sexta-feira, 15 de junho de 2018

está tão perto
tão perto que o sinto tao tão próximo
ainda custa, ainda existe um caminho de não sei quantas distâncias que me separam de mim a mim
mas já esteve tão longe, já esteve tão tão longe..
que agora quase que o sinto, e não é a escorrer-me pelas mãos...
é literalmente a chegar,
a chegar para receber.
sim, mais do que chegar é a receber.
e aqui estarei eu.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Systema solar

Embarquei num veículo de origem não denominada e naqueles locais onde se entrega impostos ao preço de outros impostos, observo um tigre bem persiano, riscado e listado, exaltado com a vida dentro dele. Indaguei-me se seria fome ou instinto, uma vez que vociferava ao outro aquilo que nem ele estava pronto a entender, tal a impetuosidade do ataque. Que medo daquela criatura pensei eu, arrancando na gestão de três mil mudanças colocadas em timings diversos para a fuga ser protectoramente veloz. Não me era exacto quem seriam os acompanhantes de viagem, mas na vida muitas vezes não se atribui a merecida atenção a quem acompanha, como aos sentimentos que colocamos ao que é acompanhado... Daí que ao parar a viatura nas ruas da minha infância, as visões obscurecem-se como contos de irmãos grimm numa versão mais temerosa. E nessa contemplação da mudança anunciada que é a fabricação das memórias intocavéis, vou caminhando e encontro um cemitério, que embora organizado e dignamente limpo, é dark, preto, tão somente escuro, como as areias vulcânicas de distantes ilhas nórdicas. A regeneração mixada com impulsos de onde devo fugir, a não vontade de depositar flores nas campas do que foi, ou de tirar uma fotografia ao tigre para guardar. Usei todos esses arquétipos, misturei-os naquele balde onde faço a massa de um doce que alimente uma familia e proponho-me a crescer. E isso sim foi o impulso regenerador.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Healthy boundaries

Curiosamente, não estou retida e consumida nas comparações de tempos. Óptimo sinal em como este está, precisamente, comigo no mesmo sentido.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Que cena miuda! Disse-me o homem de Ponte de Barca, chegado em barquinha. Eu que conduzo pelo rio, dizia-me ele, tenho uma perspectiva muito mais ampla que tu. Que posição tão baixa e tão dimuta estás a ver!! A vida é o que se faz quando a perspectiva está na sua melhor forma de apuramento. 

sábado, 2 de junho de 2018

Num daqueles encontros facilitados pela mão fraterna da vida, encontrei o mago Merlin sem barba acompanhado de uma linda fada real. No que tinha de sabedoria ou de espontaneidade de ligação, entendi que existia um espaço castiço para lhe soprar um pouco dos meus desafios internos de quebra nozes e nozes, ao que ele me sugere convictamente que não existe apenas e tão somente o partir a noz, mas toda a problemática que se agrega em retirar pedaço a pedaço, tudo aquilo que quer ficar agarrado e visceral à casca. Nisto, remeto-me a memórias não muito longínquas do processo alimentar desse fruto e surge a concordância em relâmpago, sendo que o meu plano simbólico ressoou com o aviso "não é somente partir para abrir o que há por dentro, como é da tua responsabilidade assumir o interior e não resistir, ficando agarrado ao que já não precisa de ser teu, seja lá isso teu ou dos outros, embora numa noz, quase tudo é teu". E fez-se luz. Ou melhor... digestão.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Iniciei o dia com uma cefaleia produto do confronto com as minhas ilusões ao espelho real. Felizmente, o diagnóstico não colidiu na psicose, qual anoréctica a sentir a coxa mais volumosa ou alguma indeterminada folie à deux. Não, o diagnóstico era simples, denominava-se tão somente "coração partido", pela simples razão que ele tinha que se partir, qual casca dentro do quebra nozes. Só se saboreia um bom fruto seco assim, na precisão do corte, no talhar incisivo de rachar todas as defesas e permitir que o sabor, a plena autenticidade venha ao de cima, permitam-me a piada, com o que veio debaixo. Sim, é-me irónica a ironia da ironizada ideia de ter que sofrer para ser cada vez mais um ser polido, em todo o caso a vitimização nunca foi um grande cartaz de propaganda, pelo que gosto de ver o sofrimento como algo que devolve o inevitável. Seja ele mais auto estima, mais amor próprio, mais sentido orientador. Há algo que o sofrimento nos devolve que ficou perdido algures nos subterrâneos por iluminar. Por isso depois da cefaleia, abri dois ou três rios que já tinha atravessado algumas vezes na história e geografia da vida, e tomei decisões. Sejam elas mentais ou emocionais, ténues ou com gradual força, o que sei é que algo em mim alcançou a verdade. E aí eu não me iludi.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Let the rain fall

Não é "ele" ou "ela". São só mais uns, como poderiam ser mais outros.
Todos os outros que representam mais do mesmo que vi, vivi e activam os padrões neuronais. Uma tal rede intrincada de plasmócitos e ovócitos que plagiaram as vivências e não as deixam somente ser integras, imagens, factos e factuais. Não, acabam por ser espelhos, rolos fotográficos de anos de má memória...
Mas agora chega. 
Quero partir tudo, escolho partir tudo. 
E não é para que o novo começe. 
É para justamente ser o melhor eu que alguma vez vivi.