domingo, 20 de maio de 2018

Dreamix

Não sei ao certo qual era a casa, mas a sua imensidão de vida interior atraiu-me que nem um estrela cadente na noite cerrada. Espaçosa, cor pastel, tectos altos, arte em forma de imaginação guiada. Vibrante, fui observando cada canto como se depreendesse as qualidades que a vida presenteia, nos encantos de sentimentos arquitectados em estética bem colocada. Atentei para a minha proximidade direita, e surgiste-me tu, tão bonita e inocente, com essa candura de sorriso que encanta todos os que vejam por dentro. Dentro da nossa caminhada - porque julgas que é tua, mas os caminhos concedem sempre largueza suficiente para que quem o perceba possa entrar igualmente - encontrámos um aquário rectangular, de um azul turquesa tão fictício quanto a ilusão de quando nasce a ideia da quase consumação da vontade. Contemplámos e testemunhámos pedaços de vida escamativos a fluir (não seremos nós também peixes neste aquário terreno?) e eis que surge um peixe de um azul feroz, um azul forte como são as personalidades marcadas. Pretendi admirá-lo com maior precisão e assusto-me porque encontro uma cabeça totalmente dismórfica em porcelana. Assustada, insurgi-me contra o que via mas o peixe fitou-me com a boca em oh exclamativo e continuou a sua narrativa porque a missão  era fluir. Nisto, doce como és, espontaneamente me disseste porque não tirar-lhe a cabeça? E era tão verdade, nunca o tinha pensado, não pensei de facto. O peixe não possuia uma cabeça de porcelana, ou seja, eu visualizava um aditivo, ou complemento, criado pelas próprias cerâmicas que vivi e dou vida. Tu é que me alertaste que era assim que o via, ou que me via, ou que talvez visse o aquário. Afinal por dentro, é só mesmo ele que está.
Sintoniza—te com pessoas que te nutram, mas especialmente porque te nutres a ti próprio, te permites a que essas pessoas surjam no caminho.

sábado, 19 de maio de 2018

Numa nuvem mística qualquer entre as ondas REM e não REM, encontrei-te a sorrir num tom aloirado doce e descomprometido. Seguraste-me de um modo delicado e eu soube que a paciência e o respeito poderiam ser assim, pintariam-se assim se telas grossas de memória estas pinceladas fossem medidas. Será que te encontro?

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Lidar com emoções é como lidar com o próprio oceano! Vazando, enchendo, tumultuoso, áspero, cru, salgado, meigo, sonante... A beleza e a tempestade que nele vejo está em mim igualmente. ~
Conseguisse eu ser somente brisa marinha nos meus piores momentos...

domingo, 13 de maio de 2018

Soturno apeamento

Estava à espera do bus numa.paragem silenciosa e vaga, enquanto na mão segurava as ideologias estóicas. Numa de quem corteja também algures na Grécia antiga, eu vejo o bus e permito—me chegar à frente, mas sem remover os olhos da fonte. Eis que o bus passa e não para. O insulto e a vergonha que senti foram avassaladoras. Como ousou ele não parar? Não entender os sinais? Não perceber que eu estava ali, sozinha, enquanto o mundo dorme e é feliz num sono partilhado? Eu, que comecei o dia cheia de zanga. Sim despertou me zanga esta ignorância total, este desprezo em rodas, esta violência matinal contra outra que é já ate de sair da cama sem vontade, porque hoje era a mim que me deviam arrancar sorrisos. A mim não, também a mim. Hoje queria acreditar que posso, que todos os sonhos são possíveis, que sou digna e segura. Por vezes o aquário onde me movo e o oceano do que já foi nadado agita em mim. Mas hoje, ao ver o bus borrifar—se para o meu sinal e a minha existência, fez—me saber que a vida é isto, as oportunidades são isto. Passam, e não estão nem ai para se as fitas com adolescência ou não. Se é para apanhar o bus, estica a mão, a cabeça, a cara, mostra ao que vens logo, de vez. Senão por amor de um deus qualquer, vai fazer xixi, volta para cama e não reclames que não te entendem.

sábado, 12 de maio de 2018

Encontrei a vergonha numa casa de banho pública a lavar os pés. Tinha ambos sujos de areia e gostava de encontrar motivos para imaginar que os pés conseguissem estar melhor lavados. Eu sempre suspeitei que a vergonha gostava de caminhar em areia. Esse material que desliza, entra em cada bocadinho de pôro, cabelo, roupa. Aprecia tanto a presença quanto nós o seu contrário. Perguntei-lhe porque é que ela não me abandonava de vez, como se eu conseguisse algum dia extinguir o movimento perpétuo associativo de todos os grãos de areia que são os medos que se auto-alimentam. Ela fez um sorriso tipo snob, do tipo altivo, do tipo enfim, enquanto continuava a lavar os pés. Foi então que eu percebi que não consigo finalizá-la, fazê-la desaparecer. É preciso saber ser o oceano por cima.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Eu fui lá e tentei destruir com facas, alicates, empurrões, tigres, feras... Até estudiosa em botânica fui convocar as plantas carnívoras mais vocíferas.. Mas nada. Ninguém destrói uma ilusão até a pessoa estar realmente preparada para ela, não a alimentar, observar. Porque, por mais instrumentos de guerra que se enviem, a guerra é tão interna e ambivalente que nenhuma arma actua contra o próprio comandante quando a ordem não é real. Até as armas serem autodestrutivas para dar ao próprio a lucidez que ele não teve.