quinta-feira, 19 de abril de 2018

Há um lugar impenetrável, feito do tempo das memórias com o tempo que percebes que passou em ti naquele exacto instante onde estás. 

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Atravessei a praia recordando as vezes em que nela me figurei em dúvidas ou simplesmente num pedido de consolo emocional no que já estava aparentemente fadado. 
Desta vez, apenas pretendi fluir o espírito, acompanhar-me de certezas que outrora estavam inóspitas, para as passear à luz do sal e sol, por haverem estado renegadas a um secundário plano da imaginação temerosa. Nesse passeio, estava eu forte e resoluta quando o mar quis alcançar-me, já ele também com saudades de me apreciar. Esta incursão de avidez colocou-me os pés num plano mais inferior, eles que já estariam mais livres e leves, acontecendo uma vertigem controlada para dentro da areia. Afinal, há sempre buracos onde queremos - e nos permitimos - a deixar cair. Talvez não fosse vertigem, chamar-lhe-ia enraizamento, uma atitude fortuita da base não se querer perder.
Essa areia nada mais seria que todos os momentos onde volto e me reconstruo para polir a visão, como que me perdendo num mapa e me re-encontrando outravez, sempre com mais certeza de que o caminho não tem mapas, mas sim focos, um querer que começa tímido para acontecer gigante. Cair então, não faz parte de nenhuma dor ou cena regressiva, são inevitabilidades. Só se apura o que permite ser visto a diferentes escalas. Por isso é que o plano é oscilante.

domingo, 8 de abril de 2018

Nobre serviçal

Rosinha no vão das escadas
limpa limpa, com a vassoura em todo o canto
Não há pó que resista a essa empreitada
de assaz querer melhorar qualquer pranto.

Rosinha esse ás da vassourinha
e isto dos finais em inha, reforça essa docilidade
de acreditar na beleza e luz do mundo
quando no seu âmago ignora ingenuamente a ambiguidade.

Rosinha do coração doce!
O tempo surgirá onde trocarás esse vão de escadas
Por um céu aberto onde se extingam as nuvens
que sopraram dos teus pequenos nadas.

Por isso, não percas a esperança!
Acredita, isso é apanágio das almas mais antigas
As que sabendo que o bem ao outro pelo sacrifício de si
Conduz a identidades mais evoluídas..

Aprendeste com a tua vassourinha
que o prazer sujeito a imediata fruição
não te conduz à vida eterna
mas à consciência inquieta numa prisão.

Então, pesados os corações no antigo Egipto
ou julgado o acto em pleno psicodrama,
ir varrendo de porta a porta para outros passarem
não foi bondade,
foi crescer na tua própria chama.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Fragmentos cinza

Se eu já não quero ser o que fui
será que ainda quero ser o que serei?
nas linhas do tempo tudo pode ser tão ténue
como um templo fechado ao próprio rei.

Chove subtilmente por toda a costa
agitam-se as árvores num vento que as envolve
a mudança surge, franca mas directa
na iminência de limpar o que não se resolve.

O que reside na entrega à consciência
no seu maior grau de envolvimento
é tão somente no que o momento pede
conceder-lhe o dom de estar atento.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Fui dar uma caminhada filosófica com o Nitzsche, Heráclito e Pessoa, numa de apanhar um bocadinho de ar fresco e produzir outros ares dentro do tumulto do pensamento interior. O passo estava um pouco apressado, o dia estava em modo sol tímido, e eu lá lhes lancei duas ou três dúvidas quotidianas, porque nisto de dúvidas, umas caminham qual sombra connosco e outras desvanecem-se e aparecem sob outras formas. Desta feita, só quis perguntar o que se precisa para ser. Quando lhes pergunto isto, começo a chorar. Reza o arquétipo universal que reside no nosso inconsciente colectivo, que chorar é um estereótipo da imagem frágil. Mas quando chorei, chorei de liberdade e chorar também é isso, trazer à luz uma liberdade qualquer oprimida. O que é ser? Ser?? Tão poucas letras, tantas maneiras. O choro era alívio, puro alivio, da descoberta de algo tão simples que me extravasava. Estaria eu a descobrir o que é ser? Estaria eu a querer plenamente ser? Estaria eu no outro lado da margem do ser, contemplando toda a passagem que tinha de fazer, como dizia Pessoa? Ou Heráclito quando falava de não passarmos na mesma água duas vezes? Ou Nietzsche que falava do abismo olhar para nós, da mesma forma como também olhamos para ele? Eu queria, eu queria tanto saber. Mas quando limpo as lágrimas do rosto e volto-me para eles, nenhum estava presente. Afinal, ser e saber ser, por muito que o outro nos devolva as respostas ou origine as inquirições internas, é um produto de uma caminhada muito longa, muito sentida, muito exposta. Exposta à nossa própria exposição. Talvez não seja irónico pensar que no tempo, só o céu é um testemunho longo e claro da nossa própria existência. As memórias têm-no, a vida tem-no. Então ser, poderá assemelhar-se a essa visão sem inicio ou fim onde nele se reflecte a plenitude da própria existência. E assim não estamos aprisionados e não há comparações com este ou aquele lado do céu, tudo é. Tal como poderíamos SER.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Era uma vez um unicónio fêmea que sempre viu o mundo da sua perspectiva voadora, voava sob telhados, cabeças, lagos, rios, muito o satisfazia rodopiar e voar sentindo a brisa quente da imaginação a povoar-lhe o corpo, os pensamentos, a vida. 
Foi encontrando outros neste embate ontológico da sua própria pele, a ideia de que milhões de anos luz juntavam, guardavam e separavam o que quer que fosse dele para os outros e dos outros para ele. Com isso desenvolveu a capacidade de conseguir estar em vários sítios ao mesmo tempo não se entregando a nenhum, construir sólidas estruturas de algodão de nuvem - e entre tudo - o tempo, esse companheiro silencioso, foi passando. 
Um dia olhou-se ao espelho e na viragem para o real, o corno estilhaçou o vidro aos bocadinhos. Foi a sua completa percepção da entrega à nitidez. A fuga para a ilusão não é só uma fuga ao mundo real. É uma fuga ao que os outros são na sua essência observável e em última e não menos importante instância, a fuga ao que se é. E o que somos tem dois pés, caminha com força sob um chão. É nesse principio que as estruturas de vida, de relação, precisam de assentar. 
E a partir desse dia, o unicórnio abandonou os céus por saber que o real tem muito mais beleza do que qualquer imaginação consiga dar. 

quinta-feira, 29 de março de 2018

O melhor das ilusões é que estas quando acabam devolvem-nos um senso interior muito mais justo. E não é melhor, pior ou diferente, é justo. Sem julgamentos de valor ou movimento estético adquirido. A própria estética é esta de ver o que é óbvio sem isso reflectir o que se quer ou pretenda querer. Por vezes parece que no fundo todos temos medo de ser sós, agarrando e desejando os vínculos ou criando vínculos imaginários que nos deixem estáveis. Mas a estabilidade é apenas ser maturo o suficiente para se ser só.