sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Alaska

Caminhava pelos campos de primavera ainda a recordar-te, tal como um balão que permanece avistado num lugar distante dos céus.
Deitei-me na relva que se assemelhava a um ombro amigo num dia escuro e sorri ao horizonte, experimentando cerrar os olhos e saber como seria o seu sorriso na forma inversa. Nesse fragmento de tempo senti um ar frio a surgir, parecendo um nevoeiro de uma paisagem misteriosa que não se desfigurou.
Eras tu que me contemplavas de perto. Eu não sabia se te contemplava igualmente, dado que a robustez do teu olhar não me concedia essa permissão. Era como se a troca não estivesse equilibrada, porém, que troca o é quando os corações não se conseguem transparecer?
Estava dominada nesse olhar como se ele me conseguisse aprisionar, mas com a particularidade de aparentar oferecer uma qualquer porta aberta, talvez uma apologia poética da tua forma de ser livre com endereço. Eu sabia que a saída existia e não almejava realizar esse caminho já conhecido, que tantas vezes tentei percorrer para me conformar ao presente. Desta vez, pretendi enfrentar-te, sabendo que enfrentar-te era estar a enfrentar-me e que o abismo em ti se abriria inevitavelmente para o abismo em mim. Rasgada, aberta, receosa. Mas firme.
Contemplei-te sentindo o ar frio que me inquiria e pesquisava de uma forma crua. Ténue era a percepção que a minha mente lógica captava, para compreender se estaria a ser descoberta ou a receber uma despedida.
Até hoje não sei se o que te percorria era medo, curiosidade ou a gelada inevitabilidade do que não pode ser, como quem constata melancólico um jardim de infância onde nunca brincou.
Não me fizeste sentir quente. Mas o que guardei de ti, tal como a melhor versão de mim sozinha, é o que me mantém cálida e a querer caminhar. Não ultimes alternativas ou reúnas um qualquer simbolismo reconfortante se a tua intenção não for proporcionar melhor do que isso.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Hino a ré maior

Estava a tocar flauta pelos montes herminios e diz—me uma cabrita:  "Amiga, levaram—me o bode porque acusaram—no de expiação, mas a verdade é que quem é raro carrega nas costas o mundo inteiro. E se o que está às costas pesa, eu, que estava no seu coração era a única coisa que nunca lhe devia ter pesado."
E posto isto, já não consegui tocar mais flauta nesse dia, sabendo talvez o porquê.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

"O que vejo em ti, corrijo em mim"

É um óptimo sinal orientador quando, através do que percepciono de menos bom nos outros imediatamente me retenho e detenho em mim e penso se não é precisamente aí que eu tenho de mudar.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Gosto tanto de prolongar a noite em trabalhos e imaginar a cidade toda a adormecer, da cidade salto para outra, e para uma vila, aldeia... Tudo dorme, tudo sonha o que poderia ser, o que não está a ser, o que está dentro de si para ser, esperando apenas a abertura de uma porta que não é mágica ou trágica é a força e possibilidade da acção..
Ahhh como gosto de sentir o embalo da noite, nos sonhos acordados que hão-de vir...
Na vulnerabilidade do rosto humano perante se entregar ao que não sabe.
Onde todos, do mau ao bom, do pobre ao rico, do inteligente ao limitado, do sensato ao tolo, todos têm esse olho fechado, na ingénua ou humilde esperança que o dia traga o que ainda não foi...

sábado, 7 de outubro de 2017

Nem sempre o interessado faz o interessante e repare-se não é de originalidade o que me refiro. Posso ser interessada em escalada mas ser quadrada a subir os muros de desafios da minha vida, apaixonada por filosofia mas o meu processo de pensamento estar moribundo, adorar teatro mas na vida real não ser verdadeira comigo e com quem estou... Portanto, já muito pensei que quem tem interesses se revela sempre interessante. É possivel e justo parcialmente, mas como o que é verdadeiro pode trazer ou não justiça e a justiça apenas existe inteira, fica-me esta última assim tremida. Pensemos nos interesses e naquilo que nos proporcionam a ser - connosco e os outros - principalmente enquanto não estão a ser exercidos. Se o interesse afastar mais do que convergir, estamos do ponto de vista do limite do interessado. Mas quando o interesse amplia, aproxima e ajuda a desenvolver, é que se abre o incrível e estrondoso campo do que é interessante. 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Quando o coração está escuro
o que quer que lá nasceu?
é adubo, terra fértil revirada
à espera que serenes no que a moveu.

Se espreitas para esse abismo interminável
de onde querias estar e a tua própria dor
de que serve no presente a tortura
de quem a si próprio não está a oferecer amor?

A diferença não é olhar do mais fundo para cima
é apenas contemplar o céu com nevoeiro por abrir
e saber que a força da tua evolução
há-de ser aquilo que se seguir.