda o ninho onde foi feliz
Artes que o instinto sabe ou adivinha...
Mas fico a olhar depois a cicatriz.

Abençoado Eça de Queiroz


"Todavia, Afonso ainda ia longe, como ele dizia, de ser um velho borralheiro. Naquela idade, de Verão ou de Inverno, ao romper do sol, estava a pé, saindo logo para a quinta, depois da sua boa oração da manhã que era um grande mergulho na água fria. Sempre tivera o amor supersticioso da água; e costumava dizer que nada havia melhor para o homem que o sabor da água, som de água e vista da água. O que o prendera mais a Santa Olávia fora a sua grande riqueza de águas vivas, nascentes, repuxos, tranquilo espelhar de águas paradas, fresco murmúrio de águas regantes... E a esta viva tonificação da água atribuía ele o ter vindo assim, desde o começo do século, sem uma dor e sem uma doença, mantendo a rica tradição de saúde da família, duro, resistente aos desgostos e aos anos que passavam por ele, tão em vão, como passavam em vão, pelos seus robles de Santa Olávia, anos e vendavais."

sexta-feira, 14 de outubro de 2016


Rodrigue, quant à lui, il aime entendre des histoires d’enfant


(Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain)

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Sabedoria do oriente esquentada em pranto lusitano

Cabo Mondego

"O movimento das ondas, dia e noite vem do mar... E tu vês as ondas... Mas que estranho! Não vês o mar!"

Somos tão educados, castrados, preocupados, cinematografados e pensativos para as nossas maiores adversidades, desafios e momentos de crise que nos esquecemos que somos todos muito mais do que isso!!! Somos extensão, universalidade e plenitudade pura. As oportunidades surgem e desaparecem conforme a infinitude dessa linha do horizonte sempre almejada e suspirada. A unicidade deveria aproximar e não afastar ou julgar-nos sabedores, aflitivos, carentes. Há tanto para fazer, sentir, saber... Como poderemos somente deter nas ondas, quando o oceano - ou nós na vida, ou a vida em nós - é tão vasto?

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Despertar para o óbvio

Quando se tem verdade, amor, humildade e capacidade de compreensão nossa e dos outros consegue-se alcançar, esperar sem pressa, querer sem fogo que corroa interiormente, e viver sem ânsia das chegadas que não se prevêm. Cada pessoa que se cruza connosco e as que mais intensamente nos tocam trazem consigo o verdadeiro dom de nos despertar para o que de melhor somos. Porque trata-se disso mesmo, de ser num mundo em que a pressão constante nos fantasia e frusta em TER, e trocamos toda a essência da vida neste poderoso e maléfico assincronismo, que consome erradamente em vez de deixar respirar. Ninguém veio cá para ser infeliz ou para no fundo de si julgar que sabe o que a vida tem para dar. Não sabemos, não saberemos nunca e tê-lo presente desperta-nos para as surpresas e reconhecimentos que posteriormente se vão dar, num futuro que vive na base do nosso constante auto-conhecimento. Autoconhecer-se não significa aperfeiçoar-se, pois só se aperfeiçoa o que de ferro ou técnica é feito, caminha-se sim numa longa estrada  de aceitação de nós, dos outros e da vida, onde abundaram sempre folhas caducas, neve, raios de sol, vento e água que limpa, nesse caminho inesgotável que é sentir e agir, sendo livre das nossas piores limitações.